EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




terça-feira, 31 de agosto de 2010

Titãs – A Vida Até Parece Uma Festa


Go Back

Titãs – A Vida Até Parece Uma Festa (Brasil, 2008) é uma deliciosa colagem de imagens envolvendo momentos da banda paulista desde seus primórdios até os dias mais recentes.
Neste passo, o saudosismo reina para a felicidade de qualquer fã do rock brasileiro, dada a possibilidade de se degustar cenas da década de 80 até então inéditas e não raro hilárias - afinal, como, por exemplo, não se esbaldar com a comicidade dos papelões a que, em início de carreira, os músicos se prestavam em programas como os da Hebe e do Gugu?
As imagens, desta feita, falam por si só, dispensando qualquer outro artifício narrativo, graças a um excelente e trabalhoso processo de montagem. Todavia, como os tempos modernos pedem agilidade e ritmo, certos eventos importantes na história da banda – como as prisões de Tony Bellotto e Arnaldo Antunes, além da despedida de Nando Reis – são mostrados com muita rapidez quando bem poderiam ser mais esmiuçados.
Essa velocidade acelerada, porém, nada mais é do que uma falha pequena perto do prazer que é assistir a este documento histórico sobre um brilhante e animado período da música brasileira. E se as cenas projetadas perdem seu impacto a medida em que se aproximam do presente é porque o grupo hoje é uma memória distante do que já foi um dia em termos de rebeldia e qualidade.
Ok, aqueles rapazes feiosos viraram senhores, daí o ar selvagem de outrora ter ficado para trás, mas, ainda assim, permanece a sensação de que os Titãs envelheceram mal, o que pode ser constatado pela excessiva quantidade de álbuns revisionistas lançados desde seu Acústico MTV.
Ou, como já diziam os próprios Titãs em Não Vou Me Adaptar, uma das primeiras composições de Arnaldo Antunes: “eu não caibo mais nas roupas que eu cabia/ eu não encho mais a casa de alegria (...) eu não tenho mais a cara que eu tinha/ no espelho essa cara já não é minha”.

 

COTAÇÃO: ۞۞۞


Ficha Técnica

Direção, Roteiro e Montagem: Branco Mello, Oscar Rodrigues Alves
Produção: Angela Figueiredo, Paulo Roberto Schmidt.
Produção Executiva: Angela Figueiredo, Paulo Roberto Schmidt, Maria Clara Fernandez, Fábio Zavala e Cristina Fantato.
Edição de som: Oscar Rodrigues Alves, Branco Mello, Denilson Campos
Mixagem: Denilson Campos.
Direção de Arte: Luciano Cury.
Produtores associados: Arnaldo Antunes, Branco Mello, Charles Gavin, Nando Reis, Paulo Miklos, Sérgio Britto, Tony Bellotto, Oscar Rodrigues, Alves, Susi Fromer, Alice Fromer e Max Fromer
Estreia: 16 de Janeiro de 2009
Duração: 100 minutos

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Adam


Agradável Surpresa

 

Adam é um romance, uma história sobre um amor com poucas chances de sucesso, um retrato sobre a convivência e o mundo de pessoas com síndrome de Asperger.

Certeza de melodrama água com açúcar? Errado, pois Adam suplanta qualquer expectativa negativa nesse sentido ao adotar uma postura sensível e jamais piegas.

Neste passo, a deficiência do protagonista é mostrada co,m enorme respeito graças ao excelente trabalho do ator Hugh Dancy, cuja atuação passa longe de qualquer fórmula capaz de banalizar e/ou tornar caricato seu personagem.

A delicadeza, portanto, permeia o filme do início ao fim num processo maduro o bastante para assumir sem receios um viés pé no chão, realista que afasta a obra de tantos outros exemplos parecidos cujos desenvolvimentos descambam para o saturado rumo do drama de superação.

Adam, desta feita, vai além ao demonstrar que a vitória não necessariamente se dá como nos finais felizes dos contos de fada, estando por vezes guardada dentro de nós mesmos, conclusão esta que, por si só, já torna o longa-metragem uma agradável surpresa.

