EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quinta-feira, 29 de abril de 2010

Dersu Uzala



Exercício de Sensibilidade


Durante expedição cartográfica sobre os vastos campos siberianos, oficial russo encontra em seu caminho Dersu Uzala, um senhor de idade avançada, morador da floresta, que irá, a partir de então, servir de guia para o capitão e seu grupo.
Com sua estatura diminuta, sua velhice e humildade Dersu suplanta toda a arrogância e ignorância dos homens da cidade por meio da força de seu conhecimento empírico e da nobreza de seu caráter, o que leva, em seguida, ao início de uma grande amizade entre ele e o chefe do destacamento militar. Baseados, então, na confiança e respeito mútuos esses dois homens de origens e meios tão diversos enfrentarão e vencerão juntos os mais diversos obstáculos oriundos tanto de fenômenos da natureza quanto da ação humana. Porém, a aproximação da morte revelar-se-á como o inimigo mais difícil de ser combatido, ocasião em que prevalecerá uma vez mais o respeito à natureza, dessa vez humana, face a chegada do momento em que cada um terá de seguir seu próprio caminho - ainda que isso signifique um adeus definitivo.
Inspirado nos diários de Vladimir Arseniev, o enredo de Dersu Uzala pode, a primeira vista, parecer um fiapo de história, mas, nas mãos de Akira Kurosawa se transforma num poético olhar sobre a amizade e sobre o dever de subserviência do homem perante o meio ambiente. Caminhando continuamente sobre os trilhos de temáticas que se harmonizam, o cineasta japonês apresenta sem qualquer pressa - e por meio da utilização de diversos planos gerais - toda a imponência da natureza perante a pequenez humana, bem como a solidez dos laços fraternais firmados pelos protagonistas, o que torna seu trabalho um cativante exercício de sensibilidade.
 Não fosse o bastante o primor de sua narrativa, o filme há de, também, ser necessariamente lembrado pela atuação de Maksin Munzuk que, na pele de Dersu, desaparece sem deixar à mostra qualquer vestígio de técnica, numa das raras vezes em que o ator deixa de interpretar para simplesmente ser e se confundir com o personagem.
Filmado em 1974, isto é, durante os espinhosos anos da Guerra Fria, Dersu Uzala é uma produção soviética, baseada em literatura de semelhante nacionalidade, fato esse que, entretanto, não impediu a obra de ser laureada em todos os cantos do planeta, o que inclui, principalmente, os Estados Unidos, local onde foi saudada com o Oscar de melhor filme estrangeiro. Desta feita, graças ao talento e ao discurso pacifista de seu diretor, o longa-metragem revelou a capacidade da arte transpor barreiras políticas – além, é claro, de representar a reabilitação pessoal e profissional do mestre Kurosawa após a má recepção de Dodeskáden, sua obra imediatamente anterior.

