EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Os 10 Melhores de 2010


Cinéfilo que é cinéfilo adora listas; filmes que já viu, que quer ver, que não quer ver, obras principais de determinado gênero, diretor, ator/atriz são alguns dos itens que comumente preenchem cada rol criado pelos cinemaníacos. Pensando nisso, nada melhor que aproveitar o último dia do ano para listar os dez melhores trabalhos de 2010 que estrearam nos circuitos comercial e/ou alternativo da cidade de Belém. Desta feita, vamos, então, aos dez mais:

01.                     O Segredo dos Seus Olhos

A obra-prima de Juan José Campanella que consagrou em definitivo o novo cinema argentino e que se sagrou como grande vencedora do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano.

02.                     Os Famosos e os Duendes da Morte 

A estréia de Esmir Filho como diretor de longas-metragens resultou em um trabalho autoral, poético e antenado com a geração indie ainda pouco retratada no cinema.

03.                     A Rede Social

David Fincher surpreende mais uma vez ao contar uma história que muitos suspeitavam não dispor de atrativos. Nas mãos de Fincher a trama envolvendo a criação do Facebook se tornou um filme pulsante e com cheiro de Oscar.

04.                     Ao Lado da Pianista

Suspense francês de grande simplicidade e notória eficiência. Filme para ver e rever.

05.                     Tropa de Elite 2

Yes, nós temos blockbuster! A sequência que superou o fenômeno do filme anterior seja em qualidade seja em bilheteria.

06.                     O Fantástico Sr. Raposo

Wes Anderson revisita as esquisitices que normalmente permeiam suas obras, valendo-se desta vez da animação em stop-motion. Ainda não viu? Então corra.
 
07.                     Abutres

Ricardo Darín estrela mais um grande filme argentino que aqui é mesclado com elementos da produção sul-coreana. Abutres foi o filme escolhido pelos hermanos para concorrer a uma vaga na disputa pelo Oscar 2011 de Melhor Filme Estrangeiro.

08.                     Tudo Pode Dar Certo


A forma continua a mesma mas o conteúdo é mais uma vez hábil nas variações, densidade e graça. Tudo Pode Dar Certo é Woody Allen novamente acertando em cheio.

09.                     A Origem

A ficção de pitadas surrealistas de Christopher Nolan pode até não ter conquistado um bom resultado nas bilheterias brasileiras, mas é um entretenimento cerebral – algo raro – a ser respeitado.

10.                     A Jovem Rainha Vitória

Requinte e bom gosto marcam esta produção de Martin Scorcese que se consagrou como vencedora do Oscar de Melhor Figurino, mas que poderia facilmente ser lembrada nas premiações de quaisquer outras categorias.
Leia a crítica: http://setimacritica.blogspot.com/2010/12/jovem-rainha-vitoria.html

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

A Jovem Rainha Vitória

Requinte e Bom Gosto

Requinte é palavra de ordem em A Jovem Rainha Vitória (Inglaterra/EUA, 2009); com figurinos ricos em detalhes e uma direção de arte primorosamente amparada pelas locações em castelos e mansões britânicas, o filme apresenta um apuro visual que, ao contrário do que se possa pensar, não se contenta em ser apenas um espetáculo para os olhos, eis que a esmerada concepção busca, sobretudo, colaborar para com a fluidez da narrativa.
Explique-se: trabalhos sobre intrigas palacianas tendem a, não raro, transitar do intricado para o enfadonho, o que jamais ocorre na obra em comento, afinal, a suntuosidade dos ambientes filmados é utilizada para não só definir o meio em que viveu a rainha e como também o quanto aquele colaborou para a formação de seu comportamento. Neste sentido, a trajetória da monarca é mostrada de forma humanizada, para, assim, revelar-se a forte personalidade da mesma, bem como a insegurança que, por vezes assombrava a mulher Vitória nos momentos em que se via rodeada pela pompa de uma Corte caracterizada por amealhar interesses diametralmente opostos de seus súditos.
Justamente por tecer um panorama humano da protagonista, o roteiro volta seu olhar para a descoberta do amor entre a rainha e o príncipe da Bélgica, relação essa que resultou num casamento embasado em genuínos laços de afeto - fato incomum para a época. Neste passo, o romance vivido em meio aos compromissos e responsabilidades oriundos da Coroa poderia facilmente resvalar em tom novelesco, o que, felizmente, não ocorre graças a sobriedade com que o diretor Jean-Marc Vallée conduz a trama.
A Jovem Rainha Vitória foge, por fim, dos formatos tradicionais ao gênero, para, ato contínuo, manter com afinco a atenção do público durante todo seu desenvolvimento. Não fosse o bastante, a produção ainda serve de vitrine para o potencial até então não explorado de Emily Blunt que aproveita a oportunidade ao interpretar com imensa naturalidade uma personagem complexa cujos erros e acertos são explorados sem titubeação como forma de garantir a devida dose de imparcialidade ao retrato. Eis, portanto, uma atriz de talento tão acachapante quanto sua beleza e que parece ter ainda muito o que mostrar; fiquemos, então, no aguardo.

