EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Alphaville


Noir Futurista

Alphaville (França, 1965) pode até não figurar como exemplo máximo do radicalismo quanto a linguagem adotado por Jean-Luc Godard em trabalhos posteriores como Duas ou Três Coisas que Eu Sei Dela (2 ou 3 choses Que Je Sais d'Elle, 1967)  e Prenome Carmen (Prénom Carmen, 1983); todavia, não há como contestar que o longa-metragem é uma inegável concretização do lema “tudo é possível” que embalava a Nouvelle Vague, visto que a obra em comento nada mais é do que uma ficção científica encapsulada numa atmosfera noir (ou vice-versa!).
Além de atestar a originalidade do cineasta para driblar naturais restrições orçamentárias capazes de impedir a utilização de cenários e figurinos requintados, tal fusão de gêneros se mostra como grande trunfo do filme, uma vez que permite interpretar a história da opressão estatal sobre o cidadão como uma visão tanto do presente quanto do futuro, ratificando, desse modo, o flerte do cinema com a literatura para além da adaptação do livro A Cidade da Dor de Paul Éluard, alcançando, ainda, dada a similitude de temas, autores como George Orwell e seu 1984, bem como Philip K. Dick e sua novela O Homem do Castelo Alto.
Enquanto a descontinuidade não marca tanta presença nesta produção – o que não deixa de ser um alento para quem repudia este cultuado elemento de transgressão do supracitado movimento cinematográfico francês – Godard lança mão de uma montagem dividida entre cortes secos e longos planos seqüências oriundos de virtuosos travellings – numa prova de que o cinema de guerrilha não necessariamente padece de falta de técnica.
Se Alphaville possui algum problema, este reside no fato de ser produto da filmografia de um diretor cujos trabalhos fomentam contextualizações e comparações entre si, dadas as diversas fases de experimentação vividas por Jean-Luc Godard. Neste sentido, o filme em tela é encerrado por meio de uma conclusão cuja natureza atabalhoada, se por um lado pode ser encarada como “coisa de Nouvelle Vague”, por outro, destoa completamente da ótica cínica e pessimista com a qual o artista impregnou muitos de seus filmes, face seu viés romântico e esperançoso, daí o tom piegas do término surpreender de forma não necessariamente positiva.
Seria essa postura contraditória uma atitude à moda Nouvelle Vague?

COTAÇÃO - ☼☼☼       

Ficha Técnica
Título Original: Alphaville, une Étrange Aventure de Lemmy Caution
Direção e Roteiro: Jean-Luc Godard, baseado em obra de Paul Éluard
Elenco: Akim Tamiroff (Henri Dickson)Anna Karina (Natacha Von Braun)Eddie Constantine (Lemmy Caution)
Duração: 99 minutos

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Rastros de Justiça

A Inutilidade da Vingança

 

Décadas após presenciar seu irmão ser assassinado por razões políticas, Joe Griffin (James Nesbitt) é convidado a reencontrar o autor do crime Alistair Little (Liam Neeson) perante as câmeras de um programa de televisão.

Lançando mão de sacadas espertas, o roteiro de Rastros de Justiça (Inglaterra, 2009) busca jogar nova luz sobre o tema do reencontro entre vítima e agressor já tão abordado pelo cinema em filmes como o noventista A Morte e a Donzela (Death and the Maiden, 1994).

Assim, além de transformar em atração televisiva a situação limite dos personagens, o longa ainda localiza a trama em meio aos conflitos vigentes na Irlanda da Norte por conta do domínio britânico.

Neste sentido, as discussões políticas e religiosas infelizmente não ultrapassam a função de pano de fundo, quando, na verdade, poderiam render análises bem mais profundas caso colocadas nas mãos de um cineasta como Jim Sheridan, por exemplo.

Todavia, mesmo que o aspecto político não seja devidamente explorado, o diretor Oliver Hirschbiegel logra êxito naquilo que talvez tenha sido seu principal e exclusivo objetivo: demonstrar o quão vazia é a vingança. Para tanto, o embate ligeiro entre os antagonistas revela que poucos minutos são suficientes para provar a inutilidade de uma revanche aguardada por toda uma vida.

Desta feita, Rastros de Justiça, apesar de suas limitações, possui o inegável mérito de transmitir a força da mensagem supracitada, o que se deve a uma direção enxuta, que não se rende a emoções baratas, e segura quanto ao talento de seus dois atores principais.


