EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sexta-feira, 29 de abril de 2011

Do Jazz ao Samba



Como sabido a produção de documentários no Brasil vive seu grande momento em termos de quantidade e qualidade. Porém, tal fase ainda não permite dizer que o caminho para a realização de um projeto voltado a esse gênero tenha se tornado mais fácil. Comprovando essa afirmativa, a produção Do Jazz ao Samba corre o risco de não ser finalizada em razão da falta de recursos. Para superar tamanho obstáculo, a equipe de produção do documentário lançou, através do site http://tinyurl.com/dojazz, uma campanha para captação de doações. Neste sentido, as colaborações podem ser feitas por pessoas físicas e/ou jurídicas através de valores que variam de R$ 50,00 a até R$ 75.000,00. A meta, dentro deste contexto, é arrecadar até o dia 05/06/11, no mínimo, R$ 40.000,00, quantia essa que custeará as seguintes etapas finais da produção: gravações, edição offline e online, abertura, computação gráfica, mixagem, finalização de imagem e pagamentos de direitos autorais e de material de arquivo.
Dirigido pelo estreante em longas Bruno Veiga Neto, o filme pretende fazer um paralelo entre os estilos musicais indicados no título para, assim, discorrer sobre suas ramificações e influências, razão pela qual já foram entrevistados, até agora, artistas como Elza Soares, Roberto Menescal, Marcos Valle, Miele, Diogo Nogueira, DJ Marcelinho da Lua, Ivan Lins, Leo Gandelman, entre outros. Em entrevista exclusiva para este espaço o cineasta fez comentários sobre o filme e sobre as dificuldades encontradas por quem faz cinema em nosso país. Vejamos:

Sétima Crítica - Na apresentação descrita no site http://www.incentivador.com.br há a informação de que você é “diretor de vídeos corporativos e programas de tv há mais de 15 anos”. Fale com mais detalhes sobre essa sua já longa experiência no campo do audiovisual.

Bruno Veiga – Eu já trabalho com audiovisual há mais de 15 anos, produzindo documentários e séries de tv para canais como Multishow, Canal Brasil, STV, etc. Destaque para a direção do programa de turismo cultural “Mastercard Destino Brasil”, que rodou mais de 200 locais do país mostrando suas riquezas naturais e culturais, sempre com foco no cinema. Também dirigi a série de musicais “Projeto Novo Canto” para a STV, programas musicais que apresentavam o melhor da nova safra de músicos sempre apadrinhados por grandes nomes da MPB. Zeca Pagodinho, Milton Nascimento, Elba Ramalho entre outros participaram desse projeto. Tudo isso paralelamente ao meu trabalho na área de vídeos corporativos, já tive a oportunidade de trabalhar com as grandes empresas do país como Coca-Cola, IBM, Petrobras, Embratel, Nextel, Tim entre outras. O documentário Do Jazz ao Samba é a minha primeira experiência no cinema.

SC – Além das tradicionais dificuldades orçamentárias, quais são os obstáculos mais recorrentes com os quais um diretor estreante em longas acaba se deparando?
  
BV O diretor estreante passa por uma série de dificuldades, quando se trata do mercado audiovisual. Já estou há alguns anos tentando alavancar projetos sem muito sucesso na área de cinema. Acho que isso está evoluindo com o recente boom do cinema nacional. Porém no meu caso, arregacei as mangas, adquiri o equipamento necessário, com muito suor, e comecei a fazer. A partir daí as coisas foram acontecendo, desisti de esperar. Hoje qualquer pessoa com um celular pode produzir um documentário. Só depende dela, as ferramentas estão acessíveis, a qualidade está no conteúdo e na linguagem. 
O Globo, Segundo Caderno 21.04.11 

SC – Como surgiu a idéia do roteiro de Do Jazz ao Samba?