COTAÇÃO - ۞۞۞۞۞

Ficha Técnica 
Direção: Akira Kurosawa
Duração: 141 minutos

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Sinédoque Nova York


Transição Nada Traumática


Em meio ao vazio de sua vida pessoal e profissional, diretor de teatro lança mão de patrocínio recebido para realizar seu primeiro trabalho autoral. Decidido a criar uma obra de cunho autobiográfico, o artista promove ensaios de uma peça sobre trechos diários de seu cotidiano, o que, somado a sua dificuldade de percepção temporal, acaba por resultar num infindável exercício de  encenação cujas proporções gigantescas quanto ao número de cenários e de personagens, geram um espetáculo inacabado, mas plenamente hábil a se mesclar e até mesmo tomar o lugar da vida real de seu criador.
Sinédoque Nova York marca a estréia de Charlie Kaufman como diretor de cinema, numa transição nada traumática que se mostra deveras promissora; afinal:
·        seu roteiro – à exemplo de enredos anteriores como os de Quero Ser John Malkovich e Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças – traz o costumeiro experimentalismo permeado de esquisitices que, interessantes ou não, possuem o incontestável mérito de, por conta de seu caráter experimental, se distinguir  das estruturas tradicionais que baseiam quase todo o restante da produção cinematográfica;
·        se por um lado o agora cineasta Charlie Kaufman – talvez por reconhecer sua inexperiência neste sentido – não precisou ter grandes preocupações com a condução do elenco, dado o uso de seu prestígio para a reunião de um invejável rol de atores – no qual se incluem Philip Seymour Hoffman, Samantha Morton, Catherine Kenner, Emily Watson, Diane Wiest, Jennifer Jason Leigh e Michele Williams – por outro lado restou inconteste sua habilidade e apuro técnico no que tange a retratação visual de suas palavras.
Outrossim, tal como a peça teatral do filme se tornou mais importante que a própria vida de seu criador, é preciso de igual forma enfocar Sinédoque Nova York como um elemento maior do que a mera estréia profissional de seu diretor e, neste diapasão, a obra em comento se revela como um exercício de análise minucioso e cadenciado acerca das mentes de seus personagens, resultando, desse modo, num perspicaz instrumento de observação sobre a capacidade humana de visualizar, distinguir as razões da mediocridade e da mesquinharia que por vezes permeiam seus universos particulares, bem como sobre sua simultânea inabilidade e inércia para a tomada de atitudes que lhe retirem da letargia.
Um filme cujo caráter experimental se revela curioso tanto isolada quanto comparativamente as demais manifestações artísticas de seu genitor.

COTAÇÃO: ۞۞۞


Ficha Técnica

Título Original: Synecdoche, New York
Direção e Roteiro: Charlie Kaufman
Elenco: Philip Seymour Hoffman (Caden Cotard)Catherine Keener (Adele Lack)Samantha Morton (Hazel)Emily Watson (Tammy)Tom Noonan (Sammy Barnathan)Hope Davis (Madeleine Gravis)Jennifer Jason Leigh (Maria)Dianne Wiest (Ellen Bascomb/Millicent Weems)Deirdre O'Connell (Mrs. Bascomb)Michelle Williams (Claire Keen)Sadie Goldstein (Olive)
Estreia: 17 de Abril de 2009
Duração: 124 minutos

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Harry e Sally - Feitos Um Para o Outro


