EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




segunda-feira, 28 de março de 2011

Nine

Remake não. Repaginação sim.

Apesar do elenco abarrotado de estrelas e da direção assinada pelo expert em musicais Rob Marshall (realizador do oscarizado Chicago), Nine (EUA, 2009) fora frequentemente apontado como um trabalho decepcionante pela crítica especializada, impressão essa, ao que tudo indica, anuída pelo grande público cujo parco interesse pela obra fora constatado através das minguadas bilheterias arrecadadas.
Dentro deste contexto, cabe questionar: seria justa tamanha frieza com a qual o filme foi recebido? Certamente não. Eis as razões:
·      Como sabido, Nine compartilha do enredo de 8 ½ de Federico Fellini (Itália, 1963); porém, ao contrário do que, pelo visto, muitos ansiavam, o longa-metragem de Rob Marshall em momento algum se presta a funcionar como remake daquele, eis que, na verdade, seu principal intuito é figurar como uma versão cinematográfica do espetáculo homônimo encenado nos palcos da Broadway.
·      Por isso, felizmente, Nine não possui a pretensão de se igualar em profundidade ao clássico de Fellini, preferindo, por outro lado, privilegiar o viés onírico do roteiro original para, assim, apresentar sequências musicais ora suntuosas ora - na medida do possível - intimistas.
·      Para tanto, a produção é presenteada com excelentes trabalhos de fotografia e de direção de arte os quais, vale frisar, preenchem de beleza cada tomada sem, contudo, derraparem na cafonice – mal que não raro assombra os demais exemplares do gênero.
A despeito dessas virtudes e da forma tranqüila com a qual se desenrola a exibição, é inevitável a sensação, consoante as análises negativas outrora mencionadas, de que o filme carece de algo – de misteriosa especificação – para seu melhor rendimento. Todavia, no que tange aquilo a que se propõe ser – entretenimento sofisticado e homenagem a um marco do cinema mundial e, sobretudo, italiano – a produção alcança suas metas com considerável margem de segurança, o que, por fim, garante, no mínimo, diversão de gosto apurado.

COTAÇÃO: ۞۞۞

Ficha Técnica
Direção: Rob Marshall
Elenco: Nicole Kidman (Claudia Nardi)Roberto Nobile (Jaconelli)Judi Dench (Liliane La Fleur)Kate Hudson (Stephanie Necrophuros)Marion Cotillard (Luisa Contini)Andrea Di Stefano (Benito)Ricky Tognazzi (Dante)Sophia Loren (Mamma)Stacy Ferguson (La Saraghina)Penélope Cruz (Carla Albanese)Elio Germano (Pierpaolo)Daniel Day-Lewis (Guido Contini)Giuseppe Cederna (Fausto), Fergie (Saraghina)
Música: Maury Yeston
Fotografia: Dion Beebe
Direção de Arte: Peter Findley, Phil Harvey e Simon Lamont
Figurino: Colleen Atwood
Edição: Claire Simpson e Wyatt Smith
Estreia no Brasil: 18 de Dezembro de 2009
Duração: 119 minutos

Curiosidades:

“- A versão original da Broadway estreou em 9 de maio de 1982, com Raul Julia interpretando Guido Contini. Foram 729 apresentações e cinco prêmios Tony ganhos;
- A última versão exibida na Broadway estreou em 10 de abril de 2003 e foi estrelada por Antonio Banderas. Foram 283 apresentações e dois prêmios Tony;
- Antonio Banderas recusou a oferta de interpretar Guido Contini no cinema;
- Seria Javier Bardem o intérprete de Guido Contini, mas o ator desistiu do papel para ter um ano sabático;
- O elenco de Nine conta com seis vencedores do Oscar: Nicole Kidman (As Horas), Daniel Day-Lewis (Meu Pé Esquerdo e Sangue Negro), Penélope Cruz (Vicky Cristina Barcelona), Judi Dench (Shakespeare Apaixonado), Marion Cotillard (Piaf - Um Elogio ao Amor) e Sophia Loren (Duas Mulheres). Além deles, Kate Hudson foi indicada por Quase Famosos” (FONTE: http://www.adorocinema.com/filmes/nine/noticias-e-curiosidades/).