BV – Iniciei as filmagens em junho de 2010 quando estava nos EUA para o Festival de Cinema Brasileiro em Nova Iorque. Por intermédio de uma amiga fotógrafa, Marianna Viana, fui apresentado a um pub de jazz na região do Harlem, onde iria rodar um curta-metragem. O St. Nick’s Pub é um dos pontos mais tradicionais da cidade, ele se mantém com muita dificuldade sempre com o objetivo de fazer jazz para a comunidade, é um dos únicos que restam. Nova Iorque hoje investe mais nas grandes casas como o Carnegie Hall e Village Vanguard, voltado para turistas, cada vez mais distantes da realidade de comunidades negras como o Harlem, Brooklyn e Queens. Foi no St. Nick’s Pub que descobri o jazz americano, criado no sul dos Estados Unidos e músicos apaixonados pela música negra americana e, pasmem, pela música brasileira. Todos os jazzistas entrevistados quando descobriam minha nacionalidade, rasgavam-se em elogios com relação a música brasileira, em especial a bossa nova. Tom Jobim e João Gilberto eram nomes muito citados nas conversas. Peter Horn, baixista, até aprendeu a língua portuguesa para poder entender as letras das músicas da bossa nova. “Depois disso não consegui ouvir mais as versões americanas, se perde muito com a tradução” me falou. Foi aí que o curta virou um longa-metragem e decidi mostrar essa paixão que a música brasileira exerce em músicos de diferentes continentes.

SC – O projeto foi inscrito em concursos para obtenção de financiamento estatal?

BV – Estamos inscrevendo o filme nas leis de incentivo, pois não temos como driblar esse mecanismo. Mas estamos também recorrendo ao novo sistema de financiamento já muito utilizado fora do Brasil chamado Crowd Funding ou financiamento coletivo. Nesse sistema, amantes do samba, jazz e bossa nova poderão colaborar com qualquer quantia para que o filme fique pronto. São contribuições pelo cartão de crédito, com valores que correspondem a prêmios como o nome nos créditos finais como agradecimento especial, vagas em oficinas de cinema e até a aparição no filme como figurante e participação na equipe de filmagens e na edição. Sites como Kickstarter e RocketHub já movimentam milhares de dólares em projetos de filmes, produção de cd’s e até shows musicais. Um dos maiores exemplos de financiamento coletivo é o do filme Blue Like Jazz que tinha como meta arrecadar US$ 125.000,00 e recebeu US$ 346.000,00 de 4.495 americanos. As filmagens já começaram e o filme deve ser lançado ainda esse ano. Para quem quiser participar, o documentário Do Jazz ao Samba está em parceria com o site Incentivador.com. O Crowd Funding está começando no Brasil. Acredito que em pouco tempo já poderemos ter um mecanismo de financiamento paralelo as empresas privadas ou estatais.

SC – Até o momento quanto foi investido no filme? Houve algum patrocínio para a viabilização do material até então captado?

BV – Eu tenho aproveitado as viagens que faço a trabalho para poder ir captando o material para o filme. Adio minha volta e então tenho tempo para filmar. No Rio tenho contado com o apoio de profissionais como Bruno Souza, produtor, Mainara, assistente, para conseguir filmar por aqui. Já foram investidos por volta de 60 mil reais, contabilizando os equipamentos utilizados, profissionais envolvidos e custos de produção como hospedagem, alimentação e transporte. Ainda não houve nenhum aporte financeiro até agora, estou conversando com algumas empresas que possivelmente irão entrar no projeto como parceiras.

SC - Qual sua opinião sobre a política pública de financiamento a cultura e, em especial, ao cinema brasileiro?

BV – Acredito que a política de incentivo cultural no Brasil deva ser mais segmentada, para não só beneficiar os grandes diretores, como também os estreantes, pois só assim iremos fomentar um crescimento na indústria audiovisual brasileira, através da pluralidade de olhares. No Brasil temos casos de pessoas que saem de favelas e lugares muito pobres e viram grandes personalidades em suas áreas e não é só no futebol, mas na cultura também. É preciso abrir espaço para essas pessoas.

SC – Obter a entrevista de tantas personalidades não deve ter sido tarefa fácil. Como se deu tal processo?

BV – Não foi uma tarefa fácil não. O que me ajudou foi o trailler provisório que montei, a partir do material filmado em NY. A partir dele fui conseguindo a credibilidade necessária para marcar as entrevistas, todos viam que era um projeto sério. A partir daí fui montando o blog e as coisas foram clareando. Hoje temos muitos artistas engajados no projeto, a receptividade do enfoque foi maravilhosa. Estamos nesse momento viabilizando um show com grandes nomes para interpretarem standards de jazz e samba numa linda noite. Mas para isso dependemos de verba.

SC – Se finalizado qual o itinerário de exibição que Do Jazz ao Samba poderá ter? Além de festivais, há a possibilidade de o filme ser distribuído para circuitos alternativos e/ou comerciais? Há a intenção de destinar parte do que vir ser arrecadado para a distribuição da obra?

