EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quarta-feira, 26 de maio de 2010

Clamor do Sexo / Um Lugar ao Sol


Opressão Sexual e Desigualdade de Classes

                        Prevendo a revolução sexual que não tardaria a ocorrer, Clamor do Sexo é a retratação definitiva do desejo reprimido. Num filme em que hormônios e feromônios saltam da tela, Bud Stamper (Warren Beaty) e Deannie Loomis (Natalie Wood) formam um casal adolescente cuja sexualidade é duramente oprimida pelo meio em que vivem, qual seja o estado do Kansas no ano de 1928.
O pai do garoto não compreende tamanho fascínio de seu filho pela namorada, daí não exitar em mudá-lo de cidade para que o mesmo curse universidade e se torne, assim, gente grande cuja lascívia pode ser aplacada por profissionais do ramo.
A mãe da garota, por sua vez, pouco se importa com o grau de afetividade nutrido por sua filha para com o namorado, eis que, na verdade, sua grande preocupação consiste em zelar pela virgindade da moça para que, assim, esta não se torne pessoa indigna a contrair matrimônio com o bom partido que Bud representa.
Por outro lado, a irmã de Bud acabara de retornar da cidade grande para cumprir exílio no Kansas por conta de condutas moralmente deploráveis para o momento. Sua presença, neste sentido, exala rebeldia e tensão sexual, o que não deixa de abalar ainda mais os nervos de seu irmão que, por sua vez, não consegue admitir a idéia de sentir tanto amor mas também tanto desejo por sua amada Deannie que, em cumprimento  as orientações de sua genitora, trata de se esquivar o mais rapidamente de qualquer toque mais ousado do rapaz - muito embora também tenha o sexo clamando dentro de s.
Desta feita, cada membro do casal, a seu modo particular, enlouquece com a falta de contato físico e com a posterior separação que urge por ocorrer. Ele se torna um vadio, ela uma depressiva que não pensa duas vezes antes de tentar o suicídio.
O puritanismo e a opressão impostas pela igreja, pela sociedade e, principalmente, por seus pais se voltam contra estes últimos que vêem, então, a infelicidade de seus filhos sem que consigam, em contrapartida, tomar qualquer atitude para a mudança do panorama.
Neste diapasão, a crise das bolsas de valores de Nova Iorque em 1929 eclode no momento em que Bud e Deannie reiniciam suas próprias caminhadas, daí o cenário desolado e abandonado que servirá de cenário para o último e mais infeliz encontro do casal – numa das despedidas mais dramáticas que o cinema já produziu.
Brilhante na construção de sua narrativa, Elia Kazan extrai da força de interpretações baseadas no método do Actors Studio a naturalidade e a sensibilidade propostas pelo enredo, valendo, por isso, destacar a segurança de Warren Beatty em sua estreia, bem como a leveza do trabalho de Natalie Wood.
Isto posto, o cineasta realiza profunda análise sobre sentimentos oprimidos sem nunca se esquecer da ambientação ecônomico-social da história, qual seja a desigualdade social de classes que logo se igualariam graças a crise econômica que assolaria a América.
Abordando semelhante temática, mas invertendo os pólos de predominância, Um Lugar ao Sol utiliza a sexualidade repreendida para, assim, enfatizar as diferenças de classes sociais.
Neste caso, portanto, é o desejo proibido que serve de moldura, isso porque George Eastman, personagem de Montgomery Clift, representa o primo pobre de sua abastada família, razão pela qual assume um emprego de baixo calibre nos galpões de empacotamento da fábrica de seus parentes, local onde não exita em burlar as regras da empresa para, assim, iniciar um flerte com uma das funcionárias (Shelley Winters).
A referida empregada, apesar de seus louváveis esforços, não consegue resistir aos encantos do rapaz e acaba, então, cedendo-lhe uma noite de amor. Apaixonada, Alice vê o interesse de George por ela diminuir à medida que este é aos poucos absorvido pelo universo de riqueza de seus familiares.
Deslumbrado com esse mundo novo, o rapaz logo conhece Angela Vickers (Elizabeth Taylor) por quem se enamora e por quem, para sua surpresa, passa a ser amado. Neste passo, inebriada com a beleza e com a personalidade complexa de seu novo namorado, Angela não tarda em revelar sua intenção casamenteira para George que extasiado com a larga proporção de coisas boas surgindo em sua vida – vide a promoção em seu emprego e a reciprocidade do amor da mulher mais linda e rica da cidade – vê subitamente sua felicidade ruir ao receber o anúncio da gravidez de Alice.
Logo, a única noite de transgressão perante as convenções sexuais da sociedade passa a ser o seu calvário face as iminentes ameaças de Alice em tornar pública sua prenhez.
Imbuído, então, de intenções assassinas, George leva a grávida para um passeio de barco cujo fim seria o afogamento de Alice não fosse a falta de coragem do protagonista. Todavia, ainda que não consiga praticar o crime de forma ativa, o rapaz não consegue evitar que Alice num momento de desespero fomentado por uma discussão escorregue e caia na água.
Como a morte acidental da moça lhe era cômoda, George omite qualquer socorro, o que não impedirá, entretanto, a aplicação contra ela da pena capital. Dentro deste contexto, sua família trata de garantir que o julgamento resulte na mais breve extirpação do membro pobre e marginal, como forma de não só garantir a integridade do clã como também de evitar o conhecimento da imprensa acerca do envolvimento amoroso do assassino com a menina rica, o que, inegavelmente, seria deveras constrangedor.
Valendo-se de uma fluidez dramática, capaz de fazer inveja a qualquer diretor, George Stevens leva o espectador a um passeio pela vida de George Stevens, personagem este cujo carisma de seu intérprete impede que o mesmo seja objeto de simplórias definições como bandido ou mocinho, graças ao misto de ingenuidade e de malícia que lhe é aplicado, o que deixa a audiência na corda bamba quanto a opção de torcer ou não por ele, o que, sem dúvida, é um trunfo presente em poucos filmes.

