EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




terça-feira, 30 de novembro de 2010

Abutres

Interessante Fusão de Dois Cinemas

A partir dos anos 2000, produções argentinas e sul-coreanas se destacaram sobre os feitos cinematográficos dos demais países do globo. Munidos de apurado senso estético – o que torna seus planos verdadeiras pinturas vivas – os longas-metragens oriundos da Coréia do Sul são, via de regra, marcados pela inserção naquilo que há de mais bizarro e repulsivo no comportamento humano. Dispensando o viés cool e estilizado ao qual, por exemplo, Quentin Tarantino recorre quando da captação de sequências violentas, diretores como Park Chan-wook e Joon-ho Bong optam pela crueza para melhor retratarem a brutalidade do meio no qual estão situados seus personagens, o que, além de tornar as obras sufocantes, lhes garante a característica de extremamente reflexivas em razão da não banalização do tema.
De maneira diferente, os filmes argentinos conquistam crítica e público graças a elegância com que manejam o melodrama, o que, não raro, permite a nossos vizinhos o mérito pela criação de trabalhos saborosos quanto ao peculiar senso de humor e precisos quanto a análise dos relacionamentos interpessoais. Mas, eis que agora surge um título que – talvez até sem o intuito – realiza a interessante fusão destas duas tendências fílmicas, qual seja o argentino Abutres (Carancho, 2010) de Pablo Trapero.
Dito isso, faz-se mister esmiuçar a história abordada no filme para, assim, melhor assimilar o cerne da análise, por isso, saltemos, então, para a sinopse: enquanto no Brasil a figura do advogado inescrupuloso é conhecida como presença constante nas portas de cadeia, na terra dos hermanos aquele profissional da lei costuma fazer serão em recepções de hospitais para, assim, “socorrer” vítimas de acidentes de trânsito e, ato contínuo, extrair delas as procurações necessárias para litigar contra as companhias de seguro. Num esquema que envolve de paramédicos a policiais, a grande vantagem é obtida quando do recebimento das indenizações, ocasião em que o nobre causídico repassa para seu leigo cliente um percentual setenta ou até oitenta vezes inferior a real quantia paga pela seguradora.
 Isto posto, é em um ambiente violento e hostil que atua o advogado Sosa (Ricardo Darín). Insatisfeito com a vida medíocre que leva, Sosa visualiza a possibilidade de mudança de ares ao ter o coração arrebatado pela paramédica Luján (Martina Gusman), momento esse em que cresce naquele o desejo de consertar as coisas para, consequentemente, começar a agir como um homem de princípios.
Tal como Sosa, Luján exercita sua profissão sem muito ânimo; cansada e precisando urgentemente desfrutar de algumas horas de sono, a mulher alivia a tensão do cotidiano aplicando-se calmantes que lhe submetem a uma inconteste dependência, fator esse que, aliado a estafa física e mental, colabora para que erros médicos passem a fazer parte da rotina laboral de Luján.
Ele e ela, portanto, constituem um par de errantes cujo único desejo é o de ter o mínimo de paz necessário para a reconstrução de suas trajetórias, anseio esse que acaba frustrado em razão, sobretudo, das escolhas equivocadas tomadas por Sosa no passado e que, agora, assombram o pretenso presente do casal.

No elenco, Ricardo Darín novamente demonstra o estupendo ator que é, ao passo que Martina Gusman (esposa do diretor Trapero) se revela como grande e agradabilíssima surpresa face uma atuação contida mas plenamente hábil quanto a demonstração do que significa transitar rente ao próprio limite, daí porque o entrosamento da dupla de protagonistas se mostra quase que palpável, garantindo, por óbvio, uma credibilidade ainda maior a produção.

Considerando todos os fatores elencados, Abutres não deixa de caracterizar o relato argentino de uma história de amor; a diferença nesse caso consiste no caos e na crueldade que imperam em uma narrativa fruto da ótica bruta, crua e, acima de tudo, inquietante do cineasta Pablo Trapero que, em virtude de tais características, logra o êxito de passar ao espectador os mesmos sentimentos de agonia e desespero experimentados pelos personagens.
Como outrora sugerido, Abutres é o filme argentino mais sul-coreano já feito; logo, não obstante suas características particulares, resta provado que os cinemas de países completa ou vagamente diferentes podem tranquilamente dialogar entre si para, a partir dessa experiência, galgar novos saltos de qualidade pela via da mistura de influências que, conforme a lição de Trapero, não precisa afastar o toque peculiar conferido pela nacionalidade. Não é a toa Abutres conseguir, ao mesmo tempo, ser uma obra tocante ainda que feita para ser assistida roendo as unhas. É ver para crer e/ou compreender.

