EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quinta-feira, 29 de julho de 2010

Mr. Vingança

Postura Opinativa

Pontapé inicial da chamada trilogia da vingança de Park Chan-Wook, Mr. Vingança (Coréia do Sul, 2002) retrata a história de homens - Ryu (Shin Ha-Kyun) e Dong-Jin (Song Kang-Ho) - cujos dramas vividos em suas famílias despertam neles a ira fomentadora de planos vingativos.
Dentro deste contexto, Mr. Vingança se apóia sobre dois pontos de vista que, por vezes, se confundem, quais sejam os do agressor e o da vítima. Na verdade, cada uma das metades de sua duração serve justamente para explicar o que leva cada um dos protagonistas a fazer a transição do papel de vítima para o de agressor, numa clara tentativa de humanização dos personagens caracterizadora de um pré-julgamento moralista - ausente nos mencionados Oldboy e Lady Vingança, filmes estes nos quais o que importava não era o motivo da vendetta, mas sim os meios justificados por fins caracterizadores de uma, em sentido contrário, desumanização de seus autores.
Logo, Chan-Wook peca pela postura opinativa adotada em Mr. Vingança, retirando do público, portanto, o ineditismo de tal tarefa. Neste passo, é bem provável que os roteiros de Oldboy e Lady Vingança tenham sido estruturados de maneira mais enxuta – mas não por isso menos densa – em reconhecimento as falhas indicadas e em conformidade com uma simplicidade que muitas vezes termina por se revelar mais eficiente - tal como ocorrera no também vingativo Ao Lado da Pianista (França, 2006).
                        Talvez
a perseguição contra Mr. Vingança fosse até reduzida caso se tratasse de um trabalho isolado, não inserido em um projeto maior, hipótese essa em que poderia ser mais festejado o apuro visual de um diretor hábil na construção de sequências esteticamente perfeitas, seja pela utilização precisa do som, seja pela capacidade de explorar a fotografia e, assim, captar beleza em paisagens nem sempre ricas – como no caso dos espertos enquadramentos produzidos na simples cena em que personagens sobem uma escada.
                       Contudo, como a produção há de ser necessariamente estudada em consonância com suas irmãs mais velhas, não há com deixar de concluir que este é, inconteste, o membro mais fraco da trilogia.
COTAÇÃO: ***
Ficha Técnica:
Título Original: Boksunen Naui Got
Direção: Park Chan-Wook
Roteiro: Lee Jae-Sun, Lee Mu-Yeong, Lee Yong-Jong e Park Chan-Wook
Produção: Lee Jae-Sun e Lim Jin-Gyu
Fotografia: Kim Byeong-Il
Elenco: Dae-yeon Lee (Choe) Se-dong Kim (Chefe de polícia) Seung-beom Ryu (garoto do rio)Ha-kyun Shin (Ryu)Kang-ho Song (Park Dong-jin)Du-na Bae (Cha Yeong-mi)Bo-bae Han (Yu-sun) Ji-Eun Lim (irmã de Ryu)
Direção de arte: Oh Sang-Man
Figurino: Shin Seung-Heui
Edição: Kim Sang-Beom
Duração: 129 min
Curiosidade: Após o cancelamento do remake de Oldboy, Mr. Vingança se tornou a bola da vez no que tange uma possível versão ocidental, afinal, os estúdios Warner adquiriram os direitos de refilmagem da obra e já escalaram o novato Brian Tucker para escrever o roteiro.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Freaks em Foco