BV – Já recebemos propostas de exibição na Holanda, China, Canadá, Estados Unidos e Índia mesmo antes do filme ficar pronto, somente pela divulgação do trailer provisório em inglês através da internet. Pediram que mandasse o filme quando ficar pronto para avaliação. Por isso estamos correndo! Por enquanto não pensamos na hipótese de destinar parte da verba porque estamos muito voltados em viabilizar o projeto. Mas gostaríamos sim de poder ajudar algum projeto musical ou mesmo uma banda como a Rio Jazz Orchestra, única big band remanescente no Rio de Janeiro, que recentemente perdeu seu fundador, o maestro Marcos Szpilman, um dos grandes entendedores de jazz do país, que cedeu uma entrevista para o filme antes de falecer.  

Mais Informações:

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Biutiful

As Desgraças de Iñárritu

Na sequência final de Gladiador (EUA, 2000) o general Maximus Decimus Meridius consegue alcançar um objetivo maior do que a própria vingança por ele perpetrada: reencontrar, já em outro plano, a mulher e o filho outrora assassinados. Ideia semelhante conduz a narrativa de Biutiful (Espanha, 2010), qual seja o encontro do protagonista Uxbal (Javier Barden) com o pai falecido há décadas. Ambos os filmes, portanto, comungam em suas conclusões de um pensamento confortável a quem já sofreu uma perda: passar pelo inevitável rito de transição com a ajuda de pessoas amadas que não mais estão entre nós. Enquanto Ridley Scott chega a tal término pela via do épico pulsante, a obra de Alejandro González Iñárritu limita o ar poético para as cenas de abertura e de encerramento, preferindo desenvolver-se mediante uma narrativa crua e de composição estética propositalmente decadente. Neste passo, uma vez que a história principal de seu filme assim permitia, Iñárritu perde a oportunidade de trabalhar com mais leveza e poesia para insistir com seu olhar trágico e pessimista sobre o homem. Não que o mundo em que vivemos seja um mar de rosas, porém, a recorrência com que o diretor espanhol explora o prisma da mazela, da desesperança retira de Biutiful a dose de espontaneidade que tão bem lhe cairia, tarimbando o espectador para qualquer excesso que porventura surja.

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Ficha Técnica
Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Armando Bo e Nicolás Giacobon
Produção: Alejandro González Iñárritu, Jon Kilik e Fernando Bovaira
Música: Gustavo Santaolalla
Fotografia: Rodrigo Prieto
Direção de Arte: Marina Pozanco
Figurino: Bina Daigeler e Paco Delgado
Edição: Stephen Mirrione
Estreia no Brasil: 21 de Janeiro de 2011
Duração: 137 min


domingo, 24 de abril de 2011

O Garoto de Liverpool

Retrato Limitado

Quando o primeiro acorde de A Hard Day’s Night é entoado no segundo inicial de O Garoto de Liverpool (Inglaterra, 2010) o entusiasmo de imediato toma conta do espectador que, entretanto, logo percebe ter sido vítima de uma peça, pois, ao contrário do que ocorre na sequência de abertura do filme de título homônimo lançado em 1964, a canção não prossegue e o que se vê não é a corrida dos fab four para se desvencilhar de fãs histéricas, mas sim os passos em disparada de um solitário John Lennon.
Dessa maneira o longa-metragem indica que não pretende falar do grupo mas sim da trajetória específica de Lennon no que tange os traumas que tanto colaboraram para a formação de sua personalidade e de sua produção artística. Neste passo, para quem já acumula conhecimentos sobre a história do mito, O Garoto de Liverpool nada acrescenta, sendo, na verdade, um programa dispensável graças a limitação do olhar da artista plástica agora transformada em cineasta Sam Taylor-Wood.
Explique-se: o tom novelesco com o qual a produção se desenvolve apenas arranha a superfície do que foram os distúrbios familiares encarados pelo cantor/compositor em sua infância e adolescência. Tamanha trivialidade na abordagem, vale ressaltar, se associa a um elemento agravante, qual seja a equivocadíssima seleção de elenco, afinal, a vontade de ousar de Taylor-Wood ao escolher pessoas que em nada se parecem fisicamente com os verdadeiros personagens acaba se revelando um tiro no pé – ao contrário da bem sucedida hipótese de Não Estou Lá que dentre vários intérpretes para Bob Dylan apresentou uma mulher e uma criança negra – eis que os jovens atores contratados entregam atuações por demais caricatas, aspecto esse no qual se destaca negativamente Aaron Johnson que com sua canastrice compõe um John Lennon irritante e mimado, características essas que o artista de fato dispunha mas que também conviviam com toda uma gama de sentimentos complexos como a carência, além de virtudes e/ou defeitos indissociáveis como o sarcasmo.  
Portanto, é essa dualidade de Lennon que O Garoto de Liverpool não consegue alcançar. A impressão que fica é a de que sua diretora se sai melhor no campo das sugestões – vide as menções as ambíguas relações do artista para com sua mãe e para com o parceiro Paul McCartney – do que no aprofundamento psicológico dos seres retratados, o que é lamentável visto que material para tanto não faltara.