COTAÇÃO: ☼☼☼

 

Ficha Técnica

Título Original: Five Minutes of Heaven
Roteiro: Guy Hibbert
Fotografia: Ruairi O'Brien
Elenco: Andrea Irvine (Sarah)Conor MacNeill (Dave)Richard Dormer (Michael)Gerry Doherty (pai de Joe) Anamaria Marinca (Vika) Liam Neeson (Alistair Little)James Nesbitt (Joe Griffin)
Estreia no Brasil: 19 de Janeiro de 2009
Duração: 90 minutos
Curiosidade: Inspirado em acontecimentos verídicos, o reencontro de Alistair Little com Joe Griffin é apenas uma criação do roteirista Guy Hibbert, já que os dois nunca se encontraram na vida real. Dentro deste contexto, a elaboração do roteiro exigiu que entrevistas separadas fossem realizadas com aqueles homens ao longo de três anos.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

A Cabeça de Mamãe


Velocidade de Cruzeiro

Apatia, antipatia e simpatia são palavras estritamente relacionadas ao filme A Cabeça de Mamãe (França, 2007), afinal, as naturezas respectivamente apática e antipática de mãe e filha – protagonistas da obra – acabam por impedir arroubos de cumplicidade e simpatia do público para com as personagens.
Ok, esta é uma produção feita por e para mulheres, razão pela qual o clube da Luluzinha tende a apreciar com facilidade maior a história da conturbada relação entre a adolescente com um pé na rebeldia e a mãe cujos olhos só enxergam o passado. Contudo, é inegável que algo paira ao longo de todo o longa, qual seja a sensação de que muito pouco faltara para que seu apelo fosse mais universal e seu resultado final mais satisfatório.
Não que este seja um produto irregular, vale frisar, pois, na verdade, o que se percebe é uma velocidade de cruzeiro que tanto evita tropeços de qualidade quanto impede qualquer decolagem.
Neste contexto, A Cabeça de Mamãe carece de autenticidade, dada a nítida intenção da diretora Carine Tardieu em emular Jean-Pierre Jeunet e seu Fabuloso Destino de Amélie Poulain, tarefa essa um tanto quanto complexa, eis que além de não gozar do lirismo e poesia característicos de Jeunet a cineasta acaba agregando ao seu trabalho semelhanças não tão bem vindas com a obra supracitada, bem como com os romances produzidos aos quilos em Hollywood.
Da forma como ficou, A Cabeça de Mamãe rende um mero passatempo, o que é uma pena já que a produção dispunha de plenas condições para ir muito além do escapismo.

COTAÇÃO: ☼☼☼

 

Ficha Técnica

Título Original: La Tête de Maman
Direção: Carine Tardieu
Duração: 95 minutos

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Separados Pelo Casamento


Mesmo que Mude

Quando as manias e picuinhas de cada dia extrapolam a paciência, o casal Brooke (Jennifer Aniston) e Gary (Vince Vaughn) decide dar um basta ao seu relacionamento. Entretanto, a convivência dos dois é estendida até a venda do apartamento onde residem, o que, inevitavelmente, amplia o rol de ofensas trocadas, desgastando ainda mais os sentimentos.
Apesar de partir de um viés cômico, amparado no sempre hilário Vince Vaughn, Separados Pelo Casamento (EUA, 2006) se distingue das demais comédias românticas pela postura realista com a qual se desenvolve. Neste sentido, por exemplo, o tradicional final feliz cede espaço para um término que foge das fórmulas tradicionais e, por isso, ganha em verossimilhança.
Sim, as farpas entre o homem com um pé ainda na adolescência e a mulher que insiste em jogar com a própria sorte podem até soar engraçadas, mas, de forma inconteste, trazem em seu bojo o quê de tristeza que acompanha muitos relacionamentos.
Neste passo, o orgulho de uma pessoa acarreta a mágoa da outra, de maneira que, ainda que subsista o carinho, não será possível esconder que algo mudara – talvez a admiração tenha sido afetada, o amor tenha se transformado ao longo do caminho –, gerando a conclusão de que os sentimentos de outrora não são mais suficientes para sustentar uma relação.
Assim, no reencontro que o acaso não tarda a providenciar, Brooke e Gary percebem que o afeto entre eles permanece, mas, infelizmente, não como antes, haja vista a perda de cumplicidade que os leva a um cumprimento inibido, como se estranhos fossem um ao outro.
Separados Pelo Casamento é, desta feita, uma obra cativante, dado seu êxito em trabalhar com leveza sentimentos tão próximos a melancolia, mas absolutamente rotineiros nas histórias de cada um.
Como diz a canção:É sempre amor, mesmo que acabe/ Com ele aonde quer que esteja/ É sempre amor, mesmo que mude/É sempre amor, mesmo que alguém esqueça o que passou” (Bidê ou Balde).

