EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




terça-feira, 29 de junho de 2010

Pai e Filha


Jogo Amistoso

Preocupado com o futuro de sua filha única, pai viúvo arquiteta, com a colaboração da tia da moça, meios para casá-la e de assim desincumbi-la do dever de tomar conta dele pelo resto da vida.
Narrada dessa forma a trama de Pai e Filha pode parecer simplória, todavia, Yasujiro Ozu exercita suas temáticas e técnicas de filmagem para, aos poucos, desnudar os subtextos e dilemas familiares sugeridos pelo roteiro; afinal, qual o direito que um pai tem de afastar de si um filho em prol da felicidade deste último? E se a alegria do filho residir justamente na convivência e na proximidade para com os pais? Até que ponto é justo um filho abdicar de um futuro em razão do dever de cuidado perante os pais?
Em busca de tais respostas o cineasta japonês não se furta a impregnar de melancolia sua obra, permitindo-se até utilizar certa dose de excesso no que atine seu olhar contemplativo. Tais desajustes, entretanto, aparentam ter, na verdade, um caráter experimental que os impedem de ser caracterizados como meros atos falhos, visto que o longa-metragem, inevitavelmente, parece ser um grande treino para aquela que viria ser a obra máxima de Ozu: Era Uma Vez em Tóquio.
É claro que a delicadeza de Pai e Filha já lhe agrega considerável valor, mas, ainda assim, fica a sensação de que tanto os dramas familiares quanto o próprio desempenho do trio de protagonistas seriam mais bem explorados no segundo filme citado. De qualquer modo, não resta dúvida de que Ozu realizou um belo jogo amistoso.

COTAÇÃO - ☼☼☼
Ficha Técnica
Título Original: Banshun
Direção:Yasujiro Ozu
Elenco: Chishu Ryu (Shukichi Somiya)Toyoko Takahashi (Shige)Yôko Katsuragi (Misako)Yoshiko Tsubouchi (Kiku)Masao Mishima (Jo Onodera)Kuniko Miyake (Akiko Miwa)Jun Usami (Shuichi Hattori)Hohi Aoki (Katsuyoshi)Haruko Sugimura (Masa Taguchi)Yumeji Tsukioka (Aya Kitagawa)Setsuko Hara (Noriko Somiya)Jun Tanizaki (Seizo Hayashi)
Duração: 108 minutos
Estreia: 1948
Curiosidade: Pai e Filha fora refilmado pelo próprio Yasujiro Ozu em 1962 sob o título A Rotina Tem Seu Encanto (Sanma No Aji), sendo que o papel do pai fora novamente interpretado por Chishu Ryu, ator preferido do cineasta.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Diversificação



É fato que a partir do Cinema Novo a produção cinematográfica brasileira passou a ter uma temática predominante, qual seja as agruras sertanistas. Com o novo milênio a estética da fome teve seu cenário alternado para as favelas e morros, passando a violência a assumir cores mais vivas e expressivas.
Longe de tentar afirmar que obras envolvendo os temas supracitados sejam de inferior qualidade – até porque na maioria das vezes a regra é justamente o contrário -, o que  se defende é a diversificação de enredos e de gêneros como convite a um número maior de público e como meio de solidificação da indústria.
Nos últimos anos, é claro, muitos exemplos, nesse sentido, surgiram, como é o caso de Pequeno Dicionário Amoroso, Chico Xavier e da franquia E Se Eu Fosse Você.
Dentro deste contexto, o segundo exemplo talvez não seja um excelente parâmetro por ser construído para uma platéia específica garantidora de retorno financeiro à produção.
O terceiro exemplo, por sua vez, configura o momento em que o cinema brasileiro e o público selam de vez as pazes - dado o imenso sucesso comercial da franquia – mas também marca o retorno de uma antiga discussão travada pela crítica especializada desde a época das chanchadas, qual seja o fato a predileção das grandes massas por produtos de discutível ou nenhuma qualidade.
Já o primeiro exemplo representa uma comédia romântica, dirigida por Sandra Weneck, que foge das temáticas nacionais preestabelecidas, assumindo, portanto, uma postura universal que permite à obra ser apreciada por qualquer espectador independentemente da origem geográfica do material.
Neste diapasão, Jorge Furtado é outro cineasta cuja filmografia é calcada em roteiros pouco convencionais, com tramas que dispensam uma necessária representatividade nacional.
Seu curta-metragem Ilha das Flores pode até tratar de um pedaço de chão brasileiro, porém, os problemas do local, além de não serem exclusividades tupiniquins, são mostrados com tamanho sarcasmo e ironia que a tradicional estética da fome resta rompida, de forma que o distante olhar da dor e do sofrimento acaba cedendo lugar a um riso nervoso imbuído em mea culpa, o que, por certo, fomenta no espectador um grau maior de reflexão.
Veja-se o caso, por exemplo, de Saneamento Básico – O Filme: lançando mão de um argumento altamente inovador, o longa injeta frescor tanto sobre a metalinguagem quanto sobre a abordagem de problemas sociais. Assim, estão no filme, por exemplo, a atriz chinfrim que não se furta a estrelismos, bem como diálogos afirmando que ficção é coisa que não existe, tal como monstro, fantasma e futuro.
Genial em sua concepção, o filme discorre, entre tantas coisas, sobre o uso do dinheiro público e a prevalência de suas destinações, mas o faz com tal leveza que conquista qualquer um com facilidade, demonstrando, portanto, que criatividade e talento são alternativas que se bastam no processo de afastamento das fórmulas que insistem em caracterizar a produção nacional.
Desta feita, os trabalhos de Jorge Furtado, que de escapistas nada tem, deixam suas cutucadas nas entrelinhas, sendo, assim, diversões inteligentes defendidas por artistas da novela das oito; afinal, ainda que intelectualizado o produto, estamos falando de uma indústria.