Os chamados freaks, pessoas consideradas aberrações por conta de suas debilitadas constituições físicas e/ou mentais volta e meia¹ servem de argumento para produções cinematográficas. Neste sentido, duas obras, baseadas em fatos reais, destacam-se ao adotar tal temática, são elas: O Enigma de Kaspar Hauser (Alemanha, 1974) e O Homem Elefante (EUA /Reino Unido, 1980).
Não obstante a similitude dos sofrimentos vividos por tais figuras - ambos, por exemplo, passaram pela humilhação de serem expostos em circos de horrores - o elemento que tornara Kaspar Hauser e John Merrick repulsivos perante a sociedade acaba sendo o fator de diferenciação entre eles; afinal, o primeiro, apesar de não ser acometido de qualquer  deformidade estética, possuía o comportamento de um bicho, graças aos dezoitos anos de isolamento vividos em uma espécie de calabouço, ao passo que o segundo passara a ser chamado de homem elefante em virtude do aspecto monstruoso que seu corpo e principalmente seu rosto assumiram em função de uma grave e rara doença hoje diagnosticada como neurofibromatose múltipla.
De qualquer forma, muito embora ambos demonstrassem plenas capacidades de socialização, apresentando, neste passo, relevantes progressos em seus comportamentos perante aqueles que os rodeavam, haveria sempre quem os, pretensiosamente, lembrasse de que não passavam de aberrações, seres grotescos, o que acabaria por arraigar a desgraça em suas vidas e a tornar-lhes precoce a fatalidade reservada a todos.
No que tange a abordagem fílmica destes homens, enquanto Werner Herzog, diretor de Kaspar Hauser, elaborou um longa-metragem tão estranho quanto seu personagem título, David Lynch aproveitou para realizar um drama sensível ao contar a história de J. Merrick.
Kaspar Hauser, desta feita, é um exercício testemunhal no qual Herzog opta por deixar que os fatos falem por si mesmos, razão pela qual o cineasta se limita a tecer um olhar contemplativo – quase que sem música –, lançando mão do contraste entre a beleza das paisagens filmadas e a dramaticidade dos eventos que marcam a vida do protagonista.
Por sua vez, O Homem Elefante se vale de uma concepção visual clássica, no que se destacam a bela fotografia em preto-e-branco e a edição em fades. Dentro deste contexto, Lynch adota uma linearidade que, sem dúvida, representa em sua filmografia a via da exceção.
Abandonando, assim, as trucagens e simbologias complexas que em outros trabalhos desafiavam o raciocínio do espectador Lynch compreendeu que a história de seu protagonista dispensava tais artifícios, concentrando-se, portanto, na humanização daquele, o que é feito com tamanha honestidade que em momento algum se mostra como sinônimo de manipulação do público, destacando-se, ainda, neste diapasão, a colaboração de John Hurt que, mesmo escondido sob pesada maquiagem, entrega uma atuação tocante.
Por isso, O Homem Elefante logra êxito naquilo que falta a Kaspar Hauser: causar emoção, levando a platéia a sentir vergonha alheia pelo tratamento dispensado a J. Merrick, o que inevitavelmente acarreta uma bem-vinda releitura de conceitos particulares.
Se, entretanto, a intenção de Herzog não fora emocionar – talvez por receio de soar maniqueísta – mas apenas relatar, o objetivo, por certo, restou cumprido; o problema é que ao término do filme fica a sensação de que algo faltou a Kaspar Hauser. Sensibilidade? David Lynch com certeza diria que sim.
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1.    Ou, para ser mais preciso, desde 1932, ano de produção de Freaks, filme hoje considerado um clássico cult, mas que a época de lançamento fora considerado uma autêntica aberração por trazer um elenco composto por deficientes reais, o que acabou por custar a carreira do diretor Tod Browning.

COTAÇÕES:
O Enigma de Kaspar Hauser - ☼☼☼          
O Homem Elefante - ☼☼☼☼

Ficha Técnica - O Enigma de Kaspar Hauser
Título Original: Jeder für sich und Gott gegen alle
Direção e Roteiro: Werner Herzog
Elenco: Hans Musäus (Unknown Man)Franz Brumbach Wilhelm Bayer (Taunting Farmboy)Wolfgang Bauer Volker Prechtel (Hiltel the prison guard)Gloria Doer (Frau Hiltel)Marcus Weller Johannes Buzalski Helmut Döring (Little King)Walter Ladengast (Professor Daumer)Brigitte Mira (Kathe, Servant)Willy Semmelrogge (Circus director)Clemens Scheitz (Escrivão)Bruno Schlierstein (Kaspar Hauser)Michael Kroecher (Lord Stanhope)
Duração: 109 minutos

