EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sexta-feira, 21 de abril de 2017

Manchester à Beira Mar



Sem Volta Por Cima

É interessante como a campanha promocional de Manchester à Beira Mar (EUA, 2016) leva a crer que o principal assunto do filme é a relação entre um tio e seu sobrinho e a forma reticente com que o primeiro encara a ideia de ter de mudar de cidade para exercer o papel de tutor do menor. Neste diapasão, embora tal mote tenha sua devida dose de importância para a trama, o que realmente importa no longa-metragem é o que está por trás do comportamento solitário e antissocial do protagonista e, sobretudo, o que o impede de voltar em definitivo para sua cidade natal.
Com efeito, tal revelação é feita sem pressa nem espetacularização, através de idas e vindas no tempo – no que se destaca o eficiente trabalho de montagem. A sutileza, desta feita, impera em respeito a dor dos personagens, quando não em atenção a suas próprias personalidades e fases de vida, daí restar compreensível, por exemplo, o egoísmo do jovem sobrinho, bem como a forma alienada com que lida com o luto, afinal, sua juventude lhe propicia uma espécie de redoma na qual os problemas são bem diversos e menores que os do universo adulto, campo esse preenchido com a introversão de Lee Chandler (Casey Affleck) que carrega nos ombros a responsabilidade por um drama familiar e a certeza de que jamais irá superar isso, daí não haver para ele – ao contrário da interpretação de alguns – qualquer renascimento ou segunda chance.

Dito isso, o modo taciturno, lacônico e introvertido do personagem principal se adéqua de maneira exata ao estilo de interpretação aparentemente inexpressivo de Casey Affleck, cujo modus operandi preza por um minimalismo passível de fracasso sem um roteiro a contento. Felizmente esse não é o caso de Manchester à Beira Mar que registra não um trabalho arrebatador do ator, mas sim a ocasião em que sua maneira de atuar melhor se encaixa a um papel¹. Dentro deste contexto, para seu personagem inexistem momentos de catarse ou de desespero à flor da pele - exceto por algumas brigas de bar e por uma cena passada no interior de uma delegacia que o diretor Kenneth Lonergan, aliás, logo interrompe para evitar uma exposição exagerada da dor do personagem -; por conseguinte, o que sobra para Lee Chandler é o vazio existencial, às vezes interrompido por breves lampejos de relaxamento que no máximo lhe ensejam um sorriso de canto de boca – como visto na sequência em que o sobrinho conduz uma embarcação – mas que jamais significarão felicidade plena, afinal o buraco em sua alma é fundo demais, sendo, assim, o trauma e o arrependimento impasses que nele estarão sempre entranhados².
Dada a trajetória de seu protagonista que, marcado profundamente por uma tragédia, segue vagando sem motivo para continuar respirando e sem qualquer perspectiva de dar a volta por cima, Manchester à Beira Mar naturalmente termina de maneira um tanto amarga, resultado que não poderia ser diverso, uma vez que a vida não é um conto de fadas ou, como cantava o poeta, “a vida realmente é diferente, [...] a vida é muito pior”³.
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1. Oportunidade e reconhecimento que, por exemplo, sua equivalente feminina, Kristen Stewart, também vai aos poucos angariando.
2.  Realidade, vale frisar, compreendida, após certa demora, pelo sobrinho do protagonista em cena de notável inteligência, na medida em que comunica tudo aquilo que pretende sem qualquer diálogo.
3.  BELCHIOR, Apenas um Rapaz Latino-Americano.

Ficha Técnica

Título Original: Manchester By The Sea
Direção e Roteiro: Kenneth Lonergan
Fotografia: Jody Lee Lipes
Produção: Chris Moore, Kevin J. Walsh, Kimberly Steward, Lauren Beck, Matt Damon
Elenco: Casey Affleck, Michelle Williams, Lucas Hedges, Amanda Blattner, Anna Baryshnikov, Ben O'Brien, C.J. Wilson, Gretchen Mol, Heather Burns, John J. Burke, Josh Hamilton, Kyle Chandler, Liam McNeill, Mark Burzenski, Mary Mallen, Matthew Broderick, Quincy Tyler Bernstine, Tate Donovan, Tom Kemp, William Bornkessel
Montagem: Jennifer Lame
Trilha Sonora: Lesley Barber
Estreia no Brasil: 19.01.2017
Duração: 135 min.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Elle