COTAÇÕES:
Pequeno Dicionário Amoroso - ☼☼☼
Ilha das Flores - ☼☼☼☼  
Saneamento Básico – O Filme - ☼☼☼☼

Ficha Técnica - Pequeno Dicionário Amoroso
Direção: Sandra Werneck
Duração: 91 minutos

Ficha Técnica - Ilha das Flores
Direção e Roteiro: Jorge Furtado
Direção de Arte: Fiapo Barth
Trilha original: Geraldo Flach
Narração: Paulo José
Estreia: 1989
Duração: 23 minutos
Principais Prêmios: Prêmio da Crítica no Festival de Gramado 1989; Urso de Prata para curta-metragem no 40° Festival de Berlim em 1990; Prêmio Especial do Júri e Melhor Filme do Júri Popular no 3° Festival de Clermont-Ferrand na França em 1991; "Blue Ribbon Award" no American Film and Video Festival em Nova Iorque em 1991; Melhor Filme no 7º No-Budget Kurzfilmfestival em Hamburgo, Alemanha em 1991.

Ficha Técnica - Saneamento Básico
Direção e Roteiro: Jorge Furtado
Estreia: 2007
Duração: 112 minutos

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Educação/A Primeira Noite de um Homem


        A Transgressão Através de Prismas Opostos

                  Em Educação (Reino Unido, 2009) Jenny (Carey Mulligan) é uma adolescente entediada com a monotonia de seus dias e relutante quanto ao planejamento do futuro universitário arquitetado por seus pais. Mais interessada em cultura francesa do que em aulas de latim, a garota vê seu mundinho se expandir ao conhecer David (Peter Sarsgaard) que, com o dobro da idade de Jenny, proporciona a esta prazeres mundanos, culturais e sexuais.
Ainda que o roteiro de Nick Hornby, autor de Alta Fidelidade, disseque com maestria as personalidades e nuances de cada personagem, a direção de Lone Scherfig peca por sua linearidade, seu tradicionalismo, não ousando, assim, se inspirar na transgressão e na rebeldia da protagonista ou até, quem sabe, na Nouvelle Vague que reinava na França dos anos 60 tão idolatrada por Jenny.
Neste sentido, todo o enfrentamento da menina perante moralismo de seus pais, professores e sociedade cai por terra por conta de um final deveras simplório que leva a crer que, de fato, o mundo é dividido entre o certo e o errado, sendo o primeiro ocupado pela indulgência aos valores e deveres instituídos pelos doutores do saber e o segundo caracterizado pela revolta àquilo que nos estipulam a ser e a fazer.
Apesar de ser uma espécie de versão feminina, mas não feminista, de A Primeira Noite de um Homem (EUA, 1967), é curioso como Educação, mesmo em tempos cínicos como o das duas últimas décadas - nas quais valores foram revirados de ponta a cabeça -, consiga ser tão moralista, o que, há de se convir, é algo que sua versão masculina jamais demonstra ser, seja em sua introdução, em seu desenvolvimento e/ou em seu término.
Sim, os tempos eram outros. Na ocasião da realização de The Graduate – há mais de quatro décadas – a revolução sexual, a contracultura e a indignação contra o sistema político belicista eram realidades que tornavam os jovens mais instruídos e menos voluntariosos para com os planos de seus pais, por exemplo.
Por isso, A Primeira Noite de um Homem é festejado pela fidelidade com que registrou aspectos comportamentais deste período histórico. No filme, além de ultrapassados, os valores são pretensamente passados por adultos com condutas que também não inspiram muita confiança, o que, se num primeiro momento atordoa a mente de Benjamin Braddock, personagem de Dustin Hoffman, por outro lado lhe confere, em seguida, a certeza quanto ao rumo alternativo, diverso a ser dado para sua vida.
Desta feita - não obstante a presença de inegáveis qualidades técnicas no que tange fotografia, direção de arte e figurinos -, é justamente a coerência para com a retratação comportamental da época que falta à Educação e que, infelizmente, se firma como principal referência da obra.