 

COTAÇÃO: ۞۞۞۞

 

Ficha Técnica

Título Original: Adam
Direção e Roteiro: Max Mayer
Elenco: Hugh Dancy (Adam Raki) Steffany Huckaby (Carol) Maddie Corman (Robin)Susan Porro (Jen)Terry Walters (Michael)John Rothman (Beranbaum) Adam LeFevre (Mr. Wardlow)Haviland Morris (Lyra)Mark Linn-Baker (Sam Klieber)Ursula Abbott (Kelli)Amy Irving (Rebecca Buchwald)Peter Gallagher (Marty Buchwald)Rose Byrne (Beth Buchwald)Frankie Faison (Harlan)
Estreia: 11 de Dezembro de 2009
Duração: 99 minutos

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

A Dama do Lago


Insistente Perspectiva

Contratado para desvendar o desaparecimento de uma mulher, o detetive particular Philip Marlowe vê todas as suas desconfianças sobre a complexidade da missão se confirmarem quando assassinatos envolvendo pessoas ligadas ao caso começam a ocorrer.
Produzido numa época em que os filmes noir já haviam recebido tal nomenclatura com base na definição de seus elementos característicos, A Dama do Lago (EUA, 1947) se diferencia das demais obras do estilo ao adotar uma inovadora e, portanto, ousada captação de imagens em primeira pessoa.
Dessa maneira, por quase toda a duração do filme os olhos do espectador se confundem com os do protagonista, mas, ao contrário do que sugeria o anúncio publicitário lançado à época pela MGM, o espectador não é alçado a condição de personagem, eis que a cada ato findo o detetive surge para dialogar diretamente com a platéia, dando-lhe explicações sobre os fatos e pondo-lhe na devida condição de parte passiva apta a tão somente testemunhar a ótica daquele.
Não obstante o atrevimento estético digno de louvores pelo ineditismo, o ator e diretor Robert Montgomery acaba por se tornar refém de sua técnica, visto que a  predominância do ponto de vista de seu personagem impede maiores arroubos da montagem, por exemplo, prejudicando, assim, a fluidez da obra.
Dentro deste contexto, a perspectiva de filmagem escolhida exige grandes interpretações do elenco graças aos inúmeros closes e planos médios simuladores do raio de visão do detetive que, por sua vez, no intuito de ter presença e personalidade demarcadas resta caracterizado como um homem falastrão e antipático, o que não necessariamente seria um problema desde que representado com o charme que Humprey Bogart com tanta facilidade aplicava a tais papeis – ator esse que, inclusive, interpretou o mesmo Philip Marlowe no anterior À Beira do Abismo (The Big Sleep, EUA, 1946).
Por fim, a insistência em valer-se do olhar do personagem acarreta em A Dama do Lago um desequilíbrio entre a forma e o conteúdo, dada a obsessão do diretor Montgomery em seguir tal caminho do início ao fim. Nesta toada, uma divisão mais flexível entre os pontos de vista poderia tornar o filme menos repetitivo e até, quem sabe, deixar o espectador menos incomodado com a tarefa de servir como cúmplice constante de um ser tão difícil de simpatizar como o detetive Marlowe.

 

COTAÇÃO: ۞۞۞

 

Ficha Técnica

Título Original: Lady in the Lake
Produção: George Haight
Argumento: Steve Fisher, baseado no romance de Raymond Chandler
Elenco: Robert Montgomery (Philip Marlowe), Audrey Totter (Adrienne Fromsett), Lloyd Nolan (DeGarmot,) Tom Tully (Capitõ Fergus K. Kane), Leon Ames (Derace Kingsby), Jayne Meadows (Mildred Haveland), Dick Simmons (Chris Lavery), Morris Ankrum (Eugene Grayson), Kathleen Lockhart (Mrs. Grayson), Ellay Mort (Chrystal Kingsby)
Música Original: David Snell
Fotografia: Paul Vogel
Edição: Gene Ruggiero
Direção de Arte: Cedric Gibbons, E. Preston Ames
Figurino: Irene
Maquiagem: Jack Dawn, Sydney Guilaroff
Efeitos Sonoros: Douglas Shearer
Efeitos Especiais: A. Arnold Gillespie
Estreia: 1947
Duração: 102 minutos
Curiosidades:
“O argumento de A Dama do Lago foi escrito pelo próprio Raymond Chandler, sendo a única vez que o escritor escreveu um argumento cinematográfico. No entanto, a versão que Chandler apresentou, com cerca de 175 páginas, revelou-se impossível de filmar e a MGM teve de contratar Steve Fisher para reescrever o argumento. Chandler insistiu que o seu nome fosse creditado como argumentista, mas após ler a versão de Fisher, recusou ver o seu nome associado ao argumento. A principal causa desta atitude foi a exclusão de uma cena crucial do romance original e a opção de Fisher de apresentar o filme em câmara subjetiva”¹.
A ficha técnica original da produção incluía no elenco a atriz Ellay Mort, como intérprete da personagem, que não surge no filme, Chrystal Kingsby. “A referência é uma brincadeira, já que a fonética do nome é semelhante à frase francesa “elle est mort” (ela está morta)”².
1 – 2. Fonte: http://www.chambel.net/?p=13.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