COTAÇÃO - ☼☼☼☼

Ficha Técnica
Título Original: The Young Victoria
Elenco: Emily Blunt (Vitoria)Julian Glover (Duque de Wellington)Jim Broadbent (Rei William)Rachael Stirling (Duquesa de Sutherland)Thomas Kretschmann (Rei Leopoldo da Bélgica)Mark Strong (Sir John Conroy)Jesper Christensen (Barão Stockmar)Michiel Huisman (Ernest)Harriet Walter (Rainha Adelaide)Miranda Richardson (Duquesa de Kent)Jeanette Hain (Baronesa Lehzen)Genevieve O'Reilly (Lady Flora Hastings)Rupert Friend (Albert)Paul Bettany (Lorde Melbourne)Michael Maloney (Sir Robert Peel)
Música: Ilan Eshkeri
Fotografia: Hagen Bogdanski
Direção de Arte: Paul Inglis, Chris Lowe e Alexandra Walker
Figurino: Sandy Powell
Edição: Jill Billcock e Matt Garner
País de Origem: Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte
Estreia no Brasil: 18 de Junho de 2010
Duração: 105 minutos

Curiosidades:

“-A princesa Beatrice de York, filha da produtora Sarah Ferguson, faz uma pequena ponta. Beatrice é a tatatatataraneta da verdadeira rainha Vitória;
-Várias das cenas internas foram rodadas no castelo Belvoir, em Leicestershire. A cama usada na cena da lua de mel foi usada pela verdadeira rainha Vitória quando visitou o castelo, em 1843. O quarto é tão pequeno que todas as câmeras tiveram que ser colocadas do lado de fora das janelas;
-Os vestidos usados por Emily Blunt custaram 10 mil libras esterlinas cada;
-O vestido usado por Vitória em seu primeiro encontro com o conselho é uma réplica do utilizado pela verdadeira Vitória, atualmente disponível em um museu inglês”. FONTE: http://www.adorocinema.com/filmes/a-jovem-rainha-vitoria/noticias-e-curiosidades/.
“Tanto luxo em cena – com direito ao Oscar de figurino para Sandy Powell – não é à toa. A obra teve o olhar clínico da dupla de produtores Martin Scorcese (...) e da duquesa de York Sarah Ferguson, ex-mulher do príncipe Andrew”. Graças a ela foi possível “filmar em nove castelos e mansões britânicas”. FONTE: Revista Preview.  n° 11. São Paulo: Sampa, Julho de 2010. p. 66.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Zumbilândia