Ficha Técnica - O Homem Elefante
Título Original: Elephant Man, The
Direção: David Lynch
Roteiro: Christopher De Vore, David Lynch, Eric Bergren, Freddie Francis, Patricia Norris (Baseado em livro de Sir Frederick Treves e Ashley Montagu)
Elenco: Michael Elphick (Porteiro) Gerald Case (Lord Waddington)James Cormack (Pierce)Robert Lewis Bush (Robert Bush) Dexter Fletcher (Bytes's Boy)John Gielgud (Carr Gomm)William Morgan Sheppard (Morgan Sheppard)  Marcus Powell (Midget)Orla Pederson (Skeleton Man)Kenny Baker (Plumed Dwarf) Lesley Dunlop (Nora)Caroline Haigh (Tree)Carol Harrison (Carole Harrison)Beryl Hicks (Fairy)Wendy Hiller (Mothershead) Lydia Lisle (Merrick's Mother) Phoebe Nicholls (Merrick's Mother) Helen Ryan (Princess Alex)Lisa Scoble (Siamese Twin)Hannah Gordon (Mrs. Anne Treves) Gilda Cohen (Midget)Teresa Codling (Princess in Panto) Kathleen Byron (Lady Waddington)Anne Bancroft (Mrs. Kendal) Sir Frederick Treves (Alderman) John Standing (Dr. Fox)Nula Conwell (enfermeira Kathleen) Tony London (Young Porter)John Hurt (John Merrick)Freddie Jones (Bytes) Richard Hunter (Hodges)Anthony Hopkins (Dr. Frederick Treves)
Música: John Morris
Fotografia: Freddie Frances
Direção de Arte: Robert Cartwright
Figurino: Patricia Norris
Edição: Anne V. Coates
Estreia: 22 de Dezembro de 1980
Duração: 120 minutos
Curiosidades:
“O diretor Mel Brooks foi um dos produtores executivos de O Homem-Elefante, tendo sido o responsável pela contratação de David Lynch e pela decisão em filmar em preto e branco. Entretanto, para evitar que o público considerasse que o filme fosse um sátira pela simples presença de seu nome, Brooks pediu que não estivesse presente nos créditos do filme.
O diretor David Lynch chegou a tentar ele mesmo fazer a maquiagem do Homem-Elefante, mas desistiu após concluir que não conseguiria fazê-la de forma satisfatória.
A maquiagem do Homem-Elefante levava 12 horas para ser feita a cada vez que era aplicada em John Hurt” (Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Homem_Elefante).

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Encontro Explosivo


Nonsense

Não há como falar de Encontro Explosivo (EUA, 2010) sem adentrar no aspecto da polivalência de seu diretor James Mangold, dada a facilidade com que o mesmo transita entre gêneros diversos. Seja pela via do western, como é o caso do magnífico Os Indomáveis (3:10 to Yuma, 2007), seja seguindo a cartilha do drama policial em Copland (1997), o cineasta demonstra uma costumeira eficiência ratificada, desta vez, pela aventura de espionagem que fomenta este texto.
Apoiado em um arremedo de roteiro Mangold abraça sem qualquer pudor o entretenimento como objetivo principal, revelando, neste passo, inegável esmero quanto a composição de cenas deliciosamente absurdas – como não se via desde o já longínquo True Lies (James Cameron, 1994).
É no absurdo, aliás, que reside toda a graça de um filme no qual ninguém se leva a sério. Assim, no que tange seus protagonistas, Tom Cruise e Cameron Diaz sintonizam-se plenamente ao clima do longa-metragem; enquanto o ator concentra sua atuação na simpatia cínica de seu sorriso, a atriz reencontra o timing cômico perdido ao longo dos anos.
Neste sentido, a atriz deita e rola ao encarnar o tipo avoado e desastrado, de forma que sua ausência é sempre sentida quando a cena em tela não é sua.
Graças a um time tão a vontade na condução de um blockbuster, Encontro Explosivo até pode vir a render uma sequência; afinal, não é em torno de uma mirabolante história que o filme se estrutura, o que, nesse caso específico, não significa uma crítica negativa. Basta, portanto, se deixar levar e divertir-se por conta dos absurdos da obra.

COTAÇÃO - ☼☼☼☼         

Ficha Técnica
Título Original: Knight and Day
Direção: James Mangold
Elenco: Falk Hentschel (Bernhard)Tom Cruise (Roy Miller)Maggie Grace (April Havens)Peter Sarsgaard (Fitzgerald)Paul Dano (Simon Feck)Marc Blucas (Rodney)Lennie Loftin (Braces)Jordi Mollà (Antonio)Cameron Diaz (June Havens)Viola Davis (Director George)Olivier Martinez, Nicole Signore, Jerrell Lee (Paul)
Estreia: 16 de Julho de 2010
Duração: 109 minutos

