EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia

Western Hardcore

Após descobrir a gravidez de sua filha, chefão do crime organizado mexicano ordena que a mesma seja espancada até revelar a identidade do responsável pela paternidade, qual seja Alfredo Garcia, cuja cabeça é logo posta a prêmio. Contratado para encontrar o malfadado procriador, um músico de passado e caráter duvidosos logo descobre que Alfredo já está morto, razão pela qual o caçador de recompensas parte, junto com a amante prostituta, em busca do cadáver do qual será extirpada a tão valiosa cabeça.
Com base neste singelo argumento, Sam Peckinpah realiza através de Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia (EUA/México, 1974) o tipo de trabalho visceral que Hollywood tanto lhe impedia de fazer; afinal, o filme, como sabido, é resultado da ira causada no diretor depois que seu Pat Garrett & Billy the Kid (EUA, 1973) foi retalhado por produtores. Lançando mão de uma dieta regada a álcool e drogas, o diretor, então, partiu ao México onde, com a colaboração de uma equipe local, encontrou a ambientação ideal para a realização de um longa-metragem de baixo orçamento calcado na repulsa por concessões as regras impostas pelos estúdios.
Hoje a violência de Alfredo Garcia pode não causar o mesmo impacto da época de seu lançamento, porém, seus personagens sórdidos, mesquinhos e ambíguos mantêm-se pulsantes como elementos fundamentais de uma narrativa transgressora, daí muitos verem Peckinpah como uma influência determinante ao estilo assinado por Quentin Tarantino – ainda que, no caso específico da produção em comento, a estética daquele primeiro, envolta por seres sebosos, bigodudos e boçais traga de imediato a lembrança dos trabalhos criados por Robert Rodriguez.
O certo é que poucos ousaram como Peckinpah, afinal, quem teria, tal como ele, a coragem de mostrar segundos de afeto trocados entre estuprador e vítima antes da consumação do fato? Quem utilizaria o mote da busca por uma cabeça em um gênero diferente do terror? Pode soar deveras incorreto, mas, há males que vem para o bem, isso porque nada como ter um trabalho mutilado por um estúdio para, em seguida, entregar um western urbano tão hardcore quanto Alfredo Garcia.

COTAÇÃO - ۞۞۞۞

Ficha Técnica

Título Original: Bring me the head of Alfredo García
Direção: Sam Peckinpah
Elenco: Kris Kristofferson (Motoqueiro)Richard Bright (Barman)Emilio Fernández (El Jefe)Helmut Dantine (Max)Gig Young (Quill)Robert Webber (Sappensly)Isela Vega (Elita)Warren Oates (Bennie)
País de Origem: Estados Unidos da América
Estreia Mundial: 14 de Agosto de 1974
Duração: 112 minutos
Curiosidade: “Ao conceber a história de “Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia”, Sam Peckinpah pensava em produzir um filme que espelhasse um velho clássico sobre o poder da cobiça, ‘O Tesouro de Sierra Madre’. Há até uma citação da obra de John Huston: depois de conhecer o pianista, um dos caçadores de recompensas do milionário se apresenta como Freddy C. Dobbs. O nome é o mesmo utilizado pelo personagem de Humphrey Bogart”. FONTE: http://www.cinereporter.com.br/dvd/tragam-me-a-cabeca-de-alfredo-garcia/

Nenhum comentário:

Postar um comentário