400 Contra 1 - Uma História do Crime Organizado


Atrapalhada Humanização

400 contra 1 - Uma História do Crime Organizado (Brasil, 2010) engana com facilidade quem assiste seus cinco primeiros minutos; afinal, uma trilha sonora cool (ao estilo Shaft) e um correto trabalho de reconstituição de época levam a crer que coisa boa virá pela frente. Mas, eis que o caldo entorna e uma sucessão de falhas enche a tela e a paciência do espectador, tornando deveras enfadonha a experiência de assistir o longa.

Dentro deste contexto, a obra almeja resumir em noventa minutos fatos ocorridos ao longo de quase uma década, o que - apesar de não necessariamente configurar uma missão impossível – acaba funcionando como o grande fator responsável pela ineficiência do filme, dada a opção do diretor Caco Souza em não adotar uma linha narrativa linear, preferindo, ao contrário, valer-se de uma edição caótica, repleta de idas e vindas no tempo e que, assim, não logra êxito em estabelecer uma conexão satisfatória entre as seqüências mostradas.

Tantos trechos soltos de história, ressalte-se, não permitem o desenvolvimento psicológico de qualquer personagem, tornando insípida, desta feita, a exposição de suas motivações, o que, inevitavelmente, concede um ar de inutilidade a certos papeis, como ocorre, por exemplo, com as personagens femininas cujas entradas e saídas de cena ora não se explicam ora não se justificam.

Por conta deste vazio, a produção é enxertada por uma incômoda narração, artifício esse que, ao invés de colaborar com a construção do enredo, prefere partir para a obviedade, assumindo um tom didático que desconfia tanto da inteligência do público quanto da capacidade auto-explicativa das imagens filmadas.

Bagunçado como ficou, 400 contra 1... desperdiça temas ricos como a história do crime em meio as anos de chumbo, bem como a coexistência permeada de preconceitos - e, por isso, nada pacífica – entre presos políticos e bandidos comuns reunidos num mesmo local de encarceramento.

Nesta toada, até mesmo o combate final dos protagonistas para com a polícia – seqüência essa que deveria servir tanto de clímax quanto de explicação ao título do filme – é desprovido de qualquer emoção, eis que extremamente mal encenado e mal montado.

Por um lado talvez seja até bom que a edição de 400... seja tão desequilibrada, pois, da maneira como foi finalizada, a obra não consegue alcançar seu maior objetivo: ultrapassar a fronteira da exposição dos motivos para, ato contínuo, torná-los elementos justificadores da criminalidade.

Hector Babenco, há mais de trinta anos, lidou com temática parecida em Lúcio Flávio – O Passageiro da Agonia (Brasil, 1977), produção essa que se mantém atual não apenas por sua crueza, mas, principalmente, em virtude de seu papel observatório sobre os conchavos tramados entre policiais e criminosos, opção dramática essa que, ao invés de partir em busca da humanização cega dos personagens, deixa para a platéia a função de julgar ou compreender a motivação dos mesmos.

400... afasta-se, portanto, desta tendência, preferindo abraçar uma linguagem televisiva na qual tudo precisa ser muito rápido e mastigado. O problema desta roupagem fast food, quando bem costurada, consiste no fato de não instigar o público a refletir sobre o porquê, mas sim a compreender, a ser solidário com o mesmo, o que, por certo, resulta numa opção narrativa preocupante e até mesmo perigosa.