COTAÇÕES:
Clamor do Sexo - ☼☼☼☼☼             
Um Lugar ao Sol - ☼☼☼☼☼

Ficha Técnica - Clamor do Sexo
Título Original: Splendor in the Grass
Direção:Elia Kazan
Roteiro:William Inge
Elenco: Barbara Loden (Ginny Stamper)Warren Beatty (Bud Stamper)Pat Hingle (Ace Stamper)Audrey Christie (Mrs. Loomis)Natalie Wood (Wilma Dean 'Deanie' Loomis)Crystal Field (Hazel)Sandy Dennis (Kay)Gary Lockwood (Toots)Martine Bartlett (Miss Metcalf)Jan Norris (Juanita Howard)John McGovern (Doc Smiley)Joanna Roos (Mrs. Stamper)Fred Stewart (Del Loomis)Zohra Lampert (Angelina)Marla Adams (June)
Ano: 1961
Duração: 124 minutos

Curiosidades: Dennis Hopper foi considerado para o papel de Bud Stamper.


Ficha Técnica – Um Lugar ao Sol

Título Original: A Place in the Sun
Direção e Produção: George Stevens
Elenco: Ted de Corsia (Judge R.S. Oldendorff)Charles Dayton (Det. Kelly)Mike Mahoney (Motorcycle officer),Walter Sande (Art Jansen, George's Attorney)John Ridgely (Coroner),Sonny HoweJames Horne Jr. (Tom Tipton)Herbert Heyes (Charles Eastman),Paul Frees (Rev. Morrison, priest at prison)John M. Reed (Joe Parker),William B. Murphy (Mr. Whiting),Kathryn Givney (Louise Eastman),Montgomery Clift (George Eastman)Pat Combs,Marilyn Dialon (Frances Brand),Shepperd Strudwick (Anthony 'Tony' Vickers),Ian Wolfe (Dr. Wyeland),Raymond Burr (Dist. Atty. R. Frank Marlowe),Anne Revere (Hannah Eastman)Kasey Rogers (Miss Harper)Elizabeth Taylor (Angela Vickers),Shelley Winters (Alice Tripp),Pearl Miller (Miss Newton),Frieda Inescort (Mrs. Ann Vickers)
Ano: 1951
Duração: 122 minutos