Reunião de Talentos

Se Woody Allen optasse um dia por dirigir uma comédia romântica despida das altas doses de neurose mostradas em obras como Annie Hall e Manhattan, esse filme seria Harry e Sally – Feitos Um Para o Outro (When Harry Met Sally, EUA, 1988).
As diversas caminhadas pelas ruas de Nova York regadas por deliciosas discussões comportamentais, a insegurança das personagens, as referências culturais e a urgência da declaração final de amor são elementos que se igualam àqueles manejados pelo cineasta nova-iorquino; porém, as semelhanças param por aí, eis que na obra sob análise estes recursos são conduzidos sob a ótica de um outro casal diverso (mas nem tanto) àquele do título do filme, qual seja o diretor Rob Reiner e a roteirista Nora Ephron os quais, lançando mão de suas experiências particulares, puseram nas telas uma história cheia de frescor e charme sobre encontros e desencontros que afastam mas também aproximam as vidas de homens e mulheres.
Trata-se, então, de uma reunião de talentos cujas carreiras, até então, não haviam se solidificado, senão vejamos:
  • Em Harry e Sally Rob Reiner revela sua habilidade tanto na condução do elenco quanto no manuseio de recursos técnicos – valendo, neste sentido, destacar a inspirada montagem pontuada por depoimentos que tangenciam o enredo do filme, o que, de forma muito despretensiosa, acabou por criar padrões ao gênero que influenciariam diversas produções posteriores como, por exemplo, o recente (500) Dias Com Ela – numa época em que seu nome ainda não era o sinônimo de sucesso de público e de crítica que viria se tornar a partir desta e de produções posteriores do porte de Louca Obsessão (Misery, EUA) e Questão de Honra (A Few Good Men, EUA).
  •  Nora Ephron ainda não havia estreado no ofício da direção cinematográfica, o que após ocorrido geraria uma das mais belas homenagens ao grandes romances do cinema chamada Sintonia de Amor.
  • Também antes de passar a ocupar a cadeira de diretor em filmes como A Família Adams e Homens de Preto, Barry Sonnenfeld fora encarregado da fotografia de When Harry Met Sally, ocasião na qual realizou um trabalho capaz de extrair com sofisticação a beleza de cada uma das estações do ano que pontuam os anos de convivência do casal que dá nomeia o filme.
  • Na trilha sonora um até então desconhecido Harry Connick Jr. empresta sua voz para a interpretação de antigas baladas americanas, numa colaboração que serviu de pontapé inicial para o restante de sua carreira enquanto cantor e ator.
  • Billy Crystal obteve o êxito neste filme de dosar seus conhecidos excessos, compensando-os com tocantes doses de sensibilidade, o que, numa química perfeita, não lhe sobrepôs nem lhe inferiorizou perante Meg Ryan, cuja desenvoltura na defesa de sua primeira protagonista lhe valeu através da famosa tomada do orgasmo encenado o principal e melhor momento de sua filmografia.
Com base na feliz junção desses talentos, Harry e Sally se firmou, portanto, como um sincero e carinhoso retrato acerca das diferenças entre os sexos, bem como sobre suas incontestáveis semelhanças quando o assunto é amor. Receios e inseguranças, no fim das contas, revelam-se comuns a todos, daí a razão de, após tantas idas e vindas, ser inevitável torcer pelo final feliz das personagens.
Em tempos de cinismo como os de hoje, é sempre um bálsamo perceber o sorriso no rosto que o otimismo nos proporciona. Pena que logo algo surja para, passados alguns minutos, dissipar essa sensação...
COTAÇÃO - ☼☼☼☼   
         

Ficha Técnica

Direção:  Rob Reiner
Roteiro: Nora Ephron
Fotografia: Barry Sonnenfeld
Elenco: Billy Crystal, Meg Ryan, Carrie Fisher, Bruno Kirby
Duração: 95 minutos

terça-feira, 20 de abril de 2010

Substitutos


Ostracismo Futurista

Munidos de justificativas como a diminuição da violência, a devolução da capacidade locomotora a paralíticos, bem como a pura e simples possibilidade de rejuvenescimento e/ou embelezamento, homens e mulheres praticamente não saem mais às ruas, preferindo, assim, comandar, do “conforto” de suas casas, as sexies versões robóticas de suas personas.
Partindo desta premissa, Substitutos (EUA, 2009) adapta a graphic-novel de Robert Venditti para contar uma nova história de embate entre Davi e Golias, o que desta vez é feito sob a ótica de uma ficção científica que, mesmo sofrendo visíveis tropeços – Bruce Willis com seus maneirismos é um deles –, se revela hábil a, em meio a tiros e explosões, levantar curiosas discussões éticas acerca do ostracismo deliberadamente adotado pelos seres humanos após a admitida assunção, por máquinas, de seus deveres profissionais e de suas relações sócio-afetivas. (1)
 Neste passo, ainda que lamentavelmente o potencial desses dilemas não seja explorado em sua plenitude, a mera citação desses elementos, se não garante o nascimento de um novo Blade Runner, inegavelmente descaracteriza o longa-metragem como a aventura descerebrada que ameaçava ser, premiando-lhe, ao fim, com um agradável quê de surpresa.

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(1) Dada a similitude funcional existente entre os avatares da obra dirigida por James Cameron e os robôs substitutos da produção em comento, é possível imaginar o grande filme que aquele primeiro poderia ter sido caso dispusesse de uma dramaturgia menos rasa e não fosse tão arduamente empenhado em ser mera arte do espetáculo em versão natureba-infanto-juvenil.