 

COTAÇÃO: ☼☼☼☼

 

Ficha Técnica

Título Original: The Break-Up
Direção: Peyton Reed
Roteiro: Jeremy Garelick e Jay Lavender, baseado em estória de Vince Vaughn, Jeremy Garelick e Jay Lavender
Produção:Scott Stuber e Vince Vaughn
Elenco: Megan Klein (Sally)Keir O'Donnell (Date (Paul)Brad Nelson (Greg) Cole Hauser (Lupus Grobowski) Eric Bradley (Tone Ranger)Peter Billingsley (Andrew)Kristen Kruchowski (Becca)Jacqueline Williams (Shondra)Vince Vaughn (Gary Grobowski)Vernon Vaughn (Howard Meyers) Jane Alderman (Mrs. Grobowski)Julie Hilgendorf (Pedestrian) Elaine Robinson (Carol Grobowski)Rebecca Spence (Jen) Joey Lauren Adams (Addie) Monica Szanyi (Kelly/Pin Shaker)Jennifer Aniston (Brooke Meyers)Ann-Margret (Wendy Meyers)Shelby Bakken (Taylor)Tiffany L. Addison (Tiffany Addison)James Azrael (Gutterballs Bowler) Judy Davis (Marilyn Dean)Samantha Albert (Debbie) Jon Favreau (Johnny O)Zack Shada (Mad Dawg Killa)Ivan Sergei (Carson Wigham)George Glynn (Casey)Vincent D'Onofrio (Dennis Grobowski)Ryan Cowhey (Andrew Jr.) Justin Long (Christopher) Mary-Pat Green (Mischa)Geoff Stults (Mike)John Michael Higgins (Richard Meyers)
Fotografia:Eric Alan Edwards
Figurino:Patrick Caulfield e Carol Oditz
Edição:Dan Lebental e David Rosenbloom
Estreia no Brasil: 2 de Janeiro de 2006
Duração: 106 minutos

domingo, 12 de setembro de 2010

Viver


O Sentido da Vida

 

Kanji Watanabe é um funcionário público cujas ambições profissionais de outrora acabaram sucumbidas pela morosidade e burocratização da Administração Pública. Trinta anos após sua admissão Watanabe é conhecido tão somente por ser aquele que jamais acumulou uma falta ao trabalho. Convencido de que protegera seu cargo durante tanto tempo em prol do sustento de seu filho, Watanabe começa a questionar a apatia de seu comportamento após ter um câncer de estômago diagnosticado.

Sem amigos, viúvo e menosprezado pelo filho já adulto, Watanabe, num impulso niilista, passa a se ausentar do emprego para ocupar seus dias com noitadas e bebedeiras, rotina desregrada essa que o homem não tarda a perceber como algo não imprescindível para seus últimos dias neste plano.

Determinado a ajudar seus próximos, Watanabe volta ao trabalho para desafiar todas as barreiras e entraves burocráticos do sistema administrativo em benefício da realização de serviços de saneamento básico e de construção de um parque infantil conforme pleiteado há tempos pela comunidade.

É dessa maneira, portanto, que o protagonista encontra aquilo que muitos nunca encontram: o sentido da vida; de forma que a inauguração do espaço de recreação se revela como a aurora do personagem, o momento em que, qualquer que fosse sua missão, viver já teria valido a pena.

Viver (Japão, 1952) é uma tocante produção de Akira Kurosawa, um drama intimista que teria tudo para soar melancólico ou deprimente mas que não é nada disso graças aos leves toques de humor empregados pelo diretor, bem como ao otimismo – ainda que ingênuo – caracterizador da mensagem final.

