EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




domingo, 26 de março de 2017

Kong – A Ilha da Caveira



Pastiche

Kong – A Ilha da Caveira (EUA, 2017) se vale de uma estratégia comum ao cinema-catástrofe dos anos 1970: a utilização de atores consagrados no elenco como forma de agregar credibilidade ao produto. Dito isso, é uma pena que, não obstante toda a quantidade de dinheiro disponível para a contratação de tais artistas, a produção fracasse ao não conseguir extrair o potencial dos mesmos, o que é resultado da condução do diretor Jordan Vogt-Roberts, visivelmente preocupado em se debruçar sobre o elemento neófito responsável por diferenciar esta versão de King Kong das anteriores, qual seja a fusão do tradicional enredo sobre o Rei dos Macacos com filmes de guerra passados no Vietnã - com destaque especial para o setentista Apocalipse Now (EUA, 1979).

Assim, Vogt-Roberts se concentra em criar um pastiche de fotografia saturada e CGI exagerado, deixando relegado a um segundo plano o desenvolvimento dos personagens que, embora no primeiro ato sejam até devidamente apresentados, não tardam a ser subaproveitados, circunstância que atinge até mesmo o próprio Kong que deixa de ser protagonista de seu filme para ser tão coadjuvante quanto todos os outros personagens que, desta feita, transitam aleatoriamente em torno de uma trama que no fundo quer apenas mostrar explosões e situações extremas geradas por seus efeitos visuais de ponta, além, vale lembrar, de preparar terreno para o duelo que em breve o símio terá com Godzilla¹.
Neste diapasão, por alguns instantes chega a ser curioso o modo debochado com que a figura de Samuel L. Jackson é reverenciada por Vogt-Roberts na medida em que aquele é o único ser humano capaz de amedrontar (com um olhar) o gorilão; porém, a manutenção da piada logo acaba por fazer de seu militar enfezado uma mera caricatura tal como ocorre com os demais que volta e meia restam sacrificados por diálogos infames e previsíveis, aspecto esse em que também merece registro a irrelevante participação da oscarizada Brie Larson. Já Tom Hiddleston, que já havia chamado positivamente a atenção nos tediosos títulos da franquia Thor, dessa vez, sem superpoderes nem figurino esdrúxulo, mostra que de fato tem talento para ser um perfeito protagonista de ação; para tanto, falta-lhe apenas uma obra focada na narrativa e o trabalho de direção de alguém capaz de seu valer por completo dos recursos disponibilizados pelo ator, características que, como visto, Kong nem almeja ter.
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1.     Conforme escreve Daniel Reininger: “fica clara a relação com o filme de Godzilla, afinal a agência Monarch, mesma do filme de 2014, está por trás da exploração da ilha, sem revelar a ninguém seus reais objetivos: encontrar organismos gigantescos que são ameaças para a humanidade. [...] a necessidade de justificar uma possível luta contra Godzilla num filme futuro faz a trama tomar atalhos e decisões sem muito sentido, que comprometem a qualidade”. Disponível em: https://www.cineclick.com.br/criticas/kong-a-ilha-caveira. Acesso em 26.03.17.

Ficha Técnica

Título Original: Kong: Skull Island
Direção: Jordan Vogt-Roberts
Roteiro: Dan Gilroy, Derek Connolly, John Gatins, Max Borenstein
Fotografia: Larry Fong
Produção: Jon Jashni, Mary Parent, Thomas Tull
Elenco: Tom Hiddleston, Brie Larson, Samuel L. Jackson, Corey Hawkins, Emmy Agustin, Eugene Cordero, Jason Mitchell, Jason Speer, John C. Reilly, John Goodman, John Ortiz, Marc Evan Jackson, Nicole Hunt,  Scott M. Schewe, Sharon M. Bell, Shea Whigham, Thomas Mann, Tian Jing,, Toby Kebbell, Will Brittain, Andre Pelzer
Montagem: Christian Wagner, Richard Pearson
Estreia no Brasil: 09/03/2017
Duração: 118 min.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Personal Shopper