COTAÇÃO: ***                                


Ficha Técnica
Título Original: Surrogates
Direção: Jonathan Mostow
Estreia: 24 de Setembro de 2009
Duração: 94 minutos

domingo, 18 de abril de 2010

O Código Tarantino

Saborosa Metalinguagem

Para deleite de qualquer simpatizante da sétima arte, a metalinguagem volta e meia rende saborosos frutos a serem degustados. Desde clássicos como Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, EUA, 1950), até obras mais contemporâneas como Rebobine, Por Favor (Be Kind, Rewind, EUA, 2008), o cinema falando de si próprio se mostra como algo deveras interessante e, por que não (?), divertido.
O Código Tarantino se insere no contexto abordado ao apresentar uma simples conversa de mesa de bar, cujo assunto gira em torno dos trabalhos daquele cineasta. Ocorre que, por ir muito além da obviedade, o bate-papo, na verdade, nada tem de simplório, afinal, o que se desenrola na tela é a revelação de uma não imaginada ligação entre os filmes dirigidos e/ou roteirizados pelo diretor.
À moda de Quentin Tarantino, este curta-metragem brasileiro é deliciosamente verborrágico, valendo-se para tanto das descoladas interpretações de Seu Jorge e Selton Mello os quais, na pele de amigos imbuídos de certa alma nerd, desfilam suas teorias e opiniões sobre o cinema tarantiniano.
Pop, ágil, cômico e envolvente, assim é O Código Tarantino, mas, ora, os filmes dele também não o são?

COTAÇÃO: ****

Ficha Técnica
Direção: 300 ML
Elenco: Selton Mello e Seu Jorge
Duração: 14 minutos


Segue abaixo o link para visualização do filme.

http://www.youtube.com/watch?v=op4byt-DtsI

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Julianne

(1)

 Mesmo em meio a toda uma crise de qualidade, o cinemão hollywoodiano vez por outra apresenta novas gratas surpresas. Neste sentido, de certo uma das mais satisfatórias revelações destes tempos fora a atriz Julianne Moore que, como a maioria de seus colegas, iniciou a carreira com aparições em obras descartáveis – como Assassinos e Nove Meses – capazes de esconder seu talento e até mesmo sua beleza ruiva.
Foi necessário, então, o semi-estreante diretor Paul Thomas Anderson escalar a atriz para um dos principais papeis de Boogie Nights para que Julianne revelasse ao mundo seus dons na pele de uma atriz viciada em drogas em meio ao apogeu e declínio da indústria do cinema pornográfico norte-americano.
A partir de então Julianne Moore se esmerou em personagens cada vez mais densos, como foi o caso de suas participações em Fim de Caso e Magnólia - no qual mais uma vez esteve sob a batuta de P.T. Anderson –; porém, talvez o ano mais importante de sua carreira tenha sido o de 2003, dada sua presença nos igualmente belos As Horas e Longe do Paraíso.
Nestes dois dramas a atriz rouba a cena em interpretações que se completam. Suas personagens são típicas donas de casa dos anos 50 que aparentemente teriam tudo para serem felizes, não fosse a fragilidade e superficialidade do american way of life que rege seus pequenos mundos.
Através da leitura de Mrs. Dalloway, sua melancólica personagem de As Horas compreende a vida infeliz e medíocre que passara a ter, surgindo-lhe, assim, uma desesperadora necessidade de escape, materializada seja pela tentativa de suicídio seja pelo abandono do lar e da família.
No outro extremo, em Longe do Paraíso a atriz vive a mulher com casamento, lar e filhos perfeitos que vê ruir sua felicidade plena ao flagrar a bissexualidade do marido. Neste caso, tem-se um exemplo de produção tecnicamente perfeita, com roteiro, direção, fotografia e elenco impecáveis, contudo, ainda assim, o destaque é todo de Julianne Moore a qual, por mais injusto que possa parecer, carrega a filme nas costas - até mesmo porque de muito depende de sua atuação todo o desenvolvimento do mesmo.
Em ambos os trabalhos a atriz entrega interpretações contidas que em momento algum desandam para o caricato nem apelam a maneirismos. Com a devida sutileza Julianne apresenta as inegáveis semelhanças de suas personagens - já que as mesmas são seres, acima de tudo verossímeis -, mas também jamais as deixa se confundirem, o que as permite serem enxergadas tão longe tão perto uma da outra em virtude do talento de quem lhes encarna.
As Horas e Longe do Paraíso são, portanto, obras a serem preferencialmente degustadas em conjunto para assim ser possível conhecer as muitas mulheres de Julianne.
Vale citar que, no mesmo ano de 2003, a atriz fora indicada ao Oscar por esses dois trabalhos, sendo, entretanto, ignorada em ambas as indicações. Mas, de que isso importa? Afinal, “as personagens de Julianne Moore são inesquecíveis porque ela também o é”.[2]