sexta-feira, 18 de março de 2011

Espantalho


Faça-se a Justiça

Max é um grosseirão, um ser turrão e aborrecido cujo modo de solucionar conflitos é distribuir sopapos. Francis é uma criança em corpo de adulto, um homem que, não obstante as dificuldades experimentadas, opta por procurar o lado positivo das coisas para com sorrisos desarmar seus oponentes. A princípio uma única semelhança associa os dois: a condição de andarilhos errantes. Aproximados pelo acaso, ambos iniciam uma jornada na qual a amizade cultivada e a influência entre eles trocada servirão de justificativas para a transformação de seus comportamentos.
Em Espantalho (EUA, 1973) Gene Hackman e Al Pacino formam na tela uma parceria que figura facilmente entre as maiores do cinema. Enquanto o primeiro é incumbido de revelar a humanidade de um tipo que não titubeia em anunciar que não ama a nada nem ninguém, Pacino, por sua vez, mostra o grande ator que um dia foi ao compor um personagem ingênuo cujo jeito constantemente brincalhão esconde profundos arrependimentos - sua impecável transição de um homem radiante para um ser moribundo, vale dizer, sintetiza toda a desesperança de uma sociedade cujos valores vinham sendo reavaliados desde a década anterior (1960) quando temas como preconceito racial e guerra do Vietnã levaram os jovens a assumir uma postura de protesto comprometida sobretudo com o presente.
Neste sentido, salta aos olhos o roteiro bem delineado em torno de uma metáfora cujo teor pacifista resume o flower power tão difundido pelos artistas de então. Somem-se aos pontos positivos mencionados, inegáveis virtudes técnicas como o belo trabalho de fotografia que, ao privilegiar os planos gerais, indica a vastidão e a solidão que circundam os protagonistas, bem como a inteligente edição de som que ora dá preferência ao silêncio ora ressalta ruídos em primeiro plano para, assim, criar a sensação de angústia pretendida pelo diretor Jerry Schatzberg.
Tantas qualidades, por fim, renderam a Espantalho o Grand Prix em Cannes, o que, entretanto, não impediu que o longa-metragem permanecesse esquecido no tempo. Talvez a presença de um eixo narrativo aparentemente semelhante ao de Perdidos na Noite (Midnight Cowboy, EUA, 1969) seja uma razão para tal “anonimato”, muito embora caiba frisar que, na verdade, desde a época de seu lançamento, o filme já não recebera o tratamento que lhe era de direito, daí o escritor Peter Biskind, ao longo de seu estudo sobre a incrível produção cinematográfica dos anos 70, afirmar: “O solo dessa época era tão fértil que produzia até um fascinante conjunto de obras secundárias, visto na época como inferior, do ponto de vista artístico ou comercial, mas que sem dúvida é repleto de mérito: Espantalho, O Último Acerto, (...) e vários filmes de Cassavetes”¹.
Logo, já passa da hora de fazer a justiça para Espantalho: uma produção sensível, de saborosa apreciação – dado o bem humorado desenvolvimento – e que não se acanha em descortinar um lado duro e melancólico, à medida que a caminhada de seus personagens vai lentamente se afastando do rumo por eles planejado para a satisfação de seus sonhos.
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1.    Como a Geração Sexo-Drogas-e-Rock’n’roll Salvou Hollywood. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2009. p 14.

COTAÇÃO۞۞۞۞۞

Ficha Técnica

Título Original: Scarecrow
Produção: Robert M. Sherman
Música: Fred Myrow
Fotografia: Vilmos Zsigmond
Figurino: Jo Ynocencio
Edição: Evan A. Lottman e Craig McKay
Elenco: Ann Wedgeworth (Frenchy)Al Cingolani (Skipper)Rutanya Alda (Woman in Camper)Charles Noel (Doctor)Richard Lynch (Jack Riley)Richard Hackman (Mickey Grenwood)Gene Hackman (Max Millan)Penelope Allen (Annie Gleason)Eileen Brennan (Darlene)Dorothy Tristan (Coley)Al Pacino (Francis Lionel 'Lion' Delbuchi)
Duração: 112 minutos

domingo, 13 de março de 2011

Anatomia de um Crime

O Encontro do Cinismo com a Ambiguidade

Dentre os inúmeros exemplos que compõem a categoria dos ‘filmes de tribunais’, Anatomia de um Crime (EUA, 1959) é facilmente percebido como o mais pulsante e bem sucedido resultado do gênero, o que, vale dizer, se deve ao primoroso trabalho de Otto Preminger, cuja direção logra êxito tanto na condução do elenco quanto na forma de abordagem do roteiro.
Dentro deste contexto, nada parece ser o que de fato é em Anatomia; além de ressaltar a ambigüidade do comportamento de determinados personagens, Preminger opta por jamais mostrar qualquer imagem do estupro e do assassinato que embasam o julgamento encenado, levando o espectador, portanto, a não apenas imaginar os eventos relatados como também a tecer seu próprio juízo de valor acerca da culpabilidade do réu – afinal, a Justiça exercida pelo Estado pode, como em qualquer caso concreto, vir a se manifestar como um ato falho embasado numa utópica busca pela verdade real.
Repleto de diálogos cínicos, o longa-metragem conta com a cumplicidade de atores em estado de graça: James Stewart, como de praxe, mostra grande talento ao enveredar por uma toada nervosa que nas mãos de outra pessoa poderia rapidamente resvalar no exagero, Bem Gazarra com seu semblante duro e boçal entrega o devido tom de mistério pedido pelo papel do acusado, enquanto George C. Scott constroi sem dificuldade a figura do prepotente procurador que tanto contrasta com o advogado boa praça de Stewart. Tantos nomes masculinos de peso, entretanto, são engolidos pela arrebatadora atuação de Lee Remick que transita com imensa sinceridade entre a sensualidade, a falta de caráter, a ousadia, a inocência e a dor, compondo uma personagem de complexidade superior, isso porque sua Laura Manion é quem mais representa a natureza nada é o que parece ser outrora mencionada.
Apesar de suas quase três horas de duração, Anatomia de um Crime é um filme de deliciosa degustação seja em razão dos méritos supracitados seja em virtude da atenção dispensada para os banais e corriqueiros acontecimentos aos quais uma Corte fica sujeita - aspecto esse que, ressalte-se, agrega um bem vindo tom de comicidade a trama.  Para muitos a conclusão da história pode parecer deveras abrupta quando comparada ao seu extenso desenvolvimento, porém, considerando que a intenção de Preminger é deixar o público se questionando sobre a qualidade do veredicto obtido pelos jurados, tal “escorregão” logo se revela justificável, ainda mais se pensarmos que para o cineasta o que importa não é o fim, mas o meio, isto é, a forma com que fatos vão sendo descobertos, bem como a presença ou ausência de ética com a qual são apresentados, daí porque Anatomia de um Crime confere generosa dose de realismo a estrutura narrativa clássica do cinema americano.