 

COTAÇÃO: ۞۞



Direção: Caco Souza

Roteiro:Victor Navas, com colaboração de Júlio Ludemir, baseado em livro de William da Silva Lima

Produção:Nélson Duarte

Elenco: Negra Li, Branca Messina, Fabrício Boliveira, Daniel de Oliveira, Lui Mendes, Daniela Escobar

Direção de arte:Bernardo Zortea
Figurino:Beta Abrantes e Carolina Sudati
Edição:Márcio Canella

Duração: 98 min

Estreia: 6 de Agosto de 2010

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Por Uma Vida Melhor


Dramédia Gravídica

Após ser pego de surpresa por uma gravidez não planejada, casal sai em viagem a procura de um lugar onde possa desfrutar a peculiaridade do momento ao lado de pessoas que lhes sejam queridas.
Por Uma Vida Melhor (EUA, 2009) pode até ser visto como um primo distante de Ligeiramente Grávidos (Knocked Up, 2007), porém, não obstante seu viés cômico, ainda assim o que nele prevalece é o equilíbrio dramático.
Neste sentido, os personagens secundários são construídos de maneira propositalmente exagerada e caricata – opção essa que para alguns pode soar como uma direção manipuladora de Sam Mendes, dada o freqüente contraste entre a estranheza dos outros e a naturalidade da dupla de protagonistas – como forma de mostrar que a busca efetuada por aqueles futuros pais não deveria partir de fora para dentro, mas sim na via inversa, ou seja, procurando antes de tudo aceitar a si mesmos como companhias, o que inevitavelmente exigirá, também, o exorcismo de seus próprios distúrbios.
Desse modo, Mendes esclarece que o desconhecido, o inédito, trazem em seu bojo um encanto que nem sempre poderá suplantar o prazer causado por uma volta as origens.
A gravidez, dentro deste contexto, é corretamente abordada pelo cineasta como uma fase de transição tanto para o homem quanto para a mulher, uma ocasião em que velhos hábitos colidem com novos comportamentos, bem como com a insegurança quanto ao futuro.
Por isso, a obra exala cumplicidade para aqueles que já viveram tal experiência, ao passo que para aqueles que ainda não alcançaram tal etapa da vida funciona como um belo testemunho e até, quem sabe, como exemplo instigador, o que, sem dúvida, comprova que, qualquer que fosse o intuito pretendedido, Sam Mendes cumpriu com louvor a missão.

COTAÇÃO: ***

Ficha Técnica
Título Original: Away We Go
Direção: Sam Mendes
Roteiro: Dave Eggers, Vendela Vida
Elenco: Maya Rudolph (Verona De Tessant)Carmen Ejogo (Grace De Tessant)Catherine O'Hara (Gloria Farlander)Jeff Daniels (Jerry Farlander)Allison Janney (Lily)Jim Gaffigan (Lowell)Maggie Gyllenhaal (LN Fisher-Herrin)Josh Hamilton (Bailey Harkins)John Krasinski (Burt Farlander)
Duração: 98 minutos

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O Segredo dos Seus Olhos


CINEMÃO

Falar de O Segredo dos Seus Olhos (Argentina, 2009) significa lidar com elogios e adjetivos, eis que a obra representa, com todo o mérito, um artigo hoje raro: o cinema com c maiúsculo ou, melhor dizendo, o CINEMÃO!
Nesta toada, o filme de Juan José Campanella assume com total honestidade uma levada clássica, mas que também não se furta em ser arrojada – a sequência sem cortes no estádio de futebol é uma prova disso.
Desta feita, romance, suspense, humor e questionamentos sócio-políticos são mesclados com extrema eficiência, causando ao espectador reações genuínas como: emoção, euforia, temor, indignação, tristeza e alegria.
Tal resultado, vale dizer, é obtido graças a mão leve de Campanella que não comete o equívoco de adotar qualquer tom sisudo e/ou solene, preferindo, portanto, debruçar-se sobre os sensações extraídas de um roteiro tocante, bem amarrado e recheado de diálogos excepcionais em sua ironia.
Dentro deste contexto, um habilidoso trabalho de montagem permite ao público ser levado, sem qualquer esforço, em viagens de idas e vindas no tempo, ocasiões essas em que fotografia logra êxito na adoção dos tons pedidos por cada cena, através de funcionais contrastes cromáticos.
Todas essas virtudes técnicas, ressalte-se, se mostram ainda mais relevantes por não serem apenas um fim em si mesmas, visto que, acima de tudo, servem de zona de conforto para que o elenco alcance interpretações verdadeiras, dignas de atores que confiam tanto no enredo abordado quanto na pessoa que os dirige.
Fazia tempo, como já dito, que um filme não manejava com tamanha perfeição tantos elementos narrativos. Fazia tempo que uma produção não envolvia com tanta paixão a platéia, prestando-se, assim, a permanecer na memória desta, bem como a servir de referência e de indicação.
Por isso, quando alguém lhe perguntar sobre o que trata O Segredo dos Seus Olhos, basta dizer que a obra gira em torno de uma história de amor. Felizardo aquele que se dispuser a conferir algo com um argumento aparentemente tão repetitivo.