COTAÇÃO - ☼☼☼☼

Ficha Técnica
Direção: Pablo Trapero
Roteiro: Alejandro Fadel, Martín Mauregui, Santiago Mitre e Pablo Trapero
Fotografia: Julián Apezteguia
Direção de Arte e Figurino: Mercedes Alfonsín
Edição: Pablo Trapero e Ezequiel Borovinsky
Estreia no Brasil: 3 de Dezembro de 2010
Duração: 107 minutos
Curiosidades: Além de eleito como o representante da Argentina na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2011, Abutres foi escolhido como o mais novo trabalho não americano a ser refilmado em Hollywood. Neste sentido, Scott Cooper (Coração Louco) está cotado para dirigir a versão norte-americana, cujo roteiro ficará sob a batuta de Aaron Stockard (Atração Perigosa).

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Apenas o Fim

Implacável Achatamento da Emoção Pela Razão

Rapaz é surpreendido pela namorada com a notícia de que terão sua última hora de convívio, visto que ela decidira, enfim, viajar, fugir, partir em busca de novos horizontes.
Tomando por base um argumento extremamente simples, Apenas o Fim (Brasil, 2009) entrega um delicado panorama de uma geração, mergulhando, para tanto, num oceano de referências pop que, trazendo à tona ecos de Woody Allen, Richard Linklater e Nick Hornby, atinge louvável grau de identificação perante seu público alvo, qual seja os recém entrados na fase adulta, como também perante membros das demais gerações que, mesmo correndo o risco de não compreenderem todas as irônicas conclusões do protagonista, podem, dada a universalidade do tema, rememorar suas próprias desilusões amorosas uma vez inspirados por aquela retratada no filme.
Dentro deste contexto, em certa passagem o personagem Tom - brilhantemente interpretado por Gregório Duvivier - revela o quanto ficara vulnerável, frágil nas diversas vezes em que sua amada evitara atender seus telefonemas. Neste passo, apesar de não aparentar qualquer importância suprema quando assim descrita, tal sequência, justamente por dispor de uma muito provável conexão com as experiências colecionadas por cada espectador, exemplifica como fora composto o mosaico de confissões, questionamentos e divagações no qual se constitui este sincero relato sobre um término de relação deveras civilizado e, por certo, mais doloroso, face o implacável achatamento da emoção pela razão.
Isto posto, impressiona a eficiência do diretor Matheus Souza que, apesar dos meros dezenove anos de idade, esbanja maturidade e, sobretudo, honestidade ao filmar de maneira concisa, objetiva e sensível. Não obstante a demonstração de certa ingenuidade quando da adoção de um tom caricato como elemento definidor de determinados nichos, Souza realiza o tipo de trabalho que todo aspirante a cineasta gostaria de executar, eis que deliciosamente metalingüístico no que atine a fusão de ficção e realidade autobiográfica, hábil quanto a capacidade imediata de conquista da empatia dos espectadores e, em última análise, competente quanto a não intencional missão de ressuscitamento do, hoje um tanto quanto esquecido, lema “uma ideia na cabeça e uma câmera na mão”, o que, vale frisar, não é pouca coisa.

COTAÇÃO - ☼☼☼☼☼ 

Ficha Técnica
Direção e Roteiro: Matheus Souza
Música: Pedro Carneiro
Direção de arte: Gabriel Cabral Julia Garcia
Fotografia e Edição: Julio Secchin
Estreia no Brasil: 12 de Junho de 2009
Duração: 80 minutos
Curiosidades:
“Apenas o Fim é o resultado de um projeto de alunos do curso de Cinema da PUC-Rio, contando com o apoio do Departamento de Comunicação Social da faculdade. (...)
É o 2º filme em que Erika Mader e Gregório Duvivier atuam juntos. O anterior foi Podecrer! (2007)”. FONTE: http://www.adorocinema.com/filmes/apenas-o-fim/noticias-e-curiosidades/.
A produção recebeu o prêmio de Melhor Filme do Júri Popular além da Menção Honrosa do Júri Oficial no Festival do Rio 2008, bem como o Prêmio de Melhor Filme do Júri Popular na 32ª Mostra de São Paulo.