COTAÇÃO۞۞۞۞

Ficha Técnica

Título Original: Anatomy of a Murder
Direção e Produção: Otto Preminger
Elenco: Brooks West (Mitch Lodwick)Ben Gazzara (Lt. Frederick Manion)Duke Ellington (Pie Eye)James Stewart (Paul Biegler)Ned Wever (Dr. Raschid)Lee Remick (Laura Manion)Kathryn Grant (Mary Pilant)Severn Darden (Maida Rutledge) Royal Beal (Sheriff Battisfore)Orson Bean (Dr. Matthew Smith)Russ Brown (George Lemon)Murray Hamilton (Alphonse Paquette)Joseph Kearns (Lloyd Burke)Joseph N. Welch (Juiz Weaver) Brandon Ross (Duane 'Duke' Miller)Jimmy Conlin (Clarence Madigan)Alexander Campbell (Dr. W. Gregory Harcourt)Lloyd Le Vasseur (Court Clerk)Ken Lynch (Sgt. James Durgo)Howard McNear (Dr. Dompierre)Arthur O'Connell (Parnell Emmett McCarthy)John Qualen (Sulo) George C. Scott (Claude Dancer)
Duração: 160 minutos
Curiosidade: Além de Anatomia de um Crime, o designer de cartazes e de abertura de filmes Saul Bass trabalhou em outras duas obras de Otto Preminger: Carmen Jones (1954) e O Homem do Braço de Ouro (1955).

quarta-feira, 9 de março de 2011

Mary & Max - Uma Amizade Diferente

Cativantes Porém Marginalizados

 Lançando mão novamente do conceito narrativo abordado no excelente Harvie Krumpet, premiado em 2003 com o Oscar de melhor curta de animação, o diretor Adam Elliot volta a tratar de seres solitários e marginalizados pela sociedade no brilhante Mary & Max - Uma Amizade Diferente (Austrália, 2009).
Neste sentido, assuntos como alcoolismo, homossexualismo, suicídio, cleptomania, preconceito, disfunção psicológica e ausência de enquadramento perante padrões estéticos fornecem o tom para uma história profundamente triste, melancólica e pessimista, porém, ao mesmo tempo, extremamente cativante dado o respeito com o qual as personagens são desenvolvidas.
Longe de buscar o rumo da superação, do drama edificante, o cineasta adota um viés pé-no-chão, preferindo, assim, centrar sua mensagem no fato de que por mais desgraçada que seja a trajetória de uma pessoa não será necessariamente um final supostamente feliz que a fará sentir que valeu a pena viver, mas sim os inusitados eventos e amigos surgidos ao longo da caminhada.
Como colaboração para a acertada forma com que a natureza dos protagonistas é trabalhada, a fotografia assume duas paletas basilares, quais sejam a versão acinzentada, em consonância com a realidade de Max, e a coloração sépia, em conformidade com os anseios de Mary para quem a alegria muitas vezes só é encontrada numa barra de chocolate.
Tocante e sensível, Mary & Max constitui exemplo de filme que despedaça o coração de quem o assiste mas que, simultaneamente, desperta no espectador verdadeira e imediata paixão por figuras que, apesar de aparentemente cinematográficas, são facilmente encontradas mundo afora.

COTAÇÃO – ۞۞۞۞۞

Ficha Técnica
Título Original: Mary and Max
Direção e Roteiro:Adam Elliot
Produção: Melanie Coombs
Elenco: Toni Collette (Mary Daisy Dinkle (voz))Julie Forsyth (voz)John Flaus (voz)Ian 'Molly' Meldrum (Homem sem teto (voz))Philip Seymour Hoffman (Max Jerry Horovitz (voz))Barry Humphries (Narrador (voz)Renée Geyer (Vera (voz))Eric Bana (Damien (voz))Michael Ienna (Lincoln)Bethany Whitmore (Daisy pequena (voz))Kyle Massey (Voz Adicional)
Duração: 92 minutos