Vampiros x Zumbis

Nos últimos anos os vampiros foram motivo de grande barulho em razão da febre teen gerada pela saga Crepúsculo – a qual, sejamos justos, independentemente de sua duvidosa qualidade, logrou o êxito de atiçar o apetite das novas gerações pela leitura e pelo cinema. Contudo, aqueles que, sem dúvida, apresentaram melhor saldo no quesito valor-das-obras-produzidas foram os cools, mas asquerosos, zumbis, senão vejamos:
Os mortos-vivos despertaram a atenção das platéias mais novatas através da ligeiramente superestimada comédia Todo Mundo Quase Morto (Shaun of the Dead, Inglaterra, 2004), que, em virtude do satisfatório desempenho alcançado nas bilheterias e no mercado de home-video, abriu caminho para as realizações de bem-vindas franquias como a britânica Extermínio e a espanhola REC, além, é claro, da série The Walking Dead que assumiu a responsabilidade pela inclusão do tema na acirrada grade televisiva norte-americana.
Dentro deste contexto, uma produção se destacou pela forma exitosa com a qual utilizara o humor para ilustrar o assunto, qual seja o filme Zumbilândia (EUA, 2009). Dirigido por Ruben Fleischer o longa-metragem é conduzido com êxito através da tênue linha que separa o escracho do bom gosto. Fugindo, portanto, do formato terrir-podreira que, por exemplo, Robert Rodriguez adotara no exagerado Planeta Terror (Planet Terror, EUA, 2007) – Fleischer não deixa sua mão pesar para o lado trash que histórias de zumbis naturalmente fomentam, preferindo, na verdade, privilegiar o viés da sátira pop e cínica, para, desse modo, alcançar um resultado final ágil, engraçado e metalingüístico.
Somam-se a esse panorama as eficientes performances do elenco estrelado pela graciosa Emma Stone, pelo expert em papeis nerd Jesse Eisenberg e por Woody Harrelson que aqui interpreta um hilário exterminador de zumbis. Aliás, no que atine o casting, é plenamente impossível falar de Zumbilândia sem ressaltar a presença de Bill Murray que numa participação para lá de especial rouba o filme ao interpretar ninguém menos que... Bill Murray. Nesta toada, brincando com a veia cômica freada a partir de sua bem sucedida reinvenção como ator dramático, Murray aproveita para numa sequência deliciosa relembrar as caras e bocas de outrora ao se fantasiar como um zumbi deveras fake e azarado.
Em virtude desse peculiar conjunto, Zumbilândia garantiu o reconhecimento de público e crítica, além do aval dos estúdios para a produção de uma continuação que, inclusive, deverá chegar aos cinemas no modo 3D. Resta, assim, torcer para que o segundo volume não estrague nem manche a credibilidade desta primeira parte, tal como rotineiramente costuma acontecer em Hollywood.
Quanto aos vampiros, não há muito pelo que ansiar em relação a eles já que, pelo menos no âmbito da atual produção cinematográfica comercial, a abordagem novelesca do personagem passa imune por qualquer redenção. Por isso, assistamos, então, alguns zumbis serem trucidados.

COTAÇÃO - ☼☼☼☼

FICHA TÉCNICA
Título Original: Zombieland
Elenco: Woody Harrelson (Tallahassee)Hunter Aldridge (Best Man)Jacob G. Akins (Banjo Zombie)Jesse Eisenberg (Columbus)Ann Margaret Swindall (Featured Hero Zombie)Elle Alexander (Zombie Meter Maid)Amber Heard (406)Abigail Breslin (Little Rock)Emma Stone (Wichita)Derek Graf (Clown Zombie)Bill Murray
Duração: 88 min.
Estreia no Brasil: 29 de Janeiro de 2010

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O Marido da Cabeleireira

Pequeno e Objetivo. Abrupto e Sensível.