COTAÇÕES:
Educação - ۞۞۞
A Primeira Noite de um Homem - ۞۞۞۞۞

Ficha Técnica - Educação
Título Original: An Education
Direção: Lone Scherfig                         Roteiro: Nick Hornby
Elenco: Alfred Molina (Jack)Amanda Fairbank-Hynes (Hattie)Matthew Beard (Graham)Olivia Williams (Miss Stubbs)Peter Sarsgaard (David)Carey Mulligan (Jenny)Emma Thompson (Diretora da Escola)Rosamund Pike (Helen)Dominic Cooper (Danny)Cara Seymour (Marjorie)Sally Hawkins (Sarah)
Estreia: 30 de Outubro de 2009           Duração: 95 minutos

Ficha Técnica - A Primeira Noite de um Homem
Título Original: The Graduate
Direção: Mike Nichols                          Roteiro: Buck Henry, Calder Willingham
Elenco: Alice Ghostley (Mrs. Singleman)Dustin Hoffman (Benjamin Braddock)Marion Lorne (Miss DeWitte)Elizabeth Wilson (Mrs. Braddock)Katharine Ross (Elaine Robinson)Brian Avery (Carl Smith)Walter Brooke (Mr. McGuire)Murray Hamilton (Mr. Robinson)William Daniels (Mr. Braddock)Anne Bancroft (Mrs. Robinson)Jonathan Hole (Mr. Singleman)Norman Fell (Mr. McCleery)
Estreia: 22 de Dezembro de 1967       Duração: 105 minutos

terça-feira, 22 de junho de 2010

Vergonha


A Sobrevivência e Suas Exigências

Em poucos anos essa menina vai ser uma mulher que pede muito pouco da vida, que nunca incomoda ninguém, nunca deixa transparecer que ela também tem tristezas, desapontamentos, sonhos que foram menosprezados. Uma mulher que vai ser como uma rocha no leito de um rio, suportando tudo sem se queixar. Uma mulher cuja generosidade, longe de ser contaminada, foi forjada pelas turbulências que se abateram sobre ela. (...) algo tão arraigado que (...) nem os talibãs conseguiram destruir. Algo tão rijo e inabalável quanto um bloco de calcário. Algo que, afinal, acabou sendo a sua ruína”.
Em A Cidade do Sol Khaled Hosseini, mundialmente conhecido por seu romance de estréia O Caçador de Pipas, narra a história de mulheres cujas vidas foram devastadas pela guerra que assola o Afeganistão desde a invasão soviética, há cerca de três décadas.
Abandonadas à própria sorte, tais figuras são obrigadas a reescrever seus destinos para, desse modo, sobreviverem dia após dia. Se por um lado suas dores e humilhações lhes ajudam a se rebelar quando da iminência da morte, por outro ângulo tais reveses não constituem elementos hábeis a corromper suas naturezas, o que para uns há de ser encarado como mera resignação, enquanto para outros pode ser visto como perseverança quanto ao simples desejo de viver - ainda que isso não implique necessariamente em otimismo quanto ao dia de amanhã.
Tal narrativa faz pensar em Vergonha (Suécia, 1968) de Ingmar Bergman, pois a partir de um fio condutor semelhante, qual seja o poder de devastação da guerra sobre o homem e suas relações sociais, o cineasta explora uma realidade mais ordinária, centrando seu foco justamente nas transformações da personalidade perante situações limite.
Neste passo, Eva (Liv Ullmann) representa a fortaleza, a mulher de opiniões e posturas racionalmente delineadas, ao passo que Jan (Max Von Sydow) é o companheiro frágil, cuja escolha pelo escapismo, no que tange a aproximação da guerra, concede-lhe ares, por vezes, patéticos.
Mas, eis que a guerra lhes bate à porta – literalmente – para, em seguida, preencher espaços antes ocupados pela própria relação amorosa do casal. Assim, aos poucos ambos vão esquecendo o sentimento que compartilhavam para, lentamente, se tornarem meros parceiros de sobrevivência.
Dentro deste contexto, para ela tal transição é imbuída de uma fraqueza e de uma fragilidade que antes lhes eram desconhecidas, enquanto nele a barbárie desperta instintos, sobretudo de violência, que lhe levam a abdicar de qualquer vergonha, convenção ou sensibilidade em favor da selvageria que o ato de sobreviver passa a exigir.
Para construir tal enredo Bergman se vale da primorosa fotografia em preto e branco de Sven Nykvist, marcada aqui pela capacidade de ora arremessar a platéia para dentro da trama, o que ocorre por meio de belíssimos closes, e de ora reposicionar o público na sua função observadora/analítica através de diálogos filmados com total ausência de contra planos.
Destarte, de nada valeriam tais recursos sem a presença de Liv Ullmann e Max Von Sydow que brilham em papeis ricos e, por isso, extremamente difíceis. A atriz expressa todo o inconformismo inicial e o desespero final de sua personagem tão somente com a força de seu olhar; nele se materializam transições e se transformam sentimentos, ao passo que o ator utiliza seu porte, sua estatura primeiro para indicar a insegurança de seu protagonista e em seguida para revelar a brutalidade que no homem eclode.
Vergonha, desta feita, é trabalho de time grande que sabe o que faz. É filme no qual todos os elementos são eficientes e dignos de aplauso. Aplaudamos, então.