Kardecismo à Francesa

 Personal Shopper (França, 2016) é um filme estranho. E isso é bom. É bom ao passo em que provoca o espectador retirando-o da zona de conforto mediante uma experimentação de formatos na qual o filme de gênero deixa de ser um fim em si mesmo apresentando, ao invés das tradicionais respostas prontas que o caracterizam, questionamentos em aberto sobre vida após a morte que se por um lado propagam ideias defendidas pela doutrina espírita, por outro lado, na última e principal fala do roteiro, escancaram uma janela de plausibilidade a ser saudada sobretudo por aqueles que não comungam do flerte com o sobrenatural proposto pela obra que, nessa toada, pode, então, na medida do possível, passar a ser encarada como um thriller psicológico, a despeito de, como já dito, ocorrer ao longo de seu desenvolvimento uma deliberada quebra das fórmulas do filme de gênero.
Até que a mencionada pergunta final seja feita por Maureen (Kristen Stewart), a porção cética do público restará provavelmente incomodada com a insistência didática e, por isso, pouco fluída com que Olivier Assayas leva para as telas, com a ajuda do youtube, noções básicas e curiosidades em torno do espiritismo. Dentro deste contexto, a utilização também diegética de outras tecnologias de comunicação contemporâneas como skype e sms resultam melhor aproveitadas porque, sobretudo, dialogam não com fenômenos paranormais e sim com o viés dramático da trama voltado para questões como perda, solidão e falta de perspectiva; porém, atenção, isso não significa dizer que Assayas fracassa ao tratar da possível ocorrência de aparições fantasmagóricas para a protagonista, afinal, em tais instantes de suspense o diretor constrói sequências que arrepiam causando medo a partir de uma regra básica do terror: sugerir muito e mostra pouco¹, aspecto esse em que iluminação e ruídos são trabalhados em condições de igualdade a qualidade do desempenho de Kristen Stewart que apresenta quando necessário arroubos de desespero que chamam positivamente a atenção. Com efeito, a atriz que já havia entregue ótimos desempenhos em Corações Perdidos, On the Road e Acima das Nuvens pela primeira vez alcança notas igualmente altas enquanto protagonista, cabendo, por isso, destacar a boa condução de Assayas que adequa recursos dramáticos comumente usados por Stewart, como o ar de tédio e incômodo, à narrativa e, não satisfeito, a leva degraus acima garantindo-lhe novas possibilidades de usufruto de seu talento².
Personal Shopper pode até não ser o melhor trabalho de Assayas em razão de uma certa barriga do roteiro – o excesso de trocas de mensagens praticadas pela personagem principal e o já citado didatismo com que o espiritismo é abordado prejudicam por vezes o andamento da trama. Contudo, mesmo em meio a tais senões, a realização do cineasta é superior a muito do que é cinematograficamente produzido em larga escala de maneira padronizada, êxito esse que é resultado da correta postura de um artista nitidamente disposto a se arriscar por gêneros diferentes, entregando, desta feita, um experimento que não hesita em manejar coisas a princípio estranhas e, principalmente, causar desequilíbrio na plateia – a derradeira pergunta de Maureen que o diga.
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1.“Na década de 1940, os horrores reais da Segunda Guerra Mundial tornaram os monstros do cinema inofensivos. Foi então que os suspenses produzidos por Val Lewton na RKO lançaram a premissa de que, no cinema, uma cena sugestiva pode ser muito mais assustadora do que o terror explícito” (BERGAN, Ronald. ... Ismos – Para Entender o Cinema. São Paulo: Globo, 2010. p. 40.
2.Ademais, Assayas explora a beleza da atriz, com certo quê voyeurístico é verdade, como nunca antes feito e sem fazer disso um ato banal tendo em vista que o culto a beleza – e a futilidade daí acarretada – é um elemento também relevante ao enredo.