COTAÇÕES:
Longe do Paraíso - ☼☼☼☼☼              As Horas - ☼☼☼☼

Ficha Técnica - Longe do Paraíso
Título Original: Far from Heaven
Direção e Roteiro: Todd Haynes
Elenco: Kyle Timothy Smith (Kyle Smith), Julianne Moore (Cathy Whitaker)Dennis Quaid (Frank Whitaker)Dennis Haysbert (Raymond Deagan)Patricia Clarkson (Eleanor Fine),Celia Weston (Mona Lauder),C.C. Loveheart (Marlene),Jordan Puryear (Sarah Deagan),Pamela Evans (Kitty)Barbara Garrick (Doreen)Bette Henritze (Mrs. Leacock),Gregory Marlow (Reginald Carter)J.B. Adams (Morris Farnsworth)Viola Davis (Sybil)Mylika Davis (Esther),Olivia Birkelund (Nancy),Lindsay Andretta (Janice Whitaker),Duane McLaughlin (Jake),Stevie Ray Dallimore (Dick Dawson),Kevin Carrigan (Soda Jerk),James Rebhorn (Dr. Bowman),Ted Neustadt (Ron)Lance Olds (Bail Clerk)Ryan Ward (David Whitaker)
Estreia: 22 de Novembro de 2002
Duração: 95 minutos

Ficha Técnica – As Horas

Título Original: The Hours
Direção: Stephen Daldry
Produtores: Robert Fox, Scott Rudin
Elenco: Nicole Kidman (Virginia Woolf)Julianne Moore (Laura Brown)Meryl Streep (Clarissa Vaughan)Stephen Dillane (Leonard Woolf)Miranda Richardson (Vanessa Bell)Linda Bassett (Nelly Boxall)Lyndsey Marshal (Lottie Hope)Sophie Wyburd (Angelica Bell)Charley Ramm (Julian Bell)George Loftus (Quentin Bell)Christian Coulson (Ralph Partridge)Michael Culkin (Doctor)John C. Reilly (Dan Brown)Jack Rovello (Richie Brown)Toni Collette (Kitty)
Estreia: 28 de Fevereiro de 2003
Duração: 114 minutos


[1] Revisão do texto “A Diva Julianne Moore” originalmente publicado em 15.09.2003 no periódico Comunicado impresso pela Universidade da Amazônia – UNAMA.
[2] Revista Set.