Ficha Técnica
Título Original: Skammen
Direção e Roteiro: Ingmar Bergman
Produção: Lars-Owe Carlberg
Fotografia: Sven Nykvist
Elenco: Liv Ullmann (Eva), Max Von Sydow (Jan), Sigge Fürst (Filip)Gunnar Björnstrand (Jacobi)Birgitta Valberg (Mrs. Jacobi)Hans Alfredson (Lobelius)
 Duração: 103 min.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Esquadrão Classe A



Vale o Ingresso

Para felicidade de seus fãs, Esquadrão Classe A recebeu tratamento extremamente respeitoso por parte da equipe de produção responsável por sua versão 2010.
Neste sentido, Joe Carnahan, diretor do cultuado Narc, fora escalado para comandar tal empreitada, o que, por certo, configurou o maior acerto do longa-metragem, pois, em razão de também haver trabalhado na elaboração do roteiro, o cineasta se permitiu não só modernizar o aspecto técnico-visual das aventuras do quarteto de mercenários – para também torná-las atraentes aos espectadores mais novos que não viveram os anos 80, década de lançamento da série televisiva original – como também manter o controle da história a ser contada.
Desta feita, por mais mirabolantes que sejam as cenas de explosões e tiroteios – que bem poderiam ter sido editadas de forma menos frenética para facilitar a compreensão do que é projetado – e mesmo que furos do roteiro volta e meia insistam em surgir na tela, ainda assim a trama não é deixada em segundo plano, de forma que após cada nova correria o diretor volta a centrar o foco na relação de amizade e companheirismo dos integrantes do A-Team.
Dentro deste contexto, Carnahan revela inusitado tino cômico ao dosar medidas certas de ação e comédia, bem como ao extrair do elenco interpretações despojadas que passam longe da canastrice e/ou do caricato.
Simpatia, aliás, é o que esbanja o casting, principalmente Liam Neeson que, como de costume, se destaca graças a elegância de seus métodos, o que, é claro, não deixa de ser curioso, já que sua participação neste blockbuster engrena em sua filmografia uma fase diferente composta por aventuras escapistas – vide Busca Implacável e Fúria de Titãs – nas quais o ator sempre aparenta ser quem mais se diverte no set.
Preconceitos à parte, Esquadrão Classe A é filme-pipoca feito para aproveitar as férias escolares? Sim! Vai mudar o cinema em alguma coisa? De jeito nenhum. Representa mais um filme descerebrado? Até que nem tanto. É divertido? Demais! Vale o ingresso? Com certeza!!!