domingo, 21 de novembro de 2010

Watchmen / RED

Original Ontem, Clichê Hoje

Há obras que, por serem tão copiadas ao longo dos anos, acabam perdendo a força de seu impacto original. Considerado a bíblia dos quadrinhos, Watchmen jamais teve a qualidade de seu material de origem contestada; sua transposição cinematográfica, por outro lado, além de não compreendida por parte da crítica especializada, fora ignorada pelo público que, por conseguinte, não prestigiou o longa-metragem de Zach Snyder conforme o aguardado.
Ocorre que a história criada por Alan Moore detém um caráter deveras subversivo e, por vezes, frio, não sendo, desta feita, um trabalho feito para divertir nos moldes do que normalmente se espera deste tipo de mídia – ainda que quando dirigida para leitores adultos. Dentro deste contexto, o filme de Snyder segue piamente a densidade dos gibis, pouco ligando para eventuais expectativas comerciais, daí porque o cineasta obteve o êxito de realizar um Watchmen em película tão truculento, mordaz e amoral quanto sua versão impressa, o que, sem dúvida, torna digna de aplausos a fidelidade canina para com a criação de Moore demonstrada por Zach Snyder o qual, mesmo sem tomar “liberdades artísticas”, consegue deixar sua marca através de estilizadas cenas em slow motion que terminam se assemelhando aos próprios desenhos das revistas inspiradoras da produção.
Por isso, Watchmen (EUA, 2009) é um filme que, no mínimo, merece ser redescoberto e visto com um olhar diferenciado, afinal, seus conceitos de heróis politicamente incorretos que fundem bem e mal numa só toada, podem não parecer originais hoje quando já utilizados para o embasamento de tantos outros trabalhos, mas assim eram considerados à época do lançamento dos gibis.
Falando em apropriação de ideias, eis que mais um filme utiliza a premissa de Watchmen, qual seja a dos heróis veteranos que tem sua aposentadoria interrompida por conta de assassinatos envolvendo antigos colegas. Neste diapasão, RED – Aposentados e Perigosos (EUA, 2010) dispõe de um roteiro com ponto de partida semelhante àquele imaginado por Alan Moore mas que também – sejamos justos – copia aspectos de outros títulos, como, por exemplo, as produções Cowboys do Espaço (Space Cowboys, EUA, 1999) e Encontro Explosivo (Knight and Day, EUA, 2010).
Valendo-se, portanto, de pitadas de diversos argumentos repetidos, RED mistura todos os tópicos plagiados num balaio extremamente previsível e nem sempre divertido, uma vez que a quantidade de clichês poderia, num mundo perfeito, ser reduzida para, ato contínuo, gerar um produto mais enxuto e menos cansativo.
Ok, a fim de não soar como um desabafo ranzinza, vale confessar: apesar de se estender além do necessário, RED é facilmente digerido quando acompanhado por um gigantesco balde de pipocas e quando em cena quem surge é o ator John Malkovich o qual, parodiando as caras e bocas tão recorrentes em performances anteriores, acaba surpreendendo ao roubar o espetáculo para si, mostrando-se, desse modo, como grande surpresa de uma espécie de produto, via de regra, carente de tal atrativo.

COTAÇÕES:

Watchmen - ☼☼☼☼          

RED – Aposentados e Perigosos - ☼☼


Ficha técnica - Watchmen

Direção: Zach Snyder
Elenco: Jeffrey Dean Morgan (Edward Blake/The Comedian) Stephen McHattie, Carla Gugino (Sally Jupiter/Silk Spectre)Danny Woodburn (Big Figure)Billy Crudup (Jon Osterman/Dr. Manhattan)Niall Matter (Mothman) Jackie Earle Haley (Walter Kovacs/Rorschach)Patrick Wilson (Dan Dreiberg/Nite Owl)Matthew Goode (Adrian Veidt/Ozymandias)Matt Frewer (Moloch)Malin Akerman (Laurie Juspeczyk/Silk Spectre II)
Estreia no Brasil: 6 de Março de 2009
Duração: 162 minutos