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Ficha Técnica

Título Original: Nowhere Boy
Direção: Sam Taylor Wood
Elenco: Kristin Scott Thomas (Mimi Smith)Ellie Jeffreys (Teddy Girl)David Threlfall (Uncle George)Daniel Ross (Nigel Whalley)Michael James Johnson (Stan Parks)Sam Bell (George Harrison)Christian Bird (Jimmy Tarbuck)Anne-Marie Duff (Julia Lennon)Jack McElhone (Eric Griffiths)David Morrissey (Bobby Dykins)Thomas Sangster (Paul McCartney)Aaron Johnson (John Lennon)Ophelia Lovibond (Marie Kennedy)Josh Bolt (Pete Shotton)Simon Lowe (Jim Gretty)Calum O'Toole (Teddy Boy)Les Loveday (Teddy)Daniel Solazzo (Teddy Boy)
Estreia no Brasil: 3 de Dezembro de 2010
Duração: 98 minutos
Curiosidade: Sam Taylor-Wood, 43, e Aaron Johnson, 20, conheceram-se trabalhando como diretora e ator em O Garoto de Liverpool. Apaixonaram-se e viraram alvo de escândalo na Inglaterra, por conta da diferença de idade. O casal acaba de ter uma filha” (FONTE: Preview. Edição 13. Ano 2. São Paulo: Sampa, Setembro de 2010. p. 62).

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Chuvas de Verão

Mosaico Quebradiço

Críticas interessantes são aquelas que mesmo dispensando menção a sinopse aguçam a curiosidade do público para com a obra comentada. Há hipóteses, porém, em que o resumo da narrativa se revela indissociável da análise graças a peculiaridades da trama que clamam por avaliações.  
Por isso, cabe dizer que Chuvas de Verão (Brasil, 1977) gira em torno dos quatro primeiros dias de aposentadoria vividos pelo personagem principal ao lado de vizinhos, amigos e parentes cujos desânimos e privações caminham paralelamente as incertezas daquele primeiro. Cumprida, portanto, essa fase introdutória do texto, passemos, então, ao cerne da discussão:
Há diretores, como Pedro Almodóvar, que conseguem trabalhar com um emaranhado de personagens e trajetórias sem prejudicar a coesão e a própria validez do longa-metragem. Nesse caso o risco da empreitada, por óbvio, é sempre maior dada a possibilidade de:
·         assuntos virem a ser mal aproveitados;
·         a edição não lograr êxito em dar para cada tópico o tempo necessário ou merecido.
Dentro deste contexto, Chuvas de Verão funciona como exemplo de uma malfadada tentativa nesse sentido. Mediante um roteiro que aborda temas variados como: terceira idade, solidão, violência, desigualdade social, homossexualismo e moralidade, Cacá Diegues atira para todos os lados sem acertar nenhum alvo específico, de forma que sua intenção de realizar um retrato comportamental sobre parcela da sociedade, acaba resvalando na pretensão.
Como outrora sugerido, reunir com sucesso muitos plots em torno de um só eixo não é tarefa impossível, desde que reste garantido a cada ramificação o respectivo e devido desenvolvimento, aspecto esse que, no caso do filme de Diegues, se mostra comprometido graças a enfoques rasos e superficiais acompanhados de conclusões ora abruptas ora dispensáveis.
Em razão da presença de tantas histórias e tantos personagens duas hipóteses, por certo, se adequariam com mais eficiência a produção, quais sejam o desmembramento do roteiro para utilização de suas idéias ao longo de três ou quatro curtas-metragens ou o descarte de, pelo menos, duas ou três sub-tramas para assim viabilizar a profundidade requerida pelos dramas encenados; afinal, a mera sugestão, convenhamos, não é o bastante para uma obra que propõe a tantas discussões. Ao tentar abraçar o mundo com as pernas, Cacá Diegues despe seu projeto de qualquer espontaneidade e o insere no rol daqueles que se afogam nas próprias boas intenções.¹
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¹. Nesta toada, Carandiru (Brasil, Hector Babenco, 2003) é outro exemplo de obra nacional que padece do mesmo vício.