COTAÇÃO - ☼☼☼☼☼             

Ficha Técnica
Título Original: El Secreto de sus Ojos
Direção e Edição: Juan José Campanella
Elenco: Ricardo Darín (Benjamín Espósito )Elvio Duvini (Juan Robles)Maximiliano Trento (Guardia comisaría)Fernando Pardo (Sicora)Kiko Cerone (Molinari)Juan José Ortíz (Agente Cardozo)Mariano ArgentoSebastián Blanco (Pinche Tino)Alejandro Abelenda (Pinche Mariano)Mario Alarcón (Juez Fortuna Lacalle)Rudy Romano (Ordóñez)Bárbara Palladino (Chica piropo)Carla Quevedo (Liliana Coloto)José Luis Gioia (Inspector Báez)Guillermo Francella (Pablo Sandoval)Javier Godino (Isidoro Gómez)Pablo RagoSoledad Villamil (Irene Menéndez Hastings)David Di Napoli 


Música:Federico Jusid e Emilio Kauderer
Fotografia:Félix Monti
Figurino: Cecilia Monti
Estreia no Brasil: 26 de Fevereiro de 2010
Duração: 127 minutos

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

A Origem


Conjunto Homogêneo de Excelência

Em apertada síntese, A Origem (EUA, 2010) é um filme de assalto cujo desenrolar, como é comum aos exemplares do gênero, não sai conforme o esperado.
Ocorre que resumir desse modo tal obra significa também subestimar o intricado quebra-cabeça montado pelo diretor Christopher Nolan que, a exemplo do último Batman, realiza um espetáculo que, apesar das proporções grandiosas, jamais permite a prevalência da forma sobre o conteúdo.
Neste diapasão, chama atenção a habilidade do cineasta em fundir diversas subtramas a um vasto número de personagens cujo tempo de permanência em tela é sempre bem usufruído. Desta feita, tal como em O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008), as várias camadas do enredo são aos poucos reveladas para, próximo ao fim, se agregarem num conjunto homogêneo de excelência.
Não fosse o bastante a inteligência e a originalidade das idéias do roteiro, o longa-metragem aproveita, ainda, a ambientação no universo dos sonhos para apresentar uma inventividade visual que não se via desde os tempos de Stanley Kubrick.
Desse modo, Nolan prova mais uma vez do que é capaz quando dispõe da liberdade e do financiamento necessários a realização de um blockbuster culto e de qualidade, privilégios esses oriundos do merecido prestígio por ele adquirido.

COTAÇÃO: ****

Ficha Técnica
Título Original: Inception
Direção e Roteiro: Christopher Nolan
Elenco: Ken Watanabe (Saito)Ellen Page (Ariadne) Joseph Gordon-Levitt (Arthur)Johnathan Geare (James)Lukas Haas (Nash) Michael Caine (Professor) Cillian Murphy (Fischer)Tom Berenger (Browning)Claire Geare (Phillipa )Alex Lombard (Memory ) Talulah Riley (Blonde)Leonardo DiCaprio (Cobb)Tom Hardy (Eames) Dileep Rao (Yusef) Marion Cotillard (Mal)
Fotografia: Wally Pfister
Trilha Sonora: Hans Zimmer
Duração: 148 min.
Estreia: 6 de Agosto de 2010