 

Ficha Técnica - RED

Título Original: Red
Direção: Robert Schwentke
Elenco: Helen Mirren (Victoria) Bruce Willis (Frank Moses) Morgan Freeman (Joe Matheson) Jaqueline Fleming (Marna) Emily Kuroda (Mrs. Chan) Jonathan Walker (Burbacher) Mary-Louise Parker (Sarah) Julian McMahon (VP Stanton) Michelle Nolden (Michelle Cooper) Ernest Borgnine (Henry) James Remar (Gabriel Loeb )Richard Dreyfuss (Alexander Dunning) Karl Urban (William Cooper) Brian Cox (Ivan Simanov) John Malkovich (Marvin Boggs)
Estreia no Brasil: 12 de Novembro de 2010
Duração: 111 minutos

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A Estrada

Faltando um Pedaço

No universo das cotações fílmicas, estrelas, notas e símbolos de toda espécie exercem sobre mim um curioso fascínio. Nesta toada, confesso que os extremos, por óbvio, são os que mais me atraem. Ler uma resenha que ao término concede uma ou cinco estrelas para um filme desperta-me uma imediata necessidade de conferir o produto para, assim, constatar se a justiça prevalecera na análise.
Por outro lado, as obras, por certo, mais frustrantes são aquelas enquadradas na simplória categoria “BOM” - leia-se três estrelas - eis que, apesar de deterem qualidades suficientes para não receberem críticas negativas que as inferiorizem, permanecem como que em cima do muro, numa zona de conforto letárgica que obstaculiza voos de proporções maiores.
Vale frisar: muitas vezes é difícil determinar o que exatamente faltara para que determinada produção galgasse um patamar superior de excelência. O trabalho, dentro deste contexto, é bem acabado, produzido, dirigido e interpretado, todavia, no ar fica a decepcionante sensação de que algo ficara ausente.
Ok, é fácil estabelecer suposições sobre os casos concretos, dizer que para filme A faltara certa contextualização política, ao passo que determinado filme B carecera de  aprofundamento quanto ao aspecto psicológico dos personagens. Entretanto, tais afirmativas jamais poderão ser consideradas presunções absolutas; afinal, nenhuma garantia haverá de que a presença daqueles prováveis elementos faltosos seria o bastante para tornar a realização cinematográfica uma experiência não apenas boa, mas sim ótima, excelente ou até péssima ou regular.
A Estrada (EUA, 2009) é um perfeito exemplo das conclusões supracitadas, senão vejamos:
1.    O ambiente apocalíptico detém a exclusiva função de colaborar na construção de um relato humanista, razão pela qual – aleluia! – não sobra espaço para a adoção do recorrente viés da ação motivado por missões messiânicas – como o que fora, por exemplo, utilizado no recente O Livro de Eli (The Book of Eli, 2010).
2.    Por isso, a narrativa é corretamente concentrada na relação entre pai e filho e na luta dos dois pela sobrevivência, processo esse que, aos poucos, altera, molda o caráter e a dignidade de um ou outro – aspecto, aliás, que, ressalte-se, aproxima a história de semelhante panorama abordado por Ingmar Bergman no drama Vergonha (Skammen, 1968).
3.    Adicione-se, ainda, ao rol de elogios os competentes trabalhos de fotografia e de interpretação - nesse caso, do ator Viggo Mortensen - o que, por fim, gera um conjunto extremamente elegante quanto ao cumprimento das atribuições a que se prestara.
4.    Contudo, não obstante os méritos elencados, é inevitável ao término da sessão escapar da incômoda sensação de que por pouco o longa-metragem não resultara num produto memorável. Mas o que, então, faltara para tanto?
Eis uma indagação que o cinema volta e meia fomenta e que, de forma um tanto quanto paradoxal, aumenta seu poder de atração sobre nós pequenos grandes espectadores.