Dentre tantas predileções já confessadas neste espaço, mais uma merece destaque: filmes de pequena duração – tal como os curtas-metragens – ganham meu total apreço quando capazes de apresentar um denso desenvolvimento e uma eficiente conclusão apesar do econômico tempo de projeção. Neste sentido, O Marido da Cabeleireira (França, 1990) reúne tais qualidades ao se valer de uma inegável objetividade que, por outro lado, não dispensa nem se choca com o viés poético acrescentado pelo diretor Patrice Leconte.
Assim, de maneira extremamente delicada e, ao mesmo tempo, imbuída de certa estranheza, a obra disseca a história de um amor marcado pela irrestrita veneração de um homem por uma mulher e dela por ele. Dentro deste contexto, Leconte lança mão de uma montagem que, sem dificuldades, transita entre passado e presente, para, ato contínuo, apresentar-nos o personagem masculino que, desde a infância, nutrira o fetiche de um dia casar-se com uma cabeleireira.
Quando, já maduro, atinge sua meta, o protagonista, junto com o espectador, é arrebatado pela sedutora beleza da mulher pela qual se contentará, a partir de então, em não fazer nada mais além de adorá-la. Ela, em razão de encontrar uma doação tão verdadeira e profunda, passa a manter semelhante senso de exclusividade, o que, contudo, acaba lhe gerando o incontornável receio de um dia vir a perder a companhia do ser amado.
Por conta da presença de sentimentos tão extremados, ambos não se furtam a trocar carícias com total desinibição e entrega – ocasiões em que o filme flerta com o erotismo sem, entretanto, esquecer o bom gosto – aumentando, por conseguinte, a necessidade, a dependência de um pelo outro, bem como o temor perante a hipótese de que um dia aquele amor se esvaia.
Belo e sensível, O Marido da Cabeleireira logra o êxito de ser singelo mas também abrupto, deixando-nos, desta feita, a mesma impressão suportada após o término de determinados relacionamentos: a experiência pode ter sido ligeira, mas, em compensação, fora extremamente significativa e marcante.

COTAÇÃO - ☼☼☼☼

FICHA TÉCNICA
Título Original: Le Mari de la Coiffeuse
Diretor: Patrice Leconte
Elenco: Jean Rochefort, Anna Galiena, Henry Hocking, Roland Bertin, Maurice Chevit, Philippe Clevenot, Jacque Mathou, Thomas Rochefort, Albert Delpy, Claude Aufaure.
Produção: Thierry de Ganay
Roteiro: Patrice Leconte, Claude Clotz
Fotografia: Eduardo Serra
Trilha Sonora: Michael Nyman
Duração: 84 min.
Curiosidade: O diretor Patrice Leconte atuara nos anos 70 como crítico da revista Cahiers Du Cinéma.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Bailão do Ruivão