Aparências

Em “O Homem que Adorava Elevadores” Charles Bukowski narra a trajetória de Harry, um homem cujo prazer sexual é condicionado ao cometimento de estupros em elevadores. Certo dia, ao tentar repetir a dose com uma mesma vítima o violador tem sua catarse interrompida pela mulher que ao invés de esbravejar e espernear o convida para copular em seu apartamento. Tamanho consentimento frustra o agressor que, incapaz de seguir adiante, prefere seguir em busca de outra presa. É possível que esse conto de Bukowski tenha servido de inspiração para David Birke quando da elaboração do roteiro de Elle (França/Alemanha/Bélgica, 2016), todavia, engana-se quem pensa que o longa-metragem dirigido por Paul Verhoeven se restringe ao tema do estupro e ao mistério sobre a identidade do criminoso, eis que a produção vai além ao explorar as mentiras sinceras, jogos de poder e manipulações que marcam o universo adulto, ramificando, para tanto, sua trama, com eficiência ímpar entre os personagens coadjuvantes que, ligados a protagonista, colaboram para formar uma teia de realidades aparentes, farsescas, como a seguir exemplificado:
a)    Michèle Leblanc (Isabelle Huppert): assume postura inabalável,  o que justifica sua atitude, logo após o estupro sofrido, de primeiro limpar os cacos de vidro e objetos deixados no chão de sua sala de estar em virtude da luta corporal travada com o agressor para somente em seguida se livrar do sêmem e sangue nela entranhados. Todavia, por mais que a violência sexual recém experimentada aparente ser apenas mais uma das muitas provações de vida que de maneira rotineira e pragmática teve/terá de superar, os pensamentos da personagem não tardam a ser infestados por incômodas lembranças do ocorrido que a deixam num primeiro estágio confusa e adiante excitada perante o jogo de sedução que acaba instaurado entre ela e o estuprador.
b)    Anna (Anne Consigny): é a melhor amiga de Michèle e segunda mãe do filho desta a quem amamentou ainda na maternidade; tal relação seria de uma fraternidade e lealdade absolutas não houvesse um leve interesse erótico entre as duas e não fosse Michele amante secreta do marido da primeira.
c)    Vincent (Jonas Bloquet): filho de Michèle, aparenta ser um adulto empenhado em trabalhar para não depender financeiramente da mãe, independência essa que esbarra na subserviência demonstrada perante a namorada que dele abusa psicologicamente e que lhe empurra, sem qualquer traço de rejeição, uma paternidade que visivelmente não lhe diz respeito.
d)   Rebecca (Virginie Efira): é a vizinha carola que, não obstante toda fé e retidão, mesmo sabedora dos fetiches do marido nada faz para intervir nos crimes por ele cometidos.
e)   Kevin (Arthur Mazet): é o único funcionário de Michèle que por ela demonstra afeição, o que, entretanto, não o impede de praticar cyberbulling contra a patroa.
Em meio a tudo isso soa emblemático que Michèle explore profissionalmente o ramo dos games, isto é, da realidade virtual, afinal, ao que tudo indica para ela resulta mais simples lidar com dissimulações que com verdades nuas e cruas - vide os relacionamentos tempestuosos que a deixam como que de mãos atadas mantidos com a mãe, o namorado gigolô desta e o empregado que manifestamente a despreza - por ser aquele um terreno manipulável no qual sua experiência é uma aliada. A facilidade com que Michèle lida com a dissimulação pode ainda ser resultado de uma prática contumaz da mesma, qual seja “suscitar reações de agressividade, desprezo, desrespeito e violência contra si porque se compraz nelas, ou as considera mais limpas e honestas“¹, como salienta Isabela Boscov.
Tem-se, assim, possibilidades interpretativas que podem facilmente ser confrontadas com outras² graças ao trabalho de Verhoeven que as manuseia sem cometer o erro de eleger uma em detrimento de outra(s), refletindo, por conseguinte, que ninguém é absolutamente bom ou mal por mais vítima que seja em determinado instante ou como, novamente, Boscov conclui:

As pessoas são abismos, e é um alívio que ainda haja cineastas e atores com coragem para fazer filmes que não acham necessário resolvê-las, justificá-las, desculpá-las ou melhorá-las, mas que simplesmente reconhecem que elas são como são, e as abraçam do jeito que são³.
Esse emaranhado de relações de aparência é costurado com um humor cínico que não se escusa de flertar com o absurdo - tal como Pedro Almodóvar costumava fazer na fase, inicial, escrachada de sua filmografia -, daí, mais uma vez, Boscov corretamente observar que “Elle não é um drama. É um suspense erótico e uma comédia de humor negro. E é assim, transitando por gêneros que Verhoeven enfrenta assuntos espinhosos e sai do embate vitorioso compondo uma obra que não teme ser amoral para os padrões de uma época em que tudo tende a ser exaustivamente problematizado.
Dentro deste contexto, convém citar a análise de Iara Vasconcelos, a saber:
violentada por um homem mascarado [...] Michelle resolve manter o fato em segredo de sua família e amigos, deixando claro que Elle não é um filme sobre vingança.
[...]A história ganha novos contornos quando ela e o criminoso se envolvem em um jogo sexual perigoso e pouco compreensível ao espectador. Como ela consegue fazer isso mesmo depois de sofrer tamanha violência? Explicar isso não é o foco de Verhoeven. Não espere problematizações ou análises psicológicas. Elle está ali para mostrar que nem tudo no cinema precisa ser racional, preto no branco, ou ter uma lição por trás.
[...]o filme [...]  causa [...]desconfortos ao falar de estupro em um ambiente tão cômico. É difícil não projetar a nossa reação na personagem e até acharmos que seu conteúdo é misógino, mas Michelle não foi criada para ser uma "vítima ideal" e isso nos tira de nossa zona de conforto.
Dito isso, é um deleite constatar que Verhoeven não almeja a piedade alheia para sua protagonista, uma vez que não busca tornar a mesma nem mártir – erro cometido, por exemplo, em Paulina (Argentina, 2015) – nem vítima, ainda que de fato assim seja quanto ao crime sexual inicialmente sofrido, isso porque, não é o referido ato de violência que tornará a personagem melhor ou pior, visto que sua personalidade e seus atos são na verdade moldados a ferro e fogo pelos anos pretéritos de dificuldades e humilhações aos quais fora exposta em decorrência da série de assassinatos cometidos pelo pai psicopata. Em outras palavras, não é o estupro que fará de Michèle mais ou menos digna, por mais hedionda que seja tal prática. Não é o estupro que a tornará mais ou menos ética. Sua moralidade está além disso.
Neste sentido, vale especular o quão complexa há de ter sido a construção narrativa e imagética de Elle, pois, como pondera Mariane Morisawa, “em vez de evitar minas, Verhoeven vai ao encontro delas⁶; daí que qualquer passo em falso do cineasta em meio ao modo controverso e polêmico com que trata os delicados assuntos questionados pelo roteiro poderia prejudicar de maneira irremediável o resultado final da obra. Felizmente, a falta de pudor com que abraça e até reverencia as ambiguidades e vicissitudes do comportamento humano torna o filme deveras interessante e provocativo na medida em que alerta o espectador para o fato de que a arte não se presta a pôr panos quentes e sim a instigar e estimular discussões, tarefa essa que Elle, há de se convir, cumpre com louvor.
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1.Disponível em http://veja.abril.com.br/blog/isabela-boscov/elle/. Acesso em 10.04.17.
2.A própria Isabela Boscov entende, por exemplo, ao contrário do que aqui é defendido que Michéle afasta as imagens do estupro “sem muita dificuldade nem muito sofrimento” e que nela não há “qualquer respeito pelos pequenos fingimentos que lubrificam as relações sociais” (Op. Cit.)
3-4.Op. Cit.
5.Disponível em https://www.cineclick.com.br/criticas/elle. Acesso em 10.04.17.
6.Revista Preview. Ano 8. ed. 86. São Paulo: Sampa, Novembro de 2016. p.51.