Curiosidades:

Ao assistir ao filme, assim se manifestou Charles Chaplin: "É o melhor filme que assisti na vida. Registra a supremacia do cinema sobre todas as outras formas de arte". Chaplin também enviou uma carta para Montgomery Clift, manifestando a este sua admiração pelo brilhante desempenho. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Um_Lugar_ao_Sol_%28filme%29.
O filme foi vencedor de 6 Oscar, incluindo Melhor Diretor, Edição e Roteiro, sendo nomeado, ainda, nas categorias de melhor filme, melhor ator (Montgomery Clift) e melhor atriz (Shelley Winters).

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Lunar


Uma Questão de Escolha

Sam Bell trabalha há quase três anos em plena superfície lunar. Fincado no lado não iluminado pelo sol, o astronauta realiza a coleta de minérios que se tornaram fonte de energia aos demais terráqueos.
Por conta desse peculiar ofício, Sam não goza da companhia de mais ninguém, a não ser a do computador Gerty que, graças aos milagres da inteligência artificial, é o único “ser” capaz de trocar palavras em tempo real com o humano.
Esgotado pela rotina e pela solidão, Sam começa a padecer de delírios, numa freqüência que aumenta à medida que se aproxima o dia de seu retorno à Terra, o que culmina no sofrimento de um acidente do qual o astronauta escapa com vida, mas não sem antes se deparar com um homem  de imagem totalmente semelhante a sua.
Até então Lunar (Reino Unido, 2009) se comporta como uma exemplar ficção científica existencialista; contudo, seu desenvolvimento neste diapasão é rompido – talvez para não inflamar ainda mais as inevitáveis comparações a 2001 – Uma Odisséia no Espaço – quando a opção de análise do grau de perturbação da mente humana perante o isolamento é descartada em favor de um plot sobre clonagem que, diante o rumo diverso que tomara a primeira metade do filme, custa a ser aceito pelo espectador.
Não que o tema da clonagem, ressalte-se, seja enfadonho; todavia, sua abordagem, no caso da obra em comento, acaba por frustrar expectativas maiores quanto a eleição de um viés predominantemente psicológico. De qualquer forma, é inegável que o conjunto da obra apresenta assuntos pouco explorados pelo cinema, o que, pelo bem ou pelo mal, agrega a Lunar um louvável frescor, não obstante suas deficiências.
Ademais, ainda no que tange as qualidades do filme, seria inconcebível falar do mesmo sem destacar o trabalho de Sam Rockwell que, com sua costumeira competência, atribui as exatas doses de melancolia e de agressividade exigidas por seu papel.
Embora peque por soluções fáceis e opções dramáticas discutíveis, este primeiro longa-metragem de Duncan Jones revela um cineasta nada afoito, cuja carreira, pelo visto, promete ser promissora.

COTAÇÃO - ☼☼☼         

Ficha Técnica
Título Original: Moon
Direção: Duncan Jones

Fotografia: Gary Shaw
Trilha Sonora: Clint Mansell

Direção de Arte: Hideki Arichi
Figurino: Jane Petrie
Edição: Nicolas Gaster
Efeitos Especiais:Cinesite / The Visual Effects Company
Elenco: Sam Rockwell (Sam Bell), Kevin Spacey (Gerty - voz), Robin Chalk (Sam Bell Clone)Rosie Shaw (Little Eve), Benedict Wong (Thompson)Dominique McElligott (Tess Bell)Adrienne Shaw (Nanny) Kaya Scodelario (Eve Bell)
Duração: 94 minutos
Grande Cena: Sam Bell disputando uma partida de pingue-pongue com Sam Bell.
Curiosidade: O diretor Duncan Jones é filho do cantor e ator David Bowie. Atualmente o cineasta prepara sua nova ficção científica Source Code cujo elenco será encabeçado pelo príncipe da Pérsia Jake Gyllenhaal.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