A Difícil Missão de Ser um Autor

Tim Burton certa vez confessou haver uma obediente transitoriedade em sua filmografia, de forma que a cada trabalho realizado conforme o gosto particular do diretor, uma outra obra precisaria, em seguida, ser planejada em consonância com as expectativas dos clientes, ou, melhor dizendo, dos produtores.
Assim, para garantir o domínio criativo de parcela de suas realizações, muitos artistas acabam tendo de, em contrapartida, realizar concessões para, desse modo, garantir que o projeto posterior àquele de cunho autoral tenha o apelo popular necessário à garantia de recuperação do dinheiro investido pelos estúdios.
Longe de representar uma estratégia exclusiva da indústria cinematográfica, tal procedimento também configura a moeda de troca rotineira do mercado fonográfico. Dentro deste contexto, Nando Reis, por exemplo, ilustra com folga tal condição, eis que, de maneira semelhante a bandas como Capital Inicial e Titãs, o músico teve de aderir a já manjada tendência da intercalação de compilações revisionistas – via de regra gravadas ao vivo – entre os hoje arriscados álbuns de canções inéditas.
Ok, não há como discorrer sobre tal assunto sem reconhecer que a INTERNET, por meio de seus downloads, fora a grande responsável pela queda do consumo de CDs. Contudo, ainda que o mar não esteja pra peixe, é, por certo, salutar que o artista, em respeito ao conjunto de sua própria obra, mantenha o mínimo de recato quando do embarque em projetos do gênero caça-níqueis.
Quando ainda era membro dos Titãs, Nando estruturou com êxito uma carreira solo, valendo-se, para tanto, de um viés ligeiramente alternativo que, entretanto, não dispensava composições tolinhas milimetricamente feitas para tocar nas rádios. Tornando-se cult perante ouvintes menos popularescos sem, contudo, deixar de manter seu nome em evidência graças a hits originalmente gravados por bandas como Cidade Negra e Jota Quest, Nando Reis pavimentou de forma exímia o terreno que o levaria a oficialização de sua saída dos Titãs, momento esse a partir do qual os passos seguintes passaram a ser mais arriscados dada a ausência da rede de segurança que a velha banda representava.
Como não é nada bobo, Nando reuniu, em 2004, sucessos compostos para os Titãs, para outros intérpretes – em especial Cássia Eller – bem como para si próprio num show que resultou no seu primeiro álbum solo lançado em parceria com o selo MTV Ao Vivo. Em razão do merecido êxito desta empreitada, Nando se viu a vontade para trabalhar em um disco de músicas inéditas, o que resultou no ótimo Sim e Não (2006), cujas vendas foram estimuladas pela inclusão da bela Espatódea em uma novela global.
Para fixar ainda mais no imaginário do público canções que poderiam ter passado despercebidas no CD supracitado, além, é claro, de garantir um troco a mais seja por conta do aumento nas vendas de CDs e DVDs seja através do aumento de platéia nos shows, o músico lançou o delicioso Luau MTV (2007) que com sua natureza acústico-despojada garantiu novos pontos a Nando perante a indústria.
Em seguida, Nando se inspirou na paixão por uma ex-namorada para compor o repertório do álbum Drês (2009), trabalho esse que não empolgou ninguém e que, por conseguinte, acabou empacado nas lojas. Por certo o revés sofrido pela minguada saída de Drês acendeu em Nando um sinal de alerta forte o bastante para levá-lo a chutar o balde e, ato contínuo, lançar outro disco ao vivo em parceria com a MTV.
Neste sentido, considerando que seu repertório havia sido exaustivamente revisado em ocasiões pretéritas, o cantor e compositor teve dessa vez de se contentar com a mera função de intérprete para, desta feita, junto com Os Infernais simular uma banda de baile especialista, é claro, em covers de diversos gêneros e estilos. Bailão do Ruivão (2010) é, assim, o novo cd de Nando Reis, trabalho que, apesar do óbvio potencial de vendagem, há de, muito provavelmente, desapontar fãs pouco tolerantes para com os duetos do artista ao lado de nomes como Zezé de Camargo e Luciano ou Chimbinha e Joelma da banda Calypso.
Vale dizer que Nando Reis não é o primeiro nem será o último músico a realizar um trabalho envolvendo apenas repaginações de músicas alheias; o problema, na verdade, consiste em alguns dos títulos elencados para tanto. Nesta toada, ouvir o mesmo cantar “pérolas” como Chorando Se Foi e Você Não Sabe Nada (Mas Eu Gosto de Você) foge a qualquer pretensão engraçadinha capaz de admitir tamanha falta de bom gosto. Por isso, o tal Bailão representa um produto que – mesmo em meio as exigências do mercado – deveria nunca ter passado de uma idéia tresloucada¹. Mas, como nem a vida nem o mundo são perfeitos, o álbum existe e presumidamente deverá ser amplamente consumido – ainda mais considerando a presente época de festejos natalinos.
Oxalá Nando Reis conquiste todos os discos de ouro, platina, rubi e diamante com este projeto para que sua liberdade seja irrestrita quando da preparação do próximo disco de canções inéditas. Não é à toa Francis Ford Coppola reconhecer Woody Allen como o artista mais feliz e sortudo deste planeta dada sua rotina anual de preparação de trabalhos totalmente autorais. É uma pena que exceção como essa não seja regra nem hoje nem nunca.
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1.     Não obstante as missões que precisa encarar para manter a carreira em voga, Nando Reis demonstra que todos os percalços são justificados pelo prazer sentido a cada show. Na noite do último dia 10 de dezembro, por exemplo, o artista realizou em Belém uma das últimas performances deste ano para a turnê Drês, ocasião em que dedicou o show a Cássia Eller que, se viva estivesse, faria aniversário naquele dia. Visitvelmente emocionado, Nando interpretou de maneira por vezes visceral sucessos de longa data, numa apresentação marcada pela cena de um violão no qual escorriam gotas de suor. É sempre gratificante ver alguém que, mesmo com tantos anos de estrada, sua a camisa ao tocar e cantar canções como se fosse a primeira vez.