Ficha Técnica

Direção: Paul Verhoeven
Roteiro: David Birke
Elenco: Isabelle Huppert, Alice Isaaz, Anne Consigny, Anne Loiret, Arthur Mazet, Charles Berling, Christian Berkel, David Léotard, Hugo Conzelmann, Hugues Martel, Jonas Bloquet, Judith Magre, Laurent Lafitte, Loïc Legendre, Lucas Prisor, Nicolas Beaucaire, Raphaël Lenglet, Stéphane Bak, Vimala Pons, Virginie Efira
Produção: Michel Merkt, Saïd Ben Saïd
Fotografia: Stéphane Fontaine
Montagem: Job ter Burg
Trilha Sonora: Anne Dudley
Estreia no Brasil: 17.11.2016
Duração: 130 min.

domingo, 26 de março de 2017

Kong – A Ilha da Caveira



Pastiche

Kong – A Ilha da Caveira (EUA, 2017) se vale de uma estratégia comum ao cinema-catástrofe dos anos 1970: a utilização de atores consagrados no elenco como forma de agregar credibilidade ao produto. Dito isso, é uma pena que, não obstante toda a quantidade de dinheiro disponível para a contratação de tais artistas, a produção fracasse ao não conseguir extrair o potencial dos mesmos, o que é resultado da condução do diretor Jordan Vogt-Roberts, visivelmente preocupado em se debruçar sobre o elemento neófito responsável por diferenciar esta versão de King Kong das anteriores, qual seja a fusão do tradicional enredo sobre o Rei dos Macacos com filmes de guerra passados no Vietnã - com destaque especial para o setentista Apocalipse Now (EUA, 1979).

Assim, Vogt-Roberts se concentra em criar um pastiche de fotografia saturada e CGI exagerado, deixando relegado a um segundo plano o desenvolvimento dos personagens que, embora no primeiro ato sejam até devidamente apresentados, não tardam a ser subaproveitados, circunstância que atinge até mesmo o próprio Kong que deixa de ser protagonista de seu filme para ser tão coadjuvante quanto todos os outros personagens que, desta feita, transitam aleatoriamente em torno de uma trama que no fundo quer apenas mostrar explosões e situações extremas geradas por seus efeitos visuais de ponta, além, vale lembrar, de preparar terreno para o duelo que em breve o símio terá com Godzilla¹.
Neste diapasão, por alguns instantes chega a ser curioso o modo debochado com que a figura de Samuel L. Jackson é reverenciada por Vogt-Roberts na medida em que aquele é o único ser humano capaz de amedrontar (com um olhar) o gorilão; porém, a manutenção da piada logo acaba por fazer de seu militar enfezado uma mera caricatura tal como ocorre com os demais que volta e meia restam sacrificados por diálogos infames e previsíveis, aspecto esse em que também merece registro a irrelevante participação da oscarizada Brie Larson. Já Tom Hiddleston, que já havia chamado positivamente a atenção nos tediosos títulos da franquia Thor, dessa vez, sem superpoderes nem figurino esdrúxulo, mostra que de fato tem talento para ser um perfeito protagonista de ação; para tanto, falta-lhe apenas uma obra focada na narrativa e o trabalho de direção de alguém capaz de seu valer por completo dos recursos disponibilizados pelo ator, características que, como visto, Kong nem almeja ter.
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1.     Conforme escreve Daniel Reininger: “fica clara a relação com o filme de Godzilla, afinal a agência Monarch, mesma do filme de 2014, está por trás da exploração da ilha, sem revelar a ninguém seus reais objetivos: encontrar organismos gigantescos que são ameaças para a humanidade. [...] a necessidade de justificar uma possível luta contra Godzilla num filme futuro faz a trama tomar atalhos e decisões sem muito sentido, que comprometem a qualidade”. Disponível em: https://www.cineclick.com.br/criticas/kong-a-ilha-caveira. Acesso em 26.03.17.

Ficha Técnica

Título Original: Kong: Skull Island
Direção: Jordan Vogt-Roberts
Roteiro: Dan Gilroy, Derek Connolly, John Gatins, Max Borenstein
Fotografia: Larry Fong
Produção: Jon Jashni, Mary Parent, Thomas Tull
Elenco: Tom Hiddleston, Brie Larson, Samuel L. Jackson, Corey Hawkins, Emmy Agustin, Eugene Cordero, Jason Mitchell, Jason Speer, John C. Reilly, John Goodman, John Ortiz, Marc Evan Jackson, Nicole Hunt,  Scott M. Schewe, Sharon M. Bell, Shea Whigham, Thomas Mann, Tian Jing,, Toby Kebbell, Will Brittain, Andre Pelzer
Montagem: Christian Wagner, Richard Pearson
Estreia no Brasil: 09/03/2017
Duração: 118 min.