Nome Próprio



A minha dor em eterna exposição

A letra: “Ainda sinto por dentro toda dor dessa ferida/Mas o pior é pensar que isso um dia vai cicatrizar/Eu queria manter cada corte em carne viva/A minha dor em eterna exposição/E sair nos jornais e na televisão/Só pra te enlouquecer até você me pedir perdão”.
A música: 50 Receitas de Roberto Frejat e Leoni.
                       De forma desproposital, Frejat e Leoni - expoentes do movimento BRock dos anos 80 - revelam em versos contemporâneos aspectos atinentes as diferenças comportamentais de gerações que se sucedem. Enquanto para eles a concretização máxima da exposição de uma dor se daria, por exemplo, através de transmissão televisiva ou publicidade jornalística, os adolescentes e recém-adultos de hoje dispensam meios de tão difícil acesso para dar manchete a suas neuroses e problemas íntimos.
O motivo: as múltiplas redes sociais espalhadas pela Internet. Orkut, facebook, twitter, messenger, fotologs e blogs se mostram, assim, como ferramentas práticas o suficiente para a apresentação de angústias próprias e alheias.
Desse modo, muitos passaram a se contentar e a enxergar a mera exposição virtual de seus sentimentos e de seus corpos como verdadeira solução para eventuais ou habituais problemas. A família, o sexo, o trabalho, o amor, tudo agora pode e merece ser objeto de domínio público, num processo de letargia aliciador tanto de quem produz quanto de quem consume, eis que os eventos mais banais do dia-a-dia são capazes de sair do plano da privacidade para, ato contínuo, despertar um inútil interesse em quem quer que seja.
Ocorre que, por certo, o cotidiano de cada um é marcado por minutos, horas e até dias caracterizados por um vazio, por uma ausência de novidades, de tragédias e de felicidades. Por isso, na falta do que ser exposto, apela-se ao nada em detrimento do raciocínio e do pensamento.
Nome Próprio (Brasil, 2008) tateia o assunto ao contar a história da blogueira Camila (alter-ego da escritora gaúcha Clarah Averbuck), uma mulher na faixa etária dos vinte anos que se porta como verdadeira bomba-relógio em seu constante flerte com a decadência.
Em resposta a sua inércia quanto a busca de soluções garantidoras de uma maior qualidade de vida, Camila aplaca todo e qualquer mal que lhe aflige em urgentes postagens de blog que não aguardam crises de choro nem de vômito.
Neste contexto, rompimentos de relacionamentos, trocas de farpas e demais desabafos virtuais passam a ocupar a escrita da protagonista e a estimular sua sede pelo declínio, eis que, em seu pensar, o livro que tanto almeja escrever requer para sua narrativa a manutenção de sua vida em estado de aceleração máxima ao invés da sustentação de uma velocidade de cruzeiro tediosa.
Captando esse espírito intrépido e ao mesmo tempo melancólico de sua personagem, Leandra Leal entrega uma atuação visceral, como poucas vezes visto no cinema nacional, deixando de lado qualquer pudor ou inibição capazes de limitar a personificação das nuances de seu papel.
Por sua vez, Murilo Salles, diretor da produção, faz uso de uma fotografia intrusa capaz de retirar o espectador de sua zona de conforto para jogá-lo - através da captação de closes e de imagens em primeiro plano - de encontro a crueza que permeia as cenas do filme.
                       Assim, apesar de situado tão perto dos personagens, o público fica, de igual forma, afastado dos mesmos, dado o exercício de neutralidade nitidamente trabalhado pelo cineasta supracitado; afinal, su
a perícia na condução da platéia não é atrelada a qualquer insinuação opinativa, ficando para a audiência, desta feita, toda e qualquer emissão de juízo de valor acerca do que é apresentado, o que – mesmo na presença de uma atriz em estado de graça e da perspicaz utilização de recursos técnicos e cenográficos – não impede o despertar de uma contraditória e incômoda falta de empatia pela protagonista da trama, dada a questionabilidade de seu temperamento perante a ausência de motivos concretos para atos que, de tão extremos, são incapazes de serem justificados apenas por seu abstrato anseio de produção literária.
                      Eis uma obra de corpo escultural, mas desprovida de carisma. Um filme imperfeito como Camila, as redes sociais, as gerações e a vida também são.