domingo, 8 de agosto de 2010

Alice Não Mora Mais Aqui


O Recado que Não Fora Entregue

Certo dia, durante a pré-produção de Alice Não Mora Mais Aqui (EUA, 1974), Ellen Burstyn, estrela do filme, encontrou com Peter Bogdanovich que, ao ouvirr da atriz que Martin Scorce havia sido escalado para a direção, avisou: “Diz para ele não mexer tanto com a câmera”¹.
Burstyn, ainda bem, teve a prudência de não se deixar contaminar pela boçalidade de Bogdanovich – o qual, graças ao sucesso de A Última Sessão de Cinema (The Last Picture Show,1971), passou a se considerar o melhor cineasta americano em exercício – deixando, assim, de entregar ao destinatário aquele infeliz recado.
Infeliz por quê? Porque grande parte da beleza de Alice reside, justamente, nos graciosos movimentos de câmera planejados por Scorcese. A sequência inicial, por exemplo, renderia sozinha uma extensa análise, afinal, a infância da personagem principal é retratada numa alusão aos primeiros minutos de O Mágico de Oz (The Wizard of Oz, 1939), quando Dorothy, ainda no Kansas, é levada por um furacão.
Dentro deste contexto, a projeção em uma dimensão menor de tela dá o tom cinematográfico desejado por Scorcese, o que é reforçado na paleta avermelhada usada pela fotografia, bem como pelo suntuoso travelling que primeiramente acompanha os passos da jovem Alice para, em seguida, afastar-se, alterando, assim, a profundidade do plano e o tempo da história, ocasião em que o tom clássico do passado cede lugar à modernidade das músicas, dos figurinos e dos cenários do tempo presente, retrato esse para o qual o espectador é aproximado por meio daquele mesmo travelling que agora faz as vezes de um zoom-in.
Se Scorcese, como dito, estava nervoso por Alice ser sua primeira obra bancada por um estúdio, tal insegurança em momento algum é percebida. Aliás, mais parece, que o cineasta se sentia deveras confiante, dado o desfile de técnicas de movimento que, além de colaborarem com a narrativa, também deram ao longa-metragem um ar cru e verdadeiro, como é possível perceber no caso das várias cenas em que é nítido o uso de câmera na mão.
Entretanto, não foram apenas os aspectos técnicos das tomadas que tomaram a atenção do diretor, mas também a condução do elenco. Neste passo, a garçonete boca suja de Diane Ladd, o galanteador lunático de Harvey Keitel, a jovem ladra de Jodie Foster (em momento pré-Taxi Driver), o filho falastrão de Alfred Lutter III, o cowboy boa praça de Kris Kristofferson e a Alice ora amargurada ora radiante de Ellen Burstyn são figuras, sem exceção,  extremamente críveis e magistralmente interpretadas.
Desse modo, o cineasta provou ao mundo que seu talento ia além de Caminhos Perigosos (1971), mostrando, portanto, ser um homem sensível e não atado ao rótulo dos filmes de gangsteres, ao passo que Peter Bogdanovich não conseguiu, por outro lado, manter o sucesso por muito tempo, seja pela exímia capacidade em fazer escolhas erradas, seja pela arrogância de seu comportamento.
Por isso tudo, salve Scorcese!
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1.    Fonte: BISKIND, Peter. Como a Geração Sexo-Drogas-e-Rock’n’roll Salvou Hollywood. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2009. p. 264.

COTAÇÃO: ****

Ficha Técnica
Título Original: Alice Doesn't Live Here Anymore
Direção: Martin Scorsese
Música: Richard LaSalle
Fotografia: Kent L. Wakeford
Desenho de Produção: Toby Carr Rafelson
Edição: Marcia Lucas
Elenco: Vic Tayback (Mel)Murray Moston (Jacobs), Alfred Lutter III, Kris Kristofferson (David) Harvey Keitel (Ben)Billy Green Bush (Donald), Martin Brinton (Lenny)Ellen Burstyn (Alice Hyatt)Valerie Curtin (Vera)Laura Dern (Girl Eating Ice Cream Cone)Jodie Foster (Audrey)Lelia Goldoni (Bea)Diane Ladd (Flo) Lane Bradbury (Rita)Mia Bendixsen (Alice, Age 8)Harry Northup (Jim's Bartender)
Estreia: 30 de Maio de 1974
Duração: 112 minutos
Curiosidades:
Conforme acusam os sobrenomes, a diretora de arte Toby Rafelson e a montadora Marcia Lucas, eram, respectivamente, mulheres dos cineastas Bob Rafelson e George Lucas.
Durante as filmagens, Martin Scorcese recebeu no set a visita de Robert De Niro que na ocasião deu ao diretor um exemplar de um livro que acabara de ler intitulado Touro Indomável.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Outsiders