COTAÇÃO - ۞۞۞

Ficha Técnica
Título Original: The Road
Direção: John Hillcoat
Roteiro: Joe Penhall
Elenco: Kodi Smit-McPhee (Boy)Brenna Roth (Road Gang Member)Buddy Sosthand (Archer) Viggo Mortensen (Father)Robert Duvall (Old Man)Charlize Theron (Woman) Garret Dillahunt (Gang Member) Guy Pearce (Veteran) Agnes Herrmann (Archer's Woman) Michael K. Williams (The Thief)Molly Parker (Friendly woman)
Estreia no Brasil: 23 de Abril de 2010
Duração: 119 minutos

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Um Parto de Viagem

Cópia Sem Graça e Descartável

Filmes cujos pontos de partida são embasados em premissas manjadas tendem a ser considerados dispensáveis dada a dificuldade de inovação de idéias hoje tornadas clichês. De modo semelhante, filmes produzidos no intuito de servir como repaginação de longas-metragens bem sucedidos no passado tendem a ser rotulados como descartáveis em razão de se mostrarem, grande parte das vezes, como simplórias cópias que em nada acrescentam sobre as experiências anteriores.
Dentro deste contexto, não bastasse ter como argumento o repetido tema da dupla forçada a viajar junta apesar da ausência de empatia mútua e instantânea, Um Parto de Viagem (EUA, 2010) se revela, por fim, como um deslavado plágio da divertida comédia Antes Só do que Mal Acompanhado (Planes, Trains and Automobiles, 1987), respectivamente dirigida e estrelada pelos saudosos John Hughes e John Candy.
Isto posto, Um Parto de Viagem não propõe qualquer variação em torno do pontapé inicial do roteiro, assim como não logra o êxito de gerar risos das situações, supostamente cômicas, surgidas a partir da convivência dos protagonistas, o que, perante um elenco composto pelo camaleão Robert Downey Jr. e pelo competente Zach Galifianakis, expõe uma lastimável pisada na bola do diretor Todd Phillips o qual entrega, portanto, um trabalho “meia boca” que, apesar de voltado ao público masculino, comete o pecado mortal de ser indeciso quanto a opção pelo estilo politicamente incorreto ou pelo gênero filme-de-lições-edificantes.
Nada disso, contudo, representa uma surpresa digna de nota, eis que a filmografia de Phillips é marcada por uma inconstância na qual os pontos baixos superam os pontos altos, de forma que, dentre suas realizações, apenas duas merecem incontestes elogios, quais sejam os hilários Dias Incríveis (Old School, 2003) e Se Beber Não Case (The Hangover, 2009). Logo, resta torcer para que o cineasta não falhe novamente quando da condução da aguardada sequência Se Beber Não Case 2 (The Hangover 2), cuja estréia fora marcada para maio do próximo ano. É esperar para ver.

COTAÇÃO - ۞۞

Ficha Técnica
Título Original: Due Date
Direção: Todd Phillips
Elenco: Zach Galifianakis (Ethan Tremblay)Robert Downey Jr. (Peter Highman)Jamie Foxx (Jim)Juliette Lewis (Heidi)Michelle Monaghan (Christine Highman)Alan Arkin RZA (Marshall)Matt Walsh Danny McBride Mimi Kennedy (Rosie) James Martin Kelly (Chuck)
Estreia no Brasil: 5 de Novembro de 2010
Duração: 99 minutos

sábado, 13 de novembro de 2010

Mr. Nobody

E Se?