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Bom Dia


A Ocidentalização do Japão Pós-II Guerra

Dois irmãos iniciam voto de silêncio após serem proibidos pelos pais de irem assistir TV na casa dos vizinhos.
Partindo de uma premissa relativamente simples, Yasujiro Ozu reimagina através de Bom Dia (Japão, 1959) sua obra Eu Nasci Mas... (Japão, 1932); porém, como de praxe em sua filmografia, a temática, a abordagem aparentemente simplória esconde em suas entrelinhas questionamentos certeiros sobre a família e a sociedade.
O diferencial deste longa-metragem reside na inversão dos panos de fundo, pois se em obras anteriores do cineasta a questão da ocidentalização do Japão pós-II Guerra servira de cenário para a discussão de dramas familiares, em Bom Dia o inverso acontece, afinal, se para a nova geração da época o televisor representava um sonho de consumo, pare seus antecessores tal meio de comunicação implicava uma ameaça a suas cômodas tradições, sendo visto, ainda, como instrumento de manipulação das massas.
Despreocupado em tecer maiores ponderações sobre tal perspectiva, Ozu prefere se centrar no choque entre gerações causado pelo referido bem de consumo, aproveitando o contexto para investigar os motivos da incomunicabilidade humana, por meio de personagens prontos a abrir a boca para tecer julgamentos equivocados sobre seus próximos, mas incapazes de comunicar seus mais puros sentimentos.
Desta feita, a frieza nipônica é desmistificada através das fofocas e intrigas disseminadas por um grupo de mulheres, mas, em seguida é ratificada na figura do casal incapaz de expor o afeto que um sente pelo outro, preferindo, em contrapartida, comunicar-se por meio de frases feitas sobre a beleza do dia ou acerca da chuva que pode vir a cair.
Como dito, os plots de Ozu podem parecer simples mas não são, o que também não é sinônimo de complexidade, eis que não são empurrados ao espectador pela via das trucagens artificiais, sendo, na verdade, sugeridos com sutileza durante o desenvolvimento de seus trabalhos.
Por fim, já que a técnica do diretor japonês sempre aguça análises, em Bom Dia a tradicional câmera fixada a um metro do chão ganha contornos mais relevantes por se agregar com perfeição ao ponto de vista dos ótimos atores mirins protagonistas do longa-metragem – o que, aliás, inspiraria Steven Spielberg, décadas depois, durante o processo de filmagem de E.T. – O Extraterrestre (1982).

COTAÇÃO - ☼☼☼       

Ficha Técnica
Título Original: Ohayô
Direção: Yasujiro Ozu
Elenco: Chishu Ryu (Keitaro Hayashi)Tsuusai Sugawara (Kyakutsuu-san)Teruko Nagaoka (Mrs. Tomizawa)Eiko Miyoshi (Grandma Haraguchi)Haruo Tanaka (Haraguchi)Akira Oizumi ( Akira Maruyama)Eijirô Tono (Tomizawa)Sadako Sawamura (Kayoko Fukui)Toyo Takahashi (Shige Okubo)Kyouko Izumi (Midori Maruyama)Haruko Sugimura (Kikue Haraguchi)Kuniko Miyake (Tamiko)Keiji Sada (Heichiro Fukui)Yoshiko Kuga (Setsuko Arita)Toshio Shimamura (Oden-ya no Teishu)
País de Origem: Japão
Estreia: 12 de Maio de 1959
 Duração: 93 min.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Os Famosos e os Duendes da Morte


Roupagem Indie

Os Famosos e os Duendes da Morte tem sido sintetizado como filme de temática adolescente, conclusão esta um tanto quanto equivocada, visto que os questionamentos por ele levantados podem até surgir em tal fase da vida mas não necessariamente nela se esgotam.
Neste sentido, a sensação de clausura em um ambiente que não corresponde às expectativas físicas e materiais do protagonista funciona como tema central de um enredo permeado por dilemas paralelos envolvendo assuntos como sexualidade, morte e separação.
Em seu longa-metragem de estréia Esmir Filho esbanja competência ao  adotar um tom poético, mas ao mesmo tempo sóbrio, que lhe permite lançar mão de um ritmo contemplativo, porém nunca estático, enfadonho, pretensioso.
Demonstrando pleno domínio da narrativa, o cineasta mescla de maneira invejável artifícios visuais que, embora não inéditos, se integram com perfeição ao clima pretendido para a obra.
Para tanto, a magistral fotografia se alia aos exemplares trabalhos de cenografia e montagem, conjunto esse que ganha ainda mais destaque por conta das interpretações sinceras de um elenco composto em sua plenitude por rostos até então desconhecidos.
Apesar de sua constante melancolia, Os Famosos... constitui um, hoje, raro exemplo de produção em que tudo é tão bem feito que ficamos na torcida para que seu término custe a chegar, tamanha a beleza – contida e jamais enjoativa – impressa em cada segundo de sua duração.
Talvez o único erro de Esmir Filho consista na utilização em excesso das canções de Bob Dylan, o que, na verdade, representa um pecado insignificante e extremamente compreensível, dado o presente inexpressivo e o futuro sem perspectivas de um personagem que prefere, como meio de fuga, voltar seu olhar para o passado, não obstante as inovações tecnológicas que o conectam para além das fronteiras de sua cidade natal.
O tempo dirá se a roupagem indie da obra consolidará uma tendência voltada a um nicho deveras específico ou se, em hipótese contrária, constituirá um exemplo isolado de excelência na recente produção cinematográfica nacional. Torçamos então.