Somente após ser equivocadamente indicado como morto, Harold logrou êxito em testemunhar uma reação emotiva de sua mãe a seu respeito. A partir de então, o rapaz sente que vive apenas quando, contraditoriamente, flerta com a morte, o que faz mediante, cômicas, simulações suicidas voltadas a angariar novos segundos de atenção por parte daquela mulher.
Autêntico outsider Harold interrompe a apatia de seu cotidiano freqüentando velórios de desconhecidos; numa destas ocasiões Maude, outra freqüentadora assídua de funerais, invade de cores o desbotado mundo daquele rapaz.
Neste passo, enquanto Harold anseia por ser apenas igual aos demais, Maude ensina-lhe que justamente nas peculiaridades de cada um residem a beleza e a importância da diversidade. Imbuída de imensa paixão pela vida, a senhora estimula no garoto a ânsia pelo novo, bem como o desejo de externar aquilo que, porventura, colide com os padrões já preestabelecidos.
Verdadeira pérola da contracultura setentista, Ensina-me a Viver (EUA, 1971), tal como Maude, representa um pulsante afastamento das convenções. Espécie de versão, no mínimo, cinco vezes mais ousada de A Primeira Noite de Um Homem (The Graduate, 1967), o filme conseguiu soar repugnante - graças a sugestão de um relacionamento amoroso entre um casal com diferença de idade de pelo menos sessenta anos – mesmo numa época em que todos os argumentos e ideias eram celebrados, o que contribuiu sobremaneira para o fracasso de público e crítica da obra quando de seu lançamento.¹
Todavia, o tempo tratou de fazer jus as incontestes qualidades desta dramédia hoje tratada como clássico cult.
Dentro deste contexto, merecem imediatos elogios a forma como a produção fora dirigida, afinal, em razão de um timing preciso no que tange a mescla de sentimentos, Hal Ashby – que por vários anos trabalhou na edição de filmes² - realizou um feliz e delicado manejo de elementos díspares como melancolia, esperança, ironia e crítica social.
Porém, de nada adiantariam tantas virtudes caso inexistisse a química necessária entre a dupla de atores principais, preocupação essa que é rapidamente dissipada pela ótima interação de Bud Cort para com a soberba Ruth Gordon.
Por conta de suas interpretações, nada parece inverossímil em meio a tantas excentricidades de seus personagens. Na verdade, o comportamento de ambos torna-se até inspirador, o que, por certo, representa a glória para qualquer manifestação artística oriunda de um tempo em que a insatisfação, a quebra de rótulos eram disseminadas a exaustão.
Harold e Maude são figuras, portanto, que não se encaixam na visão de mundo imposta pela sociedade, preferindo, assim, enxergar a vida com seus próprios métodos, para, a partir daí, preencher qualquer vazio nela existente, o que, de certa forma, traz a recordação de Tyler Durden e o narrador, personagens respectivamente defendidos por Brad Pitt e Edward Norton em Clube da Luta (EUA, 1999).
No lugar de velórios, a figura anônima vivida por Norton transita por toda e qualquer espécie de grupo de ajuda, o que talvez seja feito como forma de prazerosa percepção acerca da existência de pessoas com uma vida mais desgraçada que a sua, ou talvez como meio de auto-indulgência voltado a torná-lo alguém melhor ou talvez como mero passatempo contra as noites de insônia.
Se para Harold as respostas para seus questionamentos começaram a surgir após o encontro de Maude, para o narrador o mesmo ocorre quando da convivência com Tyler Durden. É claro que os rumos tomados por cada longa-metragem são diferentes, pois enquanto Ensina-me a Viver aposta num viés otimista, ainda que assombrado pela morte, Clube da Luta parte para um caminho subversivo e pessimista no qual a violência se revela como estímulo de vida e solução para os problemas.
Por óbvio, ambos são caminhos de válida discussão, seja pela tom da sutileza – como no caso da primeira obra analisada -, seja pela epopéia anárquica que caracteriza Fight Club. O meio, em ambos os casos, não suplanta o que mais importa aos seus protagonistas: a urgência em rebelar-se às convenções para, ato contínuo, assumir sem amarras suas próprias personalidades e identidades, tarefa essa cumprida com louvor nas duas produções.
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1.    Ensina-me a Viver estreou em dezembro de 1971, a tempo de ser considerado para o Oscar, embora, no fim das contas, não tenha recebido lá muita consideração. As críticas foram arrasadoras. Na primeira delas, A. D. Murphy escreveu na Variety que o filme era ’tão divertido quanto o incêndio de um orfanato’. Sem hesitar, a Paramount abandonou o filme. Embora Ensina-me a Viver tenha acabado por se tornar um clássico cult, a carreira nas telas se encerrou em uma semana” (Fonte: BISKIND, Peter. Como a Geração Sexo-Drogas-e-Rock’n’roll Salvou Hollywood. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2009. p 181.
2.    Recebendo, inclusive, um Oscar por seu trabalho em No Calor da Noite (In the Heat of the Night, 1967).