O Fundo do Coração


A Beleza das Minúcias
Frannie é uma vitrinista que sonha com uma vida de aventuras pelas paisagens dos locais exóticos retratados nos cenários por ela construídos. Já Hank é um boa praça que prefere investir dinheiro na compra da casa onde mora com a namorada Frannie, o que acarreta uma insustentável incompatibilidade de pensamentos entre o casal.
Separados, então, em pleno feriado de 04 de julho, cada um conquista de forma abrupta a independência e liberdade almejadas para seguirem seus planos e para buscarem, por conseguinte, outros pares. Todavia, a separação não tarda a demonstrar seu lado ambíguo, controverso, revelando-se, então, ora desejada ora repudiada.
Confuso com o rumo que sua vida tomara, Hank perambula com seu melhor amigo Moe pelos festejos do feriado mencionado, quando percebe seu cansaço perante a alegria dissimulada dos transeuntes, ocasião essa em que confessa o quanto as luzes de Las Vegas o incomodam, pois para ele tanto enfeite torna tudo fake, não sendo à toa, portanto, sua preferência pelo vazio do deserto norte-americano nos momentos em que precisa refletir ou ter um romântico momento a dois.
Tal idéia resume, assim, o conceito de O Fundo do Coração (EUA, 1982). Num filme em que cada elemento audiovisual possui uma função e/ou significado para a trama, Francis Ford Coppola destrincha com imensa elegância a superficialidade e a fragilidade das relações humanas e em especial aquelas de caráter amoroso.
Piegas em seu início e em seu término, o namoro de Hank e Frannie é posto perante todas as provas de fogo pelas quais um casal costuma passar, de forma que somente após o fim de uma jornada de desilusões o reencontro de ambos adquire ares de maturidade, instante esse em que Coppola despe sua composição visual de toda iluminação teatral que acompanha a obra, dando a seus protagonistas, desta feita, a realidade serena que tanto perseguiam.
Neste sentido, a luz se caracteriza tanto como narrador quanto como personagem do filme, o que garante a este beleza e sutileza ímpares, mostrando, assim, a força e a importância da fotografia no cinema de Coppola.
A montagem, por sua vez, faz amplo uso de imagens sobrepostas para demonstrar que, apesar de afastados, Hank e Frannie permanecem pertos um do outro através de seus pensamentos - por mais cafona que isso possa parecer, afinal, como deixa claro o diretor, assim são conduzidas muitas de nossas relações.
A música de Tom Waits também merece destaque por sua habilidade em não apenas pontuar o filme, como também em substituir diálogos e até exprimir sensações dos personagens.
Como já dito, todas as escolhas de Coppola para este trabalho possuem razão de ser, daí a escalação de atores medianos para os papeis principais do enredo, o que dentro de sua proposta revela-se como uma decisão certeira que entrega ao público interpretações deliciosamente caricatas de Frederic Forrester (Hank) e Teri Gaar (Frannie).
Por fim, O Fundo do Coração talvez seja o filme cujo trabalho de direção de arte tenha se tornado o mais comentado da história do cinema. Decidido a extravasar o mundo das vitrines construídas por Frannie e das luzes rejeitadas por Hank, o cineasta optou por filmar em estúdio todo o roteiro, o que ao invés de reduzir custos, inflacionou sobremaneira o orçamento da produção, já que nenhuma cena externa, por exemplo, fora gravada, o que implicou na construção de um número assombroso de cenários.
Como o público à época do lançamento do filme não entendeu ou não comprou a idéia de Coppola, os vultosos investimentos de sua produtora Zoetrope não foram recuperados, levando o cineasta, consequentemente, à bancarrota e a um forçado intervalo de suas atividades.
Não há dúvida de que esta obra-prima fora cruelmente injustiçada pelas bilheterias, mas, de qualquer forma, o problema maior permanece sendo daqueles que não a viram e que perdem, assim, a oportunidade de conhecer um trabalho de sublime beleza plástica e de inegável domínio de um artista sobre o desenvolvimento de um conceito.