COTAÇÃO: ۞۞

Ficha Técnica

Direção e Roteiro: Cacá Diegues
Duração: 96 minutos

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Senna

Parábola Verídica

Sem dúvida a grande virtude do documentário Senna (Reino Unido, 2010) consiste no fato de ser dirigido por um cineasta estrangeiro¹. Afastado de qualquer tom ufanista, o britânico Asif Kapadia não só ilustra e discorre sobre o heroísmo do mito como também abre espaço para cenas mostrando que o piloto também sabia quando preciso ser turrão e mal-humorado, humanizando, assim, o retrato realizado.
Dentro deste contexto, se por um lado esse distanciamento da identidade nacional garante maior objetividade ao longa-metragem, por outro lado demonstra a carência do diretor quanto ao conhecimento de campo necessário para o aprofundamento da relação entre as mazelas e agruras sofridas pelo povo brasileiro e o alento e felicidade com que Senna o presenteava mediante cada vitória e cada bandeira pátria orgulhosamente empunhada – pecado esse que, apesar de presente, há de ser considerado insignificante eis que o assunto acaba sintetizado com eficiência através da declaração de uma mulher que, durante o cortejo do corpo do atleta, afirma que o tri-campeão mundial era a única coisa boa que os brasileiros dispunham até então.
A versão estendida do documentário, disponível nas cópias em blue-ray, acresce em cerca de uma hora a duração original da produção por conta da inserção de diversas entrevistas². Neste sentido, é dada voz a Alain Prost para que este faça comentários sobre a atroz rivalidade travada com Senna, aspecto esse no qual chama atenção a maturidade de dois homens que por um tempo não se toleraram, mas que, em seguida, souberam reconhecer o talento e o valor um do outro.
A saga de Ayrton Senna da Silva por muitas vezes se confundiu com a parábola de Davi contra Golias, dadas as diversas arbitrariedades das quais foi vítima em benefício do favoritismo do presidente da FIA, o francês Jean-Marie Balestre, pelo conterrâneo Prost, o que não raro faz com que o filme se assemelhe a uma obra de ficção. É uma pena, porém, que as lágrimas debulhadas durante a exibição por aqueles que em tantas manhãs de domingo se emocionaram com o brasileiro sejam fruto de uma história real e deveras cruel.
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1. “Ao ser contratado, o diretor Asif Kapadia pouco sabia sobre a vida de Ayrton Senna e a Fórmula 1. Era esta a intenção dos produtores, para que ele tivesse um olhar imparcial sobre o material do filme” FONTE: http://www.adorocinema.com/filmes/senna/noticias-e-curiosidades/.
2. Num universo de extensos depoimentos colhidos de jornalistas esportivos e demais profissionais da Fórmula Um, é de se estranhar a ausência de Galvão Bueno, afinal, por anos este manteve forte laço de amizade com Ayrton Senna.

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Ficha Técnica

Direção: Asif Kapadia
Roteiro: Manish Pandey
Música: Antonio Pinto
Edição: Chris King e Gregers Sall
Estreia no Brasil: 12 de Novembro de 2010

terça-feira, 12 de abril de 2011

Lixo Extraordinário

Interpretações em Leque

O produtor e diretor Zelito Viana em seu artigo Nosso Espelho tece a seguinte opinião:
“insistimos em querer combater a desigualdade social encarando o problema como econômico, social ou político. Acontece que nós somos desiguais por um problema de natureza cultural. A desigualdade é, nada mais nada menos, fruto de uma herança comportamental, de natureza cultural, que recebemos de nossos avós e tetravôs (...).
Enquanto ficarmos discutindo economia, superávit primário, balança comercial, dívida externa e/ou esbravejando ‘tudo pelo social’ (...) não conseguiremos mudar um milímetro da nossa tremenda desigualdade social (...).
De que adiante a educação formal e informativa sem cultura? Só o desenvolvimento cultural da imensa maioria da população pode nos tirar deste abismo.
(...) a cultura tem se constituído na única ferramenta capaz de ganhar o inconsciente dos jovens da periferia das grandes cidades, afastá-los do tráfico (...). É com o Teatro, a Dança, o Vídeo (...) que podemos devolver a auto-estima aos nossos jovens (...)
Quem sabe, nos próximos trinta anos a cultura esteja efetivam,ente na pauta da preocupação de todos nós?”¹.