Uma vez que se trata de um filme de personagem, Kurosawa extrai da interpretação de Takashi Shimura toda a emoção da qual a obra dependia. Interpretando um homem que aparenta carregar o peso do mundo na costas, Shimura se afasta de qualquer ar piegas, dispensando a piedade do público para com o personagem.

Assim, manejando sentimentos com delicadeza, diretor e ator logram êxito em demonstrar a capacidade do homem se tornar cego ou até mesmo ignorante em virtude de uma arrogância que não lhe permite compreender a beleza de algo a  princípio tão simples como solidariedade.

 

COTAÇÃO: ۞۞۞۞

 

Ficha Técnica

Título Original: Ikiru
Direção: Akira Kurosawa
Elenco: Atsushi Watanabe (Patient)Yûnosuke Itô (Novelist)Masao Shimizu (médico)Isao Kimura (Intern)Takashi Shimura (Kanji Watanabe)Makoto Kobori (Kiichi Watanabe, Kanji's Brother)Kamatari Fujiwara (Sub-Section Chief Ono)Nobuo Nakamura (Deputy Mayor)Minoru Chiaki (Noguchi)Haruo Tanaka (Sakai)Shinichi Himori (Kimura)Miki Odagiri (Toyo Odagiri, employee)Bokuzen Hidari (Ohara)Nobuo Kaneko (Deputado)
Duração: 143 minutos

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Nosso Lar


Aprimoramento da Linguagem

Abordar uma obra como Nosso Lar (Brasil, 2010) requer um afastamento de eventuais crenças filosóficas e/ou religiosas em benefício de uma análise imparcial e centrada nos aspectos técnicos do trabalho cinematográfico.
Nesta toada, salta aos olhos o eficiente – ainda que não necessariamente original e por vezes cafona – trabalho de direção de arte, cuja habilidade logra êxito em materializar elementos do livro homônimo aparentemente complexos para uma filmagem.
Contudo, o apuro visual, infelizmente, se constrói como um trunfo isolado do longa-metragem, visto que a direção excessivamente respeitosa de Wagner de Assis se por um lado evita que temas controversos como a arrecadação de bônus-horas e a utilização de tecnologia avançada caiam na comicidade, por outro lado não consegue impedir o tom solene das interpretações e de diálogos que, na verdade, mais parecem discursos.
De qualquer forma, Nosso Lar, apesar dos altos e baixos e independentemente de sua temática, representa mais um passo no processo de amadurecimento do cinema nacional no que atine o aprimoramento de sua linguagem, o que, convenhamos, já é motivo de congratulações.

COTAÇÃO: ۞۞۞

 

Ficha Técnica

Direção e Roteiro: Wagner de Assis
Música:Philip Glass
Fotografia:Ueli Steiger
Direção de Arte:Lia Renha
Figurino:Luciana Buarque
Edição:Marcelo Moraes
Estreia no Brasil: 3 de Setembro de 2010
Duração: 102 minutos

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Aconteceu em Woodstock


A Cereja do Bolo

Não deixa de ser curioso que um asiático como Ang Lee apresente uma versão própria sobre um evento tão intrínseco da história cultural norte-americana como o festival de Woodstock.
Se por um lado esta diversidade geográfica permite uma abordagem sóbria e não tendenciosa, por outro exclui de Aconteceu em Woodstock (EUA, 2009) a dose de emoção necessária para torná-lo cativante aos olhos do público. Na verdade, Lee opta por um viés burocrático que não abre espaço para o ingrediente fundamental da receita: a música.
Desta feita, a cereja do bolo é solenemente ignorada, de forma que imagens dos concertos ou até mesmo representações dos mesmos não são incluídas no filme. Tudo isto se deve, é claro, pelo feixe narrativo adotado no material original inspirador do roteiro, daí porque os fatos macro servem apenas de cenário e motivação para acontecimentos micro, o que, inevitavelmente, gera frustrações eis que, por mais interessantes que sejam as experiências e descobertas do protagonista, sua trajetória não suplanta mas sim se confunde com a do festival.
Ademais, mesmo que todo o elenco se esmere em caprichadas interpretações – no que se destaca a atriz Imelda Staunton – permanece a impressão de que papeis coadjuvantes com potencial para ótimos momentos, dada suas naturezas excêntricas, restam mal aproveitados por conta da limitada função de escada para o protagonista que lhes é empregada.
Apesar das nítidas boas intenções, Ang Lee pode não ter realizado uma obra integralmente fraca, mas, sem dúvida, produziu algo aquém de seu talento e das expectativas envolvidas. Quem sabe numa próxima oportunidade ele acerte...