COTAÇÃO - ☼☼☼☼☼             

Ficha Técnica
Título Original: One from the Heart
Duração: 107 minutos
Curiosidade: O casal de atores coadjuvantes deste filme Harry Dean Stanton e Nastassja Kinski foram dois anos depois escalados como os protagonistas do drama Paris, Texas (1984, Inglaterra/França/Alemanha) dirigido por Wim Wenders.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Robin Hood


Produto Aborrecido

Determinados a apresentar às platéias dos anos 2000 uma versão adulta e séria sobre a lenda de Robin Hood, Ridley Scott e Russel Crowe mergulharam nos aspectos político-econômicos da Inglaterra do século XII para, assim, indicar o contexto histórico no qual surgiu o herói de arco e flecha.
O problema é que tanto esforço em distanciar este Robin Hood de suas demais versões cinematográficas acaba por gerar um produto aborrecido, sem emoção nem brio, dada a falta de equilíbrio entre seus lados paradidático e folhetinesco.
Neste sentido, a produção amarra sem muita sutileza sonolentas aulas de história inglesa a uma mezo história de amor que a ninguém convence, graças a interpretações no piloto automático de Russel Crowe e Cate Blanchett.

Sim, existem cenas de ação para atrapalhar o cochilo do espectador, mas, por surgirem de forma tão deslocada e se desenvolverem com tanta rapidez, não logram êxito em atrair a simpatia da audiência, que se mantém, desta feita, saturada com o ar modorrento da obra.¹
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1.    Por isso tudo, o arco e flecha de ouro permanecem com Robin e Marian, filme de 1976 dirigido por Richard Lester, cujo roteiro apresenta um Robin Hood (Sean Connery) envelhecido e cansado de suas desventuras que, ao voltar do exílio, tem de lidar com seus antigos algozes, bem como retomar sua relação com Lady Marian (Audrey Hepburn).


 COTAÇÃO: ***

Ficha Técnica
Direção: Ridley Scott
Elenco: Mark Strong (Sir Godfrey)Cate Blanchett (Marian)Russell Crowe (Robin Hood)William Hurt (William Marshall)Scott Grimes (Will Scarlet)Kevin Durand (Little John)Oscar Isaac (Rei João)Vanessa Redgrave (Eleanor of Aquitaine) Matthew Macfadyen (Xerife de Nottingham)Bronson Webb (Jimoen)
Estreia: 14 de Maio de 2010
Duração: 148 minutos

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Ao Lado da Pianista


O Valor da Simplicidade

Simples e eficiente. Eis as qualidades de Ao Lado da Pianista. Ao tratar da vingança em seu enredo, o longa do diretor Denis Dercourt dispensa arroubos estilísticos para centrar a tensão da trama em sutilezas advindas de gestos e olhares.
Para tanto, o filme conta com um elenco extremamente competente, no qual se mostra imperioso destacar a presença de Déborah François que, com uma atuação não menos que brilhante, extrai da introspecção a profundidade de sua personagem, num processo lento e gradual de revelação de facetas que emulam ares ora de Lolita ora de femme fatale sem que isso implique na banalização do papel.
Longe de qualquer preocupação ou pretensão inovadora, como sugerido acima, a obra em comento brinca com os elementos do gênero para, dentro dessa proposta, apresentar vertentes que acabam por diferenciá-la das demais, o que é conseguido com folga graças a um roteiro que recusa concessões a fórmulas prontas, deixando o espectador, por conseguinte, em crescente expectativa acerca dos rumos a serem tomados pelos planos revanchistas da protagonista.
Neste passo, a música acompanha com maestria a evolução de um suspense acima de tudo psicológico; afinal, os raros toques trocados entre as personagens expressam, na verdade, um carinho deveras ambíguo que nada tem a ver com a violência física que, via de regra, permeia enredos de temática semelhante.
Ao Lado da Pianista, um filme para ser degustado sem pressa, tal qual o tradicional prato que se come frio.