COTAÇÃO - ☼☼☼☼☼             

Ficha Técnica
Direção e Roteiro: Esmir Filho
Elenco: Henrique Larré (Mr. Tambourine)Ismael Caneppele (Julian)Tuane Eggers (Garota)Samuel Reginatto (Diego)Áurea Baptista (Mãe)Adriana Seiffert (Mãe de Paulinho)
Estreia: 2 de Abril de 2010
Duração: 101 minutos
Curiosidade: A pessoa com quem o protagonista conversa pela Internet é o próprio diretor Esmir Filho, daí as iniciais E.F. que aparecem na tela.

domingo, 18 de julho de 2010

Brown Bunny

Oportunismo em Análise

Após perder sua grande paixão, Bud (Vincent Gallo) cruza as estradas dos Estados Unidos em busca de vestígios da mulher que ainda ama, bem como da liberdade perdida por conta deste sentimento que o aprisiona e que lhe faz descartar novos romances com exímia imediata.
A primeira vista, o enredo de Brown Bunny até aparenta ser imbuído de certo tom poético; porém, nas mãos de Vincent Gallo, revela-se como um fiapo de história que ao ser estendido para o formato de um longa-metragem resulta num tedioso exercício de pretensão cinematográfica, repleto de soluções fáceis e inverossímeis.
À exceção da inspirada metáfora que justifica o título da obra, as idéias do roteiro são manejadas com uma incômoda infantilidade por Gallo; afinal, em seu universo mulheres se entregam a ele, ou melhor, ao seu protagonista sem qualquer receio ou precaução, muito embora para elas tal homem não passe de um desconhecido – que, por sua vez, não precisa de nada além do que um muxoxo para fazer com que elas beijem-no, acariciem-no, acompanhem-no em sua viagem ou deixem-no adentrar em suas casas.
Diante tantas facilidades encontradas perante o sexo oposto não é de estranhar que a produção de Gallo culmine numa deslocada felação que, em virtude de sua explicitude, leva a crer que todo o filme fora produzido em torno da tal sequência.
Seria este, portanto, um típico exemplo de exibicionismo gratuito? Prefiro pensar na hipótese da sacanagem metida à besta, isto é, envernizada em tons melancólicos garantidores do rótulo “produto de arte”.
Neste diapasão, seria incoerente taxar como gratuita a supracitada cena, já que, como dito antes, todo o filme fora moldado em favor dela para, assim, receber a devida cota de polêmica fomentadora de sua entrada e apreciação em festivais e plateias cults.
É uma pena que Chloë Sevigny tenha sucumbido ao seu diretor, deixando-se expor, portanto, de maneira banal em uma obra vazia que não faz jus a tamanha entrega. Todavia, para não correr o risco de soar ingênuo, faz-se necessário lembrar que a filmografia da atriz é marcada por produções, essas sim, polêmicas, como são os casos de Kids (Larry Clark) e Meninos Não Choram (Boys Don't Cry, Kimberly Peirce) o que permite concluir que sua interpretação ou fora coerente com o rumo de seus trabalhos anteriores ou fora oportunista, tal qual este Brown Bunny.

COTAÇÃO - ☼☼          

Ficha Técnica
Título Original: Brown Bunny, The
Direção, Roteiro, Produção, Fotografia, Montagem e Direção de Arte: Vincent Gallo
Elenco: Vincent Gallo (Bud Clay) Anna Vareschi (Violet) Chloë Sevigny (Daisy)Cheryl Tiegs (Lilly)Mary Morasky (Mrs. Lemon)Elizabeth Blake (Rose)
Duração: 89 minutos