COTAÇÃO: ۞۞۞

Ficha Técnica

Título Original: Taking Woodstock
Direção: Ang Lee
Produtores: Ang Lee, James Schamus
Música:Danny Elfman
Fotografia:Eric Gautier
Direção de arte:Peter Rogness
Figurino:Joseph G. Aulisi
Edição:Tim Squyres
Elenco: Henry Goodman (Jake Teichberg)Edward Hibbert (British Gentleman)Imelda Staunton (Sonia Teichberg)Demetri Martin (Elliot Teichberg)Emile Hirsch (Billy)Sondra James (Margaret)Bette Henritze (Annie)Clark Middleton (Frank)Kelli Garner Paul Dano Jeffrey Dean Morgan (Dan)Christina Kirk (Carol)
Estreia no Brasil: 28 de Agosto de 2009
Duração: 120 minutos

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Let It Be

Presente Para a Humanidade
Inegavelmente a interpretação das imagens do documentário/show Let It Be (Reino Unido, 1970) carece de certo conhecimento prévio sobre a história dos quatro rapazes de Liverpool, tamanha a sutileza com a qual são mostradas as chagas que em breve culminariam no fim dos Beatles.
Neste passo, o que se vê é a quase que desesperada tentativa de Paul em manter o grupo unido e a incentivar a atuação em conjunto dos músicos seja compondo, seja tocando. Em contrapartida, Lennon, ainda imerso na onda flower power, dispensa atenção plena a sua musa da discórdia Yoko Ono, permanecendo, assim, alheio tanto as dissidências quanto a expansão do trabalho da banda.
Ringo, por sua vez, ocupa a tradicional posição coadjuvante, exceto pela relevante aproximação a George que, aparentemente, era o único dentre os demais a estimular o talento daquele.
George Harrison, aliás, pode até ter um pequeno tempo de aparição em tela, mas sua figura e seu nome soam sempre como fundamentais, dada sua notória intolerância para com Paul em discussões de ensaio e em virtude da declaração deste último, numa conversa com John, de que o filme Let It Be, apesar de realizado sem a concordância de George, poderia ser uma forma de reaproximar os artistas do público, visto que o jejum de shows, segundo fala de McCartney – também não contestada por Lennon – resultava do fato de Harrison não mais ver sentido naquilo.
Longe de querer vilanizar George – que, pelo visto, suportava cada vez menos as brigas e a convivência com o restante da banda – o documentário deixa que as imagens falem por si para que os próprios espectadores elaborem suas conclusões.
Muitos, por conseguinte, entenderam a obra como um pretensioso grito de liderança de Paul McCartney, o que, por certo, é um equívoco, eis que o artista domina o longa-metragem, assim como o álbum, de ponta a ponta em razão da pouca atenção dispensada ao trabalho pelas outras mentes criativas do grupo, o que, por outro lado, não implica numa queda de qualidade das músicas, afinal, Let It Be deixa evidente que mesmo quando parte da banda levava nas coxas uma nova produção, ainda assim, o produto final não era menos que brilhante.
Os Beatles, por fim, podem até não ter voltado a fazer shows para grandes platéias, entretanto, graças ao projeto deste longa-metragem, o desejo de Paul em voltar a tocar ao vivo se concretizou quando da histórica performance surpresa realizada no telhado da gravadora Apple, cuja captação de imagens servira para fechar com ousadia e originalidade o filme.
São eventos, como dito, históricos e que serviriam para prolongar a sobrevida do grupo quando, mesmo após seu término oficial, as canções gravadas foram compiladas e mixadas para serem lançadas como o derradeiro lp da banda.
Let It Be, desta feita, fora o presente de Paul para a humanidade, o que reforça a idéia do quão injusta fora a pecha de responsável pelo fim do sonho carregada durante anos por aquele, uma vez que as cenas do longa-metragem provam que tentar, insistir foram coisas que ele, sem dúvida, fez.

 

COTAÇÃO: ۞۞۞۞


Ficha Técnica

Produtores: Mal Evans, Neil Aspinall
Duração: 81 minutos