EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O Marido da Cabeleireira

Pequeno e Objetivo. Abrupto e Sensível.

Dentre tantas predileções já confessadas neste espaço, mais uma merece destaque: filmes de pequena duração – tal como os curtas-metragens – ganham meu total apreço quando capazes de apresentar um denso desenvolvimento e uma eficiente conclusão apesar do econômico tempo de projeção. Neste sentido, O Marido da Cabeleireira (França, 1990) reúne tais qualidades ao se valer de uma inegável objetividade que, por outro lado, não dispensa nem se choca com o viés poético acrescentado pelo diretor Patrice Leconte.
Assim, de maneira extremamente delicada e, ao mesmo tempo, imbuída de certa estranheza, a obra disseca a história de um amor marcado pela irrestrita veneração de um homem por uma mulher e dela por ele. Dentro deste contexto, Leconte lança mão de uma montagem que, sem dificuldades, transita entre passado e presente, para, ato contínuo, apresentar-nos o personagem masculino que, desde a infância, nutrira o fetiche de um dia casar-se com uma cabeleireira.
Quando, já maduro, atinge sua meta, o protagonista, junto com o espectador, é arrebatado pela sedutora beleza da mulher pela qual se contentará, a partir de então, em não fazer nada mais além de adorá-la. Ela, em razão de encontrar uma doação tão verdadeira e profunda, passa a manter semelhante senso de exclusividade, o que, contudo, acaba lhe gerando o incontornável receio de um dia vir a perder a companhia do ser amado.
Por conta da presença de sentimentos tão extremados, ambos não se furtam a trocar carícias com total desinibição e entrega – ocasiões em que o filme flerta com o erotismo sem, entretanto, esquecer o bom gosto – aumentando, por conseguinte, a necessidade, a dependência de um pelo outro, bem como o temor perante a hipótese de que um dia aquele amor se esvaia.
Belo e sensível, O Marido da Cabeleireira logra o êxito de ser singelo mas também abrupto, deixando-nos, desta feita, a mesma impressão suportada após o término de determinados relacionamentos: a experiência pode ter sido ligeira, mas, em compensação, fora extremamente significativa e marcante.

COTAÇÃO - ☼☼☼☼

FICHA TÉCNICA
Título Original: Le Mari de la Coiffeuse
Diretor: Patrice Leconte
Elenco: Jean Rochefort, Anna Galiena, Henry Hocking, Roland Bertin, Maurice Chevit, Philippe Clevenot, Jacque Mathou, Thomas Rochefort, Albert Delpy, Claude Aufaure.
Produção: Thierry de Ganay
Roteiro: Patrice Leconte, Claude Clotz
Fotografia: Eduardo Serra
Trilha Sonora: Michael Nyman
Duração: 84 min.
Curiosidade: O diretor Patrice Leconte atuara nos anos 70 como crítico da revista Cahiers Du Cinéma.

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