COTAÇÕES:
Ensina-me a Viver - ☼☼☼☼          
Clube da Luta - ☼☼☼☼☼

Ficha Técnica - Ensina-me a Viver
Título Original: Harold and Maude
Direção:Hal Ashby
Roteiro: Colin Higgins
Produção: Colin Higgins, Mildred Lewis, Charles Mulvehill
Elenco: Charles Tyner (Brig. Gen. Victor Ball) Judy Engles (Candy Gulf, garota do primeiro encontro)Ellen Geer (Sunshine Doré, garota do terceiro encontro)Ruth Gordon (Maude)Margot  Jones (Student Nurse) Susan Madigan (Girlfriend) Vivian Pickles (Mrs. Chasen) Cyril Cusack (Glaucus) Bud Cort (Harold Parker Chasen)Eric Christmas (Padre)Tom Skerritt (M. Borman) Henry Dieckoff (Butler)Ray K. Goman (Ray Goman)Barry Higgins (Intern) Philip Schultz (Doctor)Shari Summers (Edith Phern, garota do segundo encontro)
Estreia: 20 de Dezembro de 1971
Duração: 91 minutos
Grandes falas de Maude: “Não seja tão profissional. Você deixa de ser você mesmo quando está sendo profissional demais. Essa é a maldição de quem tem um emprego no governo”; “Vício, virtude. É melhor não ser tão rigoroso assim. Você sabota a si mesmo pela sua vida afora. Veja isso por cima da moralidade. Se você aplicar isso para a vida, então você estará se privando de viver isso completamente”.
Curiosidade: Autor da primorosa trilha sonora de Ensina-me a Viver, Cat Stevens faz uma ponta no filme como uma das pessoas que estão de frente para Maude em um funeral.

Ficha Técnica - Clube da Luta
Título Original: Fight Club
Direção: David Fincher
Elenco: Thom Gossom Jr. (Detetive Stern) David Lee Smith (Walter)Van Quattro (Detetive Andrew)David Rockit Hynes (Bruised Fighter) Leonard Termo (Desk Sergeant) David Andrews (Thomas)Lou Beatty Jr. (Cop at Marla's Building)Eion Bailey (Ricky) Michaël Girardin (Detetive Walker)Pat McNamara (Policial Jacobs)Hugh Peddy (Fight Club Man)Meat Loaf (Robert 'Bob' Paulson)Chad Randau (Waiter)Markus Redmond (Detetive Kevin)Owen Masterson (Airport Valet)Matt Winston (Seminarista)Holt McCallany (Mecânico) Ezra Buzzington (Inspetor Dent)Joon B. Kim (Raymond K. Hessel)Jim Jenkins (Restaurant Maitre'd)Zach Grenier (Richard Chesler)Eddie Hargitay (Chanting Fighter)Valerie Bickford (Susan) Jared Leto (Angel Face) Edward Norton (Narrador)Tim De Zarn (Inspetor Bird)Paul Dillon (Irvin)Brian Tochi (Fight Bully) Sydney 'Big Dawg' Colston (Speaker)Brad Pitt (Tyler Durden) Gregory Silva (Riley Wilde) Peter Iacangelo (Lou) Paul Carafotes (Salvator)Louis Ortiz (Fight Patron)J.T. PontinoMarcio Rosario (Fighter) Joel Bissonnette (Food Court Maitre D')Christina Cabot (Group Leader)Helena Bonham Carter (Marla Singer) Stuart Blumberg (Car Salesman)Michael Arturo (BMW Salesman)Baron Jay (Waiter)Christopher John Fields (Proprietor of Dry Cleaners)Charlie Dell (Doorman)Rachel Singer (Chloe)Richmond Arquette (Intern)Evan Mirand (Steph)
Estreia: 15 de Outubro de 1999
Duração: 139 minutos