COTAÇÃO: ****

Ficha Técnica
Título Original: La Torneuse de Pages
Direção: Denis Dercourt
Elenco: Jacques Bonnaffé (Monsieur Prouvost) Clotilde Mollet (Virginie) Caroline Mathieu (Lawyer) Catherine Frot (Ariane Fouchécourt) Déborah François (Mélanie Prouvost)Michèle Ernou (Monique)Martine Chevallier (Jackie Onfray)Christine Citti (Madame Prouvost) Antoine Martynciow (Tristan Fouchécourt)André Marcon (Werker)Pascal Greggory (Jean Fouchécourt)Xavier De Guillebon (Laurent)Julie Richalet (Mélanie Prouvost enfant)
Duração: 85 minutos

Autoral vs. Comercial


Fazer filmes requer dinheiro. Por isso, grandes estúdios precisam de produções de apelo popular cujo retorno financeiro seja garantido, o que, por conseguinte, acarreta o eterno embate entre a arte e o comércio.
Tal realidade, frise-se, acompanha o cinema desde seus primórdios e, especificamente durante a primeira metade do século XX, tivera em Louis B. Mayer¹ o grande entusiasta do entretenimento desengajado.
Para o executivo, críticos de cinema, por exemplo, serviam tão somente para achincalhar a produção hollywoodiana e superestimar qualquer obra feita fora dos EUA. Segundo palavras do mesmo: “Assim que se diz que o filme foi feito na Itália, algum crítico de oitenta dólares por semana escreve uma grande resenha delirante chamando-o de arte. (...) Sei o que o público quer. (...) Sentimentalismo! O que há de errado com isso? Amor! Um bom romance antiquado! (...) Isso é ruim? Isso entretém. Traz o público para a bilheteria”.²
A Glória de Um Covarde (The Red Badge of Courage, EUA, 1951) representa um exemplo desse contexto, eis que, mesmo sendo um projeto capitaneado pelo aclamado diretor John Huston, L.B. Mayer sempre fora contra sua produção por entender que um tema soturno como a Guerra Civil Americana não renderia lucro algum ao seu estúdio.
O fato é que, amaldiçoado ou não por Mayer, a obra estancou em sua fase de pós-produção por conta de reprovações manifestadas pelo público de sessões testes, o que fez o trabalho de Huston ser reeditado diversas vezes, chegando a ponto de ser inclusive providenciada a dublagem de um dos atores do filme em função de um comentário negativo advindo da platéia.
John Huston, por sua vez, considerava A Glória de Um Covarde um exemplo supremo de ironia, por ser, ao mesmo tempo, seu melhor trabalho, conforme sua própria visão, e seu maior fracasso de público.
Neste passo, enquanto produtores reviravam a obra pelo avesso na tentativa de adequá-la ao gosto das massas, Huston, reconhecendo que aquele não era mais um filme seu, pulou fora do barco para adentrar num outro chamado African Queen.
Explique-se: o cineasta havia se comprometido a dirigir o projeto Uma Aventura na África para sua própria companhia – a Horizon Pictures - local onde dispunha de total liberdade para filmar graças ao fato de seu sócio, o produtor Sam Spiegel, realizar a captação de verbas sem a colaboração de estúdios.
Assim, Huston partiu rumo à África deixando para trás A Glória de Um Covarde e seus problemas de finalização – além do salário semanal oriundo do contrato que firmara com a MGM -, para, a partir de então, dedicar-se a roteirização e direção de Uma Aventura na África.
Conhecido por suas excentricidades, Huston via nesse novo trabalho - graças ao apelo da história e de seu elenco - a possibilidade de, enfim, obter muito lucro, mas também, e principalmente, a oportunidade de caçar elefantes no continente africano e de se divertir ao lado do amigo Humprey Bogart, ator protagonista do filme, em locações exóticas como as do Congo Belga.
Todavia, se por um lado o cineasta ficara livre da sombra dos executivos, por outro fora obrigado a lidar durante as filmagens com intempéries de toda espécie, afinal, condições climáticas interferiam negativamente no nível das águas, praticamente toda a equipe técnica fora acometida de enfermidades, Katherine Hepburn, estrela do filme ao lado de Bogart, quase fora morta após uma debandada de elefantes, entre outros exemplos...