COTAÇÃO: * * *

Ficha Técnica
Direção: Murilo Salles
Elenco: Leandra Leal (Camila)Luciana Brites (Aurora)Paulo Vasconcelos (Charles) Gustavo Machado (Daniel)Munir Kanaan (Márcio)Ricardo Garcia (Rodrigo) Alex Disdier (Henri) David Cejkinski (Guilherme)Juliano Cazarré (Felipe) Frank Borges (Leo)Martha Nowill (Mari)
Estreia: 18 de Julho de 2008
Duração: 120 minutos

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Código de Conduta


Colcha de Retalhos

Código de Conduta bem que poderia ser chamado de “Adivinhe o Nome do Filme”, dada sua inegável semelhança para com a brincadeira de mímica na qual os participantes tem de descobrir qual obra está sendo sugerida pelos gestos, senão, vejamos o que entrega seu “roteiro”:
Advogado promissor conhecido por não perder causas (Advogado do Diabo???) erra ao celebrar acordo que livra da condenação o assassino da mulher e filha de seu cliente, o qual, num misto de raiva e indignação, parte em busca de justiça pelas próprias mãos (hum, isso lembra o início de Gladiador...).
Assim, nosso intrépido vingador passa a eliminar cada um dos envolvidos no julgamento dos responsáveis pelo extermínio de seus entes queridos, deixando reservado na perseguição,  é claro, um espaço de destaque  para o mencionado advogado e sua família (bom, nesse quesito Retratos de uma Obsessão e os capengas Morando com o Perigo e A Mão que Balança o Berço são exemplos de suspenses que também já exploraram o tema do psicopata amedrontador de lares).
Ocorre que, como parte do plano, a vítima da injustiça, agora transformada em vilão (ué, a Samara de O Chamado fora morta e jogada em um poço desativado para, então, se tornar um espírito maligno e revanchista), deixa-se ser preso, reconhece a autoria dos crimes por ele cometidos e, pasmem, ainda dispensa a ajuda de qualquer defesa técnica (danou-se, Um Crime de Mestre pula da tela), para, de dentro de sua cela, lançar mão de seus talentos como inventor, manipulando, assim, as mais diversas quinquilharias capazes de liquidar seus algozes mesmo à distância, devendo ser aplaudido, dentre os artefatos criados, o telefone celular assassino que dispara um tiro ao ser atendido (pelo visto esse personagem foi aluno do bom e velho “Q” da série 007).
Previsível até o último fio de cabelo, esta original trama traz em seu elenco, representando o pobre advogado perseguido, Jammie Foxx – cuja atuação no piloto-automático leva ao questionamento: será ele ator de um único papel? – e, na pele do sanguinário homem que perdeu sua família, Gerard Butler – que, a cada execução cometida por seu personagem, parece ficar sedento de vontade de gritar “This is Sparta!!”.
Como jogo de adivinhação Código de Conduta pode até servir de passatempo para noites chuvosas, como filme, porém, não passa de uma vergonhosa e descarada colcha de retalhos.
Será que alguma outra obra também plagiada deixou de ser lembrada?

COTAÇÃO: **


Ficha Técnica
Título Original: Law Abiding Citizen
Direção: F. Gary Gray
Roteiro: Kurt Wimmer
Elenco: Bruce McGill (Jonas Cantrell)Michael Kelly (Bray)Viola Davis (Prefeita)Regina Hall (Kelly Rice)Gregory Itzin (Iger)Michael Irby (Detetive Garza)Leslie Bibb (Sarah Lowell)Colm Meaney (Detetive Dunnigan)Gerard Butler (Clyde Shelton)Jamie Foxx (Nick Rice)Josh Stewart (II) (Rupert Ames)
Estreia: 6 de Novembro de 2009
Duração: 108 minutos