Corroborando a tese de Viana, o artista plástico Vik Muniz realizou ao longo de quase três anos uma experiência na qual confeccionou obras a partir de matérias-primas extraídas do aterro sanitário de Jardim Gramacho (RJ) por catadores profissionais de lixo, aspecto esse no qual residiu o principal objetivo de Vik: utilizar tais pessoas como elementos de retratação e de intervenção no trabalho artístico, para, assim, mostrar-lhes uma realidade diversa da pobreza do dia-a-dia.
Considerando que Lixo Extraordinário (2010) não se funda em eventos preexistentes, o que se vê é o desenrolar de um projeto que não raro transita com o risco de fracasso financeiro e/ou ideológico, viés esse no qual, vale frisar, reside o momento mais marcante do documentário: entusiasmados com o novo mundo para eles descortinado, os catadores revelam a angústia sentida ao perceberem que não só o término das gravações se aproxima como também o dia em que terão de retornar para a rotina de outrora. Preocupado, Vik discute com seus colaboradores sobre até que ponto as boas intenções poderiam, perante seres tão vilipendiados pelo Estado, resultar num choque cultural de natureza irremediavelmente prejudicial².
Neste diapasão, os intertítulos finais de Lixo Extraordinário demonstram que, mesmo tendo sido inevitável a interrupção da convivência entre a equipe de produção e os catadores, as vidas destes últimos quando não foram atingidas por certo grau de melhoria financeira foram, pelo menos, presenteadas com um novo sentido, passando tais pessoas a se enxergar com mais valor, dignidade e orgulho.
Não obstante o louvável altruísmo de Vik Muniz, algumas questões, vale dizer, se mostram inafastáveis quanto a análise de seu ato e do registro cinematográfico feito. Assim:
·      Muito embora seja esta uma produção internacional, haveria necessidade dos diálogos entre o artista e seus colaboradores, também brasileiros, serem travados em inglês? Afinal, por mais que o longa-metragem tenha como pano de fundo temáticas universais – quais sejam o combate a pobreza e o incentivo a reciclagem – sua abordagem não está entrelaçada ao prisma de uma realidade nacional?
·      O início e o término desenvolvidos a partir de cenas do programa do Jô poderiam ser descartados em benefício de uma edição mais criativa?
·      O registro cinematográfico do projeto seria um meio de difusão e de estímulo a solidariedade ou, por outro lado, traria em si indícios de autopromoção de Vik Muniz?
·      A antropologia partilhada³ do experimento resta maculada pelo viés por vezes maniqueísta do filme?
·      A cultura se posta acima de aspectos sociais políticos e/ou financeiros constitui elemento suficiente de transformação de realidades?
Todas essas são perguntas marcadas pela interdisciplinaridade, daí suas respostas não se esgotarem numa única análise, caracterizando, portanto, trabalho não só para profissionais da sétima arte como também das ciências sociais e da psicologia. Por isso, goste-se ou não, Lixo Extraordinário merece todos os aplausos a ele dirigidos, afinal são poucas as obras capazes de dialogar com uma soma tão vasta de assuntos.
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1.    FONTE: Contente em Ler – Cineastas – Crônicas, Contos e Recordações. Brasília: Usina de Letras, 2010. p. 129-33.
2.    Dentro da história do cinema brasileiro tal discussão fora propagada quando do assassinato de Fernando Ramos da Silva, ator que mesmo após interpretar o papel principal do filme Pixote (Brasil, 1980) voltou para as ruas e teve um trágico fim.
3.    Método pelo qual o objeto de estudo é manipulado, desenvolvido tanto por quem pesquisa quanto por quem é pesquisado.

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Ficha Técnica

Título Original: Waste Land
Direção: Lucy Walker, João Jardim, Karen Harley
Fotografia: Duda Miranda
Edição: Pedro Kos
País de Origem: Reino Unido; Brasil
Estreia no Brasil: 21 de Janeiro de 2011
Duração: 94 minutos