Escolhas que caracterizam uma trajetória, caminhos percorridos, opções ora certas ora erradas. E se determinada conduta houvesse sido escolhida no lugar daquela que, no fim, gerou arrependimento? E se?
Mr. Nobody (Canadá, 2009) explora hipóteses extremamente amplas, mas também deveras intrínsecas a todos, valendo-se, para tanto, de um verniz futurista cuja real intenção é abrir caminho para uma toada surrealista possuidora de suficiente liberdade para permitir o livre trânsito do longa-metragem entre diversos tempos e espaços.
Neste diapasão, a obra, que inicialmente pode parecer um tanto quanto intricada, vai aos poucos conquistando o espectador ao revelar sua verdadeira natureza, qual seja a de um filme genuinamente romântico que, tal qual Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, EUA, 2004), explora possibilidades fantasiadas por qualquer coração despedaçado.
Indo além, o universo de sonhos que povoa o imaginário humano consiste em temática, por certo, fomentadora de comparações entre a obra em questão e o acelerado A Origem (Inception, EUA, 2010) de Christopher Nolan. Dentro deste contexto, o ritmo de Mr. Nobody é outro, sendo, na verdade, um trabalho muito mais instigante quanto a leitura das informações filosóficas, científicas e metalingüísticas embutidas nas entrelinhas, bem como consideravelmente mais tocante e delicado no que concerne o aspecto dos amores nem sempre bem sucedidos do protagonista.
Discorrer sobre um mosaico tão vasto de idéias não é tarefa simples, razão pela qual de vital importância se mostra para o êxito do filme sua magnífica montagem que - sem incidir no equívoco da sobreposição de enredos – detém o mérito de conciliar com destreza as idas e vindas do personagem Nemo por entre as várias formas de futuro para ele surgidas.
Some-se a isso uma trilha sonora impecável quanto a pontuação das cenas, bem como os eficientes trabalhos de direção de arte e de fotografia os quais, de maneira inconteste, conferem ao longa uma beleza plástica que, por ser ao mesmo tempo discreta, não comete o erro de querer se tornar o foco principal da produção.
Graças as suas infinitas qualidades, Mr. Nobody agrega novos pontos ao currículo do ator Jared Leto - o qual, paulatinamente, constrói uma filmografia marcada por obras do quilate de Clube da Luta (Fight Club, EUA, 1999) e Réquiem Para um Sonho (Requiem for a Dream, EUA, 2000) – assim como serve de vitrine ao talento e ao nome do diretor Jaco van Dormael, artista esse cujos próximos trabalhos, portanto, merecerão a devida atenção, dado o admirável compromisso demonstrado por ele perante o cinema enquanto expressão artística.
Ok, a sequência final de Mr. Nobody indica uma latente preocupação para com o encadeamento lógico dos eventos narrados, revelando, por conseguinte, certo quê de cautela mercadológica, cuidado esse que, num mundo perfeito, poderia ser facilmente dispensado em razão do viés surrealista adotado – estilo que, como sabido, autoriza sem qualquer pudor a relativização da lógica – motivo pelo qual ficam, desde já, os votos para que tal esmero em projetos vindouros não se torne importante ao ponto de oprimir a ousadia e a criatividade do cineasta Dormael ¹.
Todavia, ainda que as supracitadas previsões negativas venham a se consumar – o que não se espera – o diretor já terá registrado na eternidade, por meio de Mr. Nobody, uma nobre lição, qual seja a conclusão de que a vida não é um fim em si mesma, afinal, o que nela realmente importa e lhe dá sentido é o meio, a trajetória percorrida, motivo pelo qual, mesmo que o ponto de chegada não seja exatamente igual ao idealizado, o que enriquecerá o homem serão as decisões tomadas ao longo do percurso e as experiências a partir dele acumuladas. Logo, a vida, independentemente da aparência assumida quando de seu término, sempre valerá a pena ser vivida.
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1.     Pode-se imaginar que o nome do diretor Jaco Van Dormael seja o de um iniciante. Mas, não é. Esse belga de 53 anos de idade já ganhou prêmio em Cannes e ainda foi indicado ao BAFTA e ao Leão de Ouro em Veneza (nesse caso, por Mr. Nobody)”. Fonte: http://cinemaeargumento.wordpress.com/2010/07/23/mr-nobody/.

COTAÇÃO - ☼☼☼☼☼ 

Ficha Técnica
Título Original: Mr. Nobody
Direção e Roteiro: Jaco van Dormael
Produção:Philippe Godeau
Elenco: Diane Kruger (Anna)Laurent Capelluto, Ben Mansfield (Stefano)Linh Dan Pham (Jeanne)Daniel Mays (Jornalista)Clare Stone (Elise - 16)Chiara Caselli (Clara)Harold P. Manning (Jornalista da TV)Valentijn Dhaenens (Julian)Katharina Pejcic (Filha de Anna)Juno Temple (Anna - 16)Alexander Türk (Filho de Anna)Thomas Byrne (Nemo - 9)Daniel Brochu (Peter)Jared Leto (Nemo Nobody)Sarah Polley (Elise)Natasha Little (Mãe de Nemo)Rhys Ifans (pai de Nemo), Toby Regbo (Nemo - 16)
Música: Pierre van Dormael
Fotografia: Christophe Beaucarne
País de Origem: Canadá
Estreia Mundial: 2011
Duração: 138 minutos