Ficha Técnica

Direção e Roteiro: Olivier Assayas
Produção: Charles Gillibert
Elenco: Kristen Stewart, Abigail Millar, Anders Danielsen Lie, Audrey Bonnet, Aurélia Petit, Benjamin Biolay, Benoit Peverelli, Dan Belhassen, David Bowles, Fabrice Reeves, Hammou Graïa, Khaled Rawahi, Lars Eidinger, Leo Haidar, Nora von Waldstätten, Pamela Betsy Cooper, Pascal Rambert, Sigrid Bouaziz, Ty Olwin
Fotografia: Yorick Le Saux
Montagem: Antoinette Boulat
Estreia: 09/03/2017 (Brasil)
Duração: 105 min.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

A Cidade Onde Envelheço



Umbigo Refletido

Em A Cidade Onde Envelheço (Brasil/Portugal, 2016) chega a ser cômico – não fosse trágico – o quão procedentes são as pontuais reclamações e observações de duas portuguesas residentes no Brasil acerca de hábitos do povo tupiniquim. Deixando de lado possíveis notas sobre metáforas envolvendo colonizador e colonizado, eis que o filme de Marília Rocha não possui tal pretensão, o que se percebe são olhares estrangeiros que, além de revelar choques culturais, servem de alerta para que melhoremos desde nosso vocabulário coloquial, permeado por expressões repetitivas e gírias irritantes, além da forma passiva com que aceitamos serviços prestados de maneira desleixada e, sobretudo, a falta de preocupação do brasileiro quanto a não incomodar o outro seja com falta de educação seja com pedidos descabidos como o de dar uma tragada no cigarro alheio.
Vale lembrar que em sendo os diálogos frutos de improviso¹, as ponderações feitas pelas atrizes ganham em autenticidade, afastando-se da possibilidade de serem apenas palavras postas em suas bocas por Marília Rocha que também assina o roteiro. Neste passo, Rocha se limita a garantir um número de reclamações que não se torne intolerável aos ouvidos do público nem faça das personagens seres pedantes, tarefa executada com êxito bastante para, sem exagero, garantir veracidade as acusações de modo tal que das poucas vezes em que essas surgem a atenção do espectador acaba tomada pelas mesmas, sendo, desta feita, aquilo que de mais interessante e significativo o longa-metragem apresenta, já que no campo emotivo não há muito com o que contar tendo em vista a carência de calor que marca a relação entre as duas imigrantes, resultado do comportamento blasé de Francisca (Francisca Manuel) que acaba por influenciar toda a obra.
Tamanha frieza parece fazer parte da proposta narrativa de Marília Rocha daí porque não pode ser encarada necessariamente como um defeito, ainda que inegavelmente dificulte a empatia da plateia. Nesta toada, talvez certa quantidade de monotonia presente na produção pudesse ser aplacada se ao invés de perder tempo com sequências que nada acrescentam – como as cenas em que as mulheres dançam – fosse investido um pouco mais nas emoções e, principalmente, na saudade. Por um lado, o foco preponderante sobre as relações interpessoais estabelecidas principalmente entre as portuguesas e os brasileiros dispõe de inconteste relevância - ainda mais para os nacionais que ganham a oportunidade de refletir sobe seu equivocado conceito de que regras existem para ser quebradas – mas, por outro lado, deixa um tanto incompleta uma análise que poderia ser mais abrangente, aspecto esse em que A Cidade Onde Envelheço só teria a ganhar se fizesse de Belo Horizonte, com sua natureza e arquitetura diversas daquilo que a cidade natal das protagonistas oferece, um cenário responsável por aumentar a incômoda nostalgia sentida por elas.
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1.     Neste sentido sugere-se a leitura dos textos presentes em http://revistapreview.com.br/entrevista/ajudamos-escrever-historia-diz-atriz-cidade-onde-envelheco/ e http://mulhernocinema.com/entrevistas/marilia-rocha-fala-sobre-os-bastidores-e-o-feminismo-de-a-cidade-onde-envelheco/.

Ficha Técnica

Direção: Marília Rocha
Roteiro: João Dumans, Marília Rocha, Thais Fujinaga
Elenco: Elizabete Francisca, Francisca Manuel, Jonnata Doll, Paulo Nazareth, Wanderson Dos Santos
Produção: João Matos, Luana Melgaço
Fotografia: Ivo Lopes Araújo
Montagem: Francisco Moreira
Duração: 99 min.