Vencidos os obstáculos, Huston retornou aos EUA quando A Glória de Um Covarde, após quase um ano de pós-produção, já havia estreado oficialmente nos cinemas. Sem jamais ter assistido a versão final do filme, Huston experimentou dentro de pouco mais de um ano uma passagem do inferno ao céu, pois enquanto o trabalho supracitado se confirmou como um retumbante fracasso de bilheteria, Uma Aventura na África, de forma totalmente diversa, além de se confirmar como seu maior sucesso de bilheteria ainda gozou de grande credibilidade perante público e crítica - o que culminou, por fim, na premiação com o Oscar de melhor ator para Humprey Bogart.
Para muitos executivos, entre eles Louis B. Mayer, John Huston optara por fazer filme de arte com o dinheiro alheio, ao passo que deixara para sua própria companhia a realização de um filme de estrelas, cujo retorno financeiro era garantido.
Neste sentido, é difícil crer em má-fé do cineasta, afinal, não há como visualizar um demérito de sua atuação em qualquer dos trabalhos mencionados. A Glória de Um Covarde ensejará sempre a dúvida sobre aquilo que poderia ter sido caso a visão de Huston fosse respeitada, contudo, o resultado apresentado após as controvérsias dos bastidores, revela um trabalho irregular, mas que em seu conjunto consegue se firmar como uma adaptação cinematográfica mediana mas jamais descartável – como L.B. insistia em tratá-la.
Outrossim, não resta dúvida de que uma vez aprendidas as lições do fracasso, Huston dirigiu Uma Aventura na África imbuído do evidente intuito de agradar, o que consegue fazer sem qualquer manipulação. Seu grande trunfo, neste diapasão, consiste em extrair despojadas interpretações de seu casal de protagonistas e ainda colocá-los em situações cômicas e constrangedoras que se tornam ainda mais curiosas por envolverem atores que já eram há muito tempo ícones do cinema.³
Logo, a aprovação ou reprovação do público para com um produto não deverá em qualquer hipótese servir como elemento único a definir a qualidade do último. Destarte, a distinção entre os cinemas autoral e comercial estará sempre em voga, fomentando debates e críticas. Resta-nos torcer, então, pelo equilíbrio dos cinemas para que, desse modo, seja preservado algo um tanto quanto menosprezado pela indústria nas últimas décadas: o comprometimento perante a inteligência do espectador.
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(1)       Na condição de fundador, junto a outros, dos estúdios MGM e de criador do chamado star system.
(2)       Lilian Ross. Filme. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. p. 237.
(3)       Vale lembrar, ainda, que Huston abdicou de todo e qualquer lucro sobre o que fora amealhado por Uma Aventura na África, quando desfez sua sociedade com Sam Spiegel logo em seguida ao lançamento do filme nos cinemas. O motivo do racha: a descoberta de negociações escusas do produtor e levantamento de suspeitas sobre a origem do dinheiro levantado para a produção de seus filmes.

COTAÇÕES:
A Glória de Um Covarde - ☼☼☼  
Uma Aventura na África - ☼☼☼☼

Ficha Técnica - A Glória de Um Covarde
Título Original: The Red Badge of Courage
Direção: John Huston
Roteiro: John Huston e Albert Band
Elenco: Audie Murphy, Bill Mauldin, Andy Devine, Royal Dano, Arthur Hunnicutt, John Dierkes
Ano: 1951
Duração: 69 minutos

Ficha Técnica - Uma Aventura na África
Título Original: The African Queen
Direção: John Huston
Roteiro: James Agee, John Huston, baseado na obra de C.S. Forester
Elenco: Humphrey Bogart (Charlie Allnut)Katharine Hepburn (Rose Sayer)Robert Morley (Rev. Samuel Sayer)Peter Bull (Capitão da Louisa)
Ano: 1951
Duração: 105 minutos