COTAÇÃO - ☼☼☼         

Ficha Técnica
Título Original: The A-Team
Direção: Joe Carnahan
Elenco: Bradley Cooper (Templeton "Cara de Pau" Peck) Omari Hardwick (Chopshop Jay)Terry Chen (Ravech)Maury Sterling (Gammons)Brian Bloom (Brock Pike)Yul Vazquez (General Javier Tuco)Henry Czerny (Director McCready)Gerald McRaney (General Morrison)Liam Neeson (John "Hannibal" Smith)Patrick Wilson (Lynch)Jessica Biel (Charisa Sosa)Quinton 'Rampage' Jackson (B.A. Baracus)Sharlto Copley (Capitão Murdock)
País de Origem: Estados Unidos da América
Estreia: 11 de Junho de 2010

domingo, 13 de junho de 2010

Era Uma Vez em Tóquio

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Minimalismo de Fachada

Se, por um lado, o modo de filmar de Yasujiro Ozu ficara consagrado - em considerável fração de sua filmografia e principalmente no exemplo de Era Uma Vez em Tóquio (Japão, 1953) – por um rigoroso minimalismo, em contrapartida tal característica jamais pode ser entendida como inferioridade quanto a qualidade de sua obra.
A aparente simplicidade da técnica de Ozu posiciona a câmera a um metro de distância do chão na maioria das cenas da obra em comento, captando, assim, de forma estática, diálogos densos entremeados por cortes secos. Com isso, o cineasta cumpre com louvor dois objetivos, quais sejam os de:
1.    Valer-se de interpretações pouco corpóreas, centradas, na verdade, nos olhares dos atores, o que, além de coadunar com uma proposta estética, confere, ainda, sensibilidade e dignidade à abordagem de temas cotidianos, embora complexos.
2.    Direcionar a atenção da platéia para o enredo que se desdobra na tela e para a subjetividade das leituras permitidas; afinal, a história do casal de anciãos que faz uma última viagem para rever os filhos – muito embora seja contada com sobriedade suficiente para desviar-se de julgamentos banais sobre os personagens – não permite que o espectador saia incólume da experiência que Era Uma Vez em Tóquio representa, visto que os dramas familiares narrados se revelam como temáticas universais passíveis de ocorrer em qualquer lar, daí ser compreensível a angústia sentida por quem assiste ao filme.
O longa-metragem, neste sentido, trata de falhas dos mais novos talvez fomentadas por erros passados dos mais velhos. Ozu não pretende fixar tais limites, mas sim demonstrar o quão egoístas somos, bem como o quão pouco somos empenhados para com nossos papeis de pais e/ou de filhos.
Longe de qualquer otimismo ilusório, o cineasta não visualiza qualquer mudança de panorama, já que, conforme sua visão, o inconformismo juvenil perante o comportamento de seus antecessores cedo ou tarde é vencido por decepções trazidas pela vida, ocasião em que a resignação, imbuída de frustração, toma o lugar do primeiro, fazendo, desse modo, com que aceitemos, condescendentes, nossas reais naturezas.

COTAÇÃO - ☼☼☼☼☼             

Ficha Técnica
Título Original: Tokyo Monogatari
Direção: Yasujiro Ozu
Roteiro: Kôgo Noda, Yasujiro Ozu
Elenco: Chishu Ryu (Shukishi Hirayama)Toyoko Takahashi (vizinha) Teruko Nagaoka (Yone Hattori)Hisao Toake (Osamu Hattori)Shirô Osaka (Keiso Hirayama)Kyôko Kagawa (Kyoko Hirayama)Eijirô Tono (Sanpei Numata)Nobuo Nakamura (Kurazo Kaneko)Kuniko Miyake (Fumiko Hirayama)Sô Yamamura (Koichi Hirayama)Haruko Sugimura (Shige Kaneko)Setsuko Hara (Noriko Hirayama)Chieko Higashiyama (Tomi Hirayama)
Duração: 136 minutos
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Grande Cena:
“- A vida não é decepcionante?
  - Sim”.
Curiosidade: “Steven Spielberg pegou emprestado um recurso de Ozu para rodar o seu clássico E.T. – O Extraterrestre (1982). O longa é filmado com câmera baixa, para outros propósitos: traduzir na tela o ponto de vista da criança”. Fonte: Bravo! 100 Filmes Essenciais. 3ª Ed. São Paulo: Abril, 2009. p. 40.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

A Tortura do Medo

Mudança de Pólos

Em Peeping Tom (Inglaterra, 1960) Londres serve novamente de cenário para assassinatos em série cometidos ao modo de Jack, o estripador. O diferencial, dessa vez, consiste no maquinário utilizado para consagrar a crueldade do criminoso. Munido de uma câmera de vídeo, Mark Lewis (Karlheinz Bohm) filma não só as mortes das mulheres que ataca como também os instantes anteriores aos crimes, captando, assim, o semblante de terror gerado pelo prenúncio fúnebre de seus destinos.
Neste passo, não satisfeito com tais imagens, o homicida registra, ainda, o trabalho de investigação da polícia nos locais em que são encontrados os cadáveres das vítimas concluindo, desta feita, os “documentários” que satisfazem sua lascívia no conforto do lar.
Retumbante fracasso de público e crítica à época de seu lançamento, A Tortura do Medo custou a carreira de seu diretor Michael Powell, o que talvez possa ser explicado pela incômoda inversão de papeis praticada no filme, posto que o voyeurismo compartilhado pela audiência sai do pólo passivo da mera observação para assumir a posição ativa da ação, pois, como outrora sugerido, não bastava ao protagonista da obra assistir, mas também torturar pelo olhar e, com isso, invadir os últimos instantes de intimidade de seus alvos.
Dentro deste contexto, o longa-metragem traz em seu bojo um manancial de inspirações fílmicas, no que se destaca o cinema de Alfred Hitchcock seja pela extrapolação de uma temática igualmente abordada em Janela Indiscreta (Rear Window, 1954), seja pela perturbação psicológica de um personagem principal que em muito lembra o Norman Bates de Psicose (cuja estréia ocorrera no mesmo ano da obra em comento).
No que tange seu legado, Peeping Tom exerceu influência em produções contemporâneas, como, por exemplo, Crash de David Cronemberg, isso porque sua retratação da apreciação pelo grotesco – o psicopata fotografa com imenso fascínio uma mulher cuja deformidade no rosto quase configura um lábio leporino – embala cada cena de sexo do segundo filme – cujos cenários, frise-se, são os interiores de automóveis colididos propositalmente, ao passo que os personagens são parceiros sexuais ensangüentados e por vezes mutilados.
Por outro viés, a herança do título em comento pode ser visualizada ainda hoje naquilo que diz respeito a sua linguagem cinematográfica, isso porque o recurso da fusão entre os raios de visão do espectador e da câmera manipulada por um membro da história seria redescoberto na última década em trabalhos comerciais como REC e Cloverfield os quais, em virtude de aplicarem tal idéia ao longo de todas as suas cenas, instituíram, assim, o subgênero dos chamados “falsos-documentários”.
Não fossem o bastante suas inspirações e influências, o trabalho de Michael Powell revelou-se, também, imbuído de ares proféticos ao prever uma degradante tendência criminosa que se consolidaria com o passar dos anos, qual seja a produção dos “snuff movies” - filmes caseiros, para venda no mercado negro, recheados de imagens reais de assassinatos – realidade essa já encenada em produções como 8MM e Testemunha Muda.
Apesar de haver sofrido os efeitos do tempo quanto a força de sua imagem, o enredo de A Tortura do Medo permanece fomentando variadas leituras e análises sobre as conseqüências do medo no comportamento humano seja quanto a ótica passiva das conseqüências causadas pelo pânico, seja no que atine o prisma ativo de quem utiliza o temor  como instrumento de dominação e de satisfação pessoal.
Isso, aliás, lembra Bush e sua política do medo; teriam seus assessores assistido Peeping Tom?

COTAÇÃO: ****

Ficha Técnica
Título Original: Peeping Tom
Direção e Produção: Michael Powell
Roteiro: Lee Marks
Fotografia: Otto Heller
Elenco: Karlheinz Bohm, Moira Sheares, Anna Massey, Maxine Audley, Brenda Bruce, Miles Malleson, Michael Powell
Duração: 104 minutos
Curiosidades:
O pai de Mark Lewis é interpretado pelo próprio diretor do filme, Michael Powell.
Quando estreou na Inglaterra Peeping Tom foi imediatamente rejeitado pelo público, sendo, ainda, objeto de severas condenações da crítica especializada. Neste sentido, as reações contra a obra foram tão hostis que sua distribuidora preferiu retirar o filme das salas de projeção ao término de apenas uma semana de exibição.
Após este revés Michael Powell conseguiu realizar apenas mais três filmes durante os trinta anos que se seguiram até sua morte, em fevereiro de 1990.
Peeping Tom permaneceu esquecido até 1979, quando Martin Scorsese, após descobrir uma cópia original da produção no New York Film Festival, promoveu o restauro da película e a sua divulgação